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Sábado 31 de Octubre de 2020
17:06 hs.

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ARTE E CULTURA
Lutemos por uma arte revolucionária em meio à pandemia e ao governo Bolsonaro
Sara Fernandes
Júlia Miguez, estudante de Artes na UERJ

Em meio a uma pandemia que, combinada à perspectiva de miséria que o capitalismo impõe, já sequestrou a vida de milhares, o impacto se expressa também na arte e na produção cultural. A partir do marxismo podemos aprofundar a discussão acerca da luta por uma arte revolucionária e independente. Afinal, para além do que o distanciamento impôs aos artistas e a partir de reflexões profundas sobre a construção de uma nova sociedade, qual o papel que concretamente a arte pode cumprir nesse processo?

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O negacionismo de Bolsonaro e a política dos governadores com uma quarentena sem critérios abriu duas possibilidades aos trabalhadores: morrer de fome ou se expor ao vírus. Essa realidade não se expressou diferente para os artistas. O distanciamento social, o aumento do desemprego para os trabalhadores do meio artístico, principalmente os autônomos, significou um aprofundamento do que já sofrem com a precarização do trabalho e a informalidade, ficando sem alternativas e fontes de sobrevivência muitos contando com um auxílio emergencial insuficiente.

Em meio ao avanço da direita e da extrema direita fundamentalista, com Bolsonaro e seus aliados à frente despejando todo seu ódio aos artistas, junto às defesas mais esdrúxulas que estruturam os pilares desse regime apodrecido, os ataques do governo à arte e à produção cultural se escancaram na pandemia, com inúmeros casos de censura, perseguições ou demissões, como a dos terceirizados do Theatro São Pedro em Porto Alegre,, trabalhadores esses com anos de casa e que mantém o funcionamento desse espaço importante para o acesso à arte e à cultura. Bolsonaro e seus aliados evidenciam que sua intenção é consolidar um projeto de controle governamental da produção de arte e cultura no país, nítida tentativa de silenciar o papel histórico de questionamento, denúncia e expressão da realidade e das necessidades humanas que a arte pode cumprir.

Aqui no Rio de Janeiro, a desvalorização da arte e da cultura, provenientes do descaso e desse controle dos governos, vêm se expressando dolorosamente ao longo dos anos, como a cena revoltante do Museu Nacional em chamas, 100 milhões de anos de memória destruídos levando em suas cinzas as imensas contribuições para a cultura do Rio e toda uma série de vivências tecidas e lembranças de tantos trabalhadores e juventude que puderam ter nesse espaço um acesso a lazer e cultura, um dano irreparável fruto dos ataques do governo Temer, que congelou os gastos em educação durante 20 anos, além de cortar verbas de manutenção e estrutura, culminando nesse trágico incêndio. O sentimento geral de muita indignação contra o descaso geral e principalmente contra o governo golpista Temer, levou milhares às ruas expressando revolta com a tragédia, contra os cortes na educação, cultura e ciência. É importante lembrarmos que o governo Dilma não aplicou 20 milhões liberados em 2014 para o Museu Nacional. Além disso, nos últimos anos se intensificou os ataques racistas, perseguindo e oprimindo o povo negro, como a criminalização do funk, Ataques carregados de conservadorismo e fanatismo religioso também marcam o Rio, quando Crivella censurou a exposição "Queermuseu" no Rio de Janeiro. As políticas dos governos, entrelaçadas pelo racismo, machismo, LGBTfobia, também ficaram evidentes durante os governos do PT no país, quando, por exemplo, ao invés de lutar pela legalização do aborto, Dilma assinou a "Carta ao Povo de Deus" em compromisso com as Igrejas, os governos petistas negaram o direito ao aborto, seguro e gratuito.

Apesar dos muitos acontecimentos, não precisamos ir muito longe para demonstrar como esse controle se expressará com todo reacionarismo e conservadorismo e que afetará diretamente nas expressões e produções culturais e artísticas. Hoje, em meio ao processo de eleições, partidos que dizem batalhar pela transformação social, adotam políticas que não condizem com os interesses da classe trabalhadora e não batalham por alternativas reais para sair da crise, como a candidatura de Benedita da Silva no Rio de Janeiro que acaba de votar a favor do perdão de 1 bilhão de reais em dívidas das Igrejas, junto a outros deputados do PT e de toda a bancada do PCdoB, mostrando que seguem na falida aposta de "combater a direita" votando com a direita, assim como a escandalosa escolha do PSOL por um ex-Comandante Geral da PM, Ibis, para vice-prefeito de Renata Souza, num estado violento como o Rio de Janeiro, onde sistematicamente assassina a população negra. Todo o conjunto da política, se expressará também na produção de arte e cultura, já que a maioria dos partidos de esquerda não apresentam um programa que realmente se enfrente com a direita e seus ataques conservadores e reacionários.

