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Sábado 31 de Octubre de 2020
16:33 hs.

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ELEIÇÕES RIO DE JANEIRO
6 motivos pelos quais Benedita da Silva do PT não deve ser a alternativa a Crivella e Paes
Carolina Cacau
Professora da rede estadual em Nova Iguaçu-RJ e dirigente do Quilombo Vermelho - Luta Negra Anticapitalista e MRT
Rita Frau
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A política do Rio de Janeiro no estado e no município está sendo palco de escândalos de corrupção envolvendo empresários e políticos como o racista Witzel, e Crivella escandaliza com seus Guardiões bem pagos com o dinheiro público que atuam como agentes infiltrados para esconder as mazelas do governo na saúde e educação. Enquanto a maioria dos pré-candidatos à prefeitura do Rio de Janeiro estão comprometidos com os interesses capitalistas e tentarão disputar votos da base bolsonarista, uma das pré-candidaturas que se colocam no campo progressista e de esquerda é Benedita da Silva (PT). Já publicamos uma nota crítica à candidatura de Martha Rocha do PDT, que não deveria sequer ser considerada progressista. São críticas que fazemos para que se conclua a necessidade de superar o PT pela esquerda.

O PT escolheu o nome da Benedita da Silva para disputar as eleições após a retirada de Marcelo Freixo, que já debatemos aqui. Com sua nomeação o PT aposta em seu histórico de vida como uma tentativa de criar identificação pela representatividade de ser uma mulher negra e de origem da favela e para essa operação, o PT aposta em apresentá-la como uma das responsáveis pela inclusão do racismo como crime, pela adoção de cotas na UERJ e na aprovação de direitos às empregadas domésticas.

Diante dos ataques do governo Bolsonaro, da direita no Rio de Janeiro e das denúncias de corrupção envolvendo Witzel e Crivella, o PT também faz campanha com o fato que Benedita ter sido a única governadora do Rio que não foi presa. Sempre devemos ter claro que essas movimentações do judiciário nunca vão resolver o problema da corrupção, são usadas politicamente para beneficiar um esquema em detrimento do outro, num autoritarismo cada vez maior do judiciário, que define quem pode governar o país e o RJ como quer. Dito isso, se bem é verdade que Benedita não foi presa por corrupção (o que devíamos partir de que não é um mérito e sim uma obrigação elementar), é preciso debater qual foi a estratégia adotada pelo PT durante todos esses anos. Pois outro fato também verdadeiro é que apesar de conceder alguns direitos, o PT com sua política de conciliação de classe esteve aliado e fez parte dos governos de Antony Garotinho e Sérgio Cabral, e Paes na prefeitura, políticos que sempre governaram para os capitalistas e estiveram envolvidos em escândalos de corrupção sempre tiveram uma política de extermínio do povo negro em defesa da Casa Grande.

O Rio de Janeiro foi vitrine do projeto de país dos governos do PT e sua estratégia de conciliação de classes também foi responsável pela situação de miséria, violência, precarização, terceirização e remoção. Por isso, queremos elencar pontos para debater porque a pré-candidatura da Benedita da Silva não é uma alternativa para enfrentar a ultra direita e a direita como Crivella e Eduardo Paes.

1) Em 2002 Benedita governou por 9 meses o estado: morreram 900 jovens pelas mãos da PMRJ

Benedita afirma atualmente que, quando governou o estado do RJ por 9 meses em 2002 quando Garotinho se afastou para disputar a presidência, “investiu em inteligência policial pra enfrentar o crime organizado, prendendo vários criminosos sem dar um tiro nas favelas”. Mas a realidade mostra o contrário, a corporação racista bateu recorde com 900 jovens e negros assassinados pelo estado, quase o dobro do ano anterior, segundo o ISP, mostrando que pra combater o racismo não basta uma mulher negra no poder e que “investir em inteligência” é sinônimo de repressão da juventude e povo negro nas favelas.

Benedita também se apoia no fato em que em seu governo concluiu e inaugurou a estação Siqueira Campos do metrô. Mas é preciso lembrar que foi com a participação da Andrade Gutierrez (AG) que encabeçou vários projetos do PAC de infraestrutura como rodovias, o Consórcio da Belo Monte, projetos que para preparou o Rio para a Copa do Mundo de 2014 e protagonizou com outras grandes empreiteiras com denúncias de uma série de esquemas de corrupção durante a organização do evento.
Essas empreiteiras e outras tiveram estreita relação com a ditadura, apoiaram o golpe de 1964 e envolveram-se com os militares e figuras fortes do regime, ou seja, sempre tiveram participação no estado brasileiro e em todos os anos de governo do PT também.

2) Integrou o governo Cabral como Secretária de Assistência Social e Direitos Humanos de 2007 a 2010 e apoiou sua reeleição

Na política de alianças do PT com o MDB, fez parte do governo Cabral, que com o apoio do presidente Lula e seu projeto de país foi parte de implementar privatizações no Rio como o grande consórcio do Porto Maravilha e as remoções para garantir os mega-eventos. Foi também no primeiro mandato do Cabral que foram implementadas as UPP´s (projeto apoiado por Lula) que em 2013 matou Amarildo e reprimiu duramente junto com o Paes as manifestações de Junho e a greve de professores municipais.

O PT além de ter participado do primeiro mandato do Cabral, apoiou junto com a Dilma, a sua reeleição. No período da formação de chapas para as eleições ao governador em 2010, o então presidente estadual do PT, Washington Quaquá, tentou articular Lindbergh Farias como cabeça de chapa, o vice seria ninguém menos que o Crivella, que era ministro da Pesca do PT, e Cabral entraria para disputa para o Senado na mesma aliança. Benedita apoiou também essa proposta afirmando que: “Com essa chapa, não estamos excluindo nenhum aliado. É uma chapa equilibrada”. No final se manteve Cabral como governador e Pezão vice, apoiados pelo PT na coligação Juntos pelo Rio, em nome da aliança nacional e troca de apoio para a reeleição de Dilma.

Cabral em 2014 com o apoio de Dilma mandou ocupar a Maré com as Forças do Exército Nacional garantindo o emprego de Garantia de Lei e da Ordem (GLO), ocupação militar que durou um ano com várias denúncias de abuso de poder e repressão contra a população negra na Maré.

Benedita fala criticamente de Eduardo Paes, como se o PT não tivesse apoiado e participado do seu governo, que atacou a greve histórica dos garis com repressão e