É frente a esse cenário que a arte entra em cena como um fenômeno

Ficou evidente a importância da criação e da valorização da arte e da produção cultural como algo que abarque as subjetividades afetadas pela pandemia e pela crise de conjunto que se agrava, além de ser uma ferramenta crítica a esse sistema. Artistas locais e independentes por todo o país vêm proporcionando a interação através de redes sociais ou até mesmo nas sacadas e janelas de suas casas. Para toda essa iniciativa dos artistas, não pode ser invisibilizado as dificuldades que possuem nesse processo, assim como não podemos deixar de ver a quantidade de produções que surgiram como expressão da realidade e também por uma outra alternativa de vida e futuro para vislumbrar e lutar por ele.

No Rio de Janeiro, estado marcado pelas infinitas expressões artísticas e culturais ao longo de processos históricos brutais como a escravidão e os processos de urbanização, vêm sendo fortemente resgatados pela juventude que luta contra o racismo, o machismo e o capitalismo, expressando a potência que pode ser em ativar as mentes inquietas e incomodadas com a miséria desse sistema, para buscar alternativas que verdadeiramente se enfrentem com a realidade imposta. É nosso papel, como artistas, através do nosso trabalho e expressões, escancarar para os trabalhadores e a juventude, o que se aproxima, contagiar com toda a sensibilidade que a arte pode fazer, denunciar e se posicionar politicamente, quando por exemplo, partidos que se dizem lutar pelos trabalhadores, na verdade estão de mãos dadas com a burguesia, atacando os trabalhadores, negros e negras, mulheres, LGBT’s, artistas e todos os setores oprimidos.

Como estudantes da UERJ, entre muitos exemplos de como a arte pode contribuir com o questionamento e reflexões, podemos citar o projeto "Olha Geral", uma exposição realizada por estudantes do Instituto de Artes da UERJ que, todos os anos, há mais de dez anos, apresenta diversos trabalhos sobre um tema atual e recorrente, como foi a chamada desse ano "Olha Geral Quarentena", com os questionamentos "Como mover-se no espaço de confinamento?", "Quais detalhes do novo cotidiano provocam você?" e "Qual o impacto da nova realidade na sua vida futura?". A convocatória de estudantes e trabalhadores a pensar e construir trabalhos de temas pertinentes, principalmente no governo atual, nos leva incansavelmente a pensar como utilizar nossa arte e nossa criatividade para pensar a revolução de forma de crítica aos acontecimentos absurdos da atualidade e da história do capitalismo.

Não só frente à pandemia e às crises hoje, vemos a arte se movimentar como um fenômeno. A arte expressa certa tendência e subjetividades da época vivida. Se falamos de uma arte que traz em seu cerne um espírito de revolta, podemos dizer que em meio à crise que vivemos hoje, por um lado uma arte que expressa certo pessimismo geral com a realidade, mas que em momentos de luta de classes, a arte surge como fenômeno, aumentando a produção e o consumo, principalmente por ser momentos agudos onde as pessoas potencialmente se interessam em expressar e consumir, muitas vezes por fora dos meios convencionais artísticos, e a arte ultrapassa o caráter de uma arte de revolta, mas passa a colocar suas aspirações, expressar o desejo pela emancipação da humanidade, como dizia Trótski, um "otimismo do futuro", questionando e apoiando criativamente os processos de luta dos trabalhadores.

A arte e produção cultural marcam eventos e períodos historicamente conturbados, contribuindo profundamente de formas e níveis distintos. Nós, como artistas marxistas, compreendemos que a arte por si não provoca revoluções, mas pode participar ativamente de uma revolução enquanto importante força ideológica. O marxismo exige uma arte violenta: Se para Marx a arte é uma esfera essencial da realização humana e o capitalismo nega/mutila pelo trabalho alienado o corpo do homem, os artistas não podem ficar indiferentes. Podemos citar a influência do envolvimento e contribuições da arte e cultura nos processos de Maio de 1968 na França, quando estudantes e trabalhadores desafiaram o poder, que bradava pela "imaginação no poder!", "tomemos o céu por assalto!" ou "sejamos realistas, exijamos o impossível!". Podemos resgatar aqui no Brasil, produções como o disco "Tropicália ou Panis et Circencis" gravado em julho de 1968, por Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa, Os Mutantes, Tom Zé, Nara Leão, os poetas-compositores Torquato Neto, José Carlos Capinam e o maestro e arranjador Rogério Duprat, gravado sob os fortes ventos do Maio francês, disco esse, considerado o álbum-manifesto do tropicalismo, em meio à Ditadura Militar Burguesa após o decreto do AI-5.

Por uma arte revolucionária e independente!

Contudo, se não podemos em um único texto esgarçar os muitos exemplos históricos, nos concentremos em resgatar um período em que um movimento artístico foi muito além de expressar resistência, mas uniu desde o pensamento da estética ao firme posicionamento político com estratégia revolucionária: o movimento Surrealista.

Com a presença das teorias trotskistas desde a sua construção e expressos no manifesto da Federação Internacional de Arte Revolucionária Independente - Fiari, Por uma arte revolucionária e independente, escrito em 1938, por Breton e Trotsky, expressa a profundidade com que se pode enxergar o papel da arte como ferramenta na luta dos trabalhadores pela libertação da humanidade. Um movimento que não se limitava à produções artísticas e literárias, mas que era na verdade "mais propriamente um movimento de revolta do espírito e uma tentativa eminentemente subversiva de reencantamento do mundo" nas palavras de Michael Löwy sobre Surrealismo e Marxismo.

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Tinham como objetivo claro a contribuição para promover o proletariado e sua revolução, que deveria destruir a sociedade capitalista. O que desde o ínicio já vinha de uma aproximação forte das posições de Leon Trotsky, e da Oposição de Esquerda, culminou em 1935 no rompimento completo do movimento com o Partido Comunista Francês, em oposição às suas práticas que tinham ligação com a política stalinista e seu oportunismo ao implantar o socialismo em um único país. Consistia também em convencer as organizações de esquerda de que a arte revolucionária não deveria ser uma arte de propaganda (comum à URSS), mas sim, que a arte pudesse liberar, de toda forma, os verdadeiros sentimentos humanos.

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Resgatar o legado e lições desse movimento pode acender em nós as mais profundas, sensíveis e criativas formas de contribuir a partir da arte e da produção cultural nesse cenário que vivemos, em que evidencia a cada dia que o desafio é preparar a classe trabalhadora e o povo para os embates que já se anunciam. Como estudantes e trabalhadores de artes, viemos impulsionando desde o Movimento Revolucionário dos Trabalhadores e a Juventude Faísca, a pré-candidatura da professora Carolina Cacau, aqui no Rio de Janeiro, uma voz revolucionária que a partir de legenda democrática pelo PSOL, apresenta um programa com independência de classe, para fazer com que os capitalistas paguem pela crise e partindo da posição de que o parlamento não pode ser um fim em si mesmo, mas uma ferramenta na luta para que os trabalhadores tomem em suas mãos os rumos e decisões, já que são os que fazem a cidade funcionar, assim como partimos da perspectiva de que a arte e cultura não devem ser meras expressões da realidade ou críticas em si, mas vislumbrar e lutar pela sua participação ativa nesse processo.

Apoiar criativamente a construção de candidaturas revolucionárias, refletir e construir propriamente um partido revolucionário no nosso país, são alguns dos papéis que podem cumprir os artistas na luta pelo fim do sistema capitalista. Por isso, fazemos um forte chamado a todos os estudantes e trabalhadores a construírem com a gente uma forte organização independente, de todos os artistas, demonstrando solidariedade com as diversas categorias da classe trabalhadora que hoje se enfrentam com a brutalidade dos ataques capitalistas, seja com a fome, com a pandemia, com o desemprego, com as balas da polícia.

Lutamos pelo fim do capitalismo para que, como destacava Trótski, se desenvolva a técnica para que a matéria dê ao ser humano tudo que ele precisa e muito mais, mas este objetivo responde a outro fim mais elevado que é o de libertar para sempre os poderes criativos do ser humano de todas as travas, limitações ou dependências humilhantes e que as relações pessoais, a ciência, a arte, já não tenham que sofrer com nenhuma sombra de dominação despótica, para que tenhamos direito, não só ao pão, mas também à poesia!

 
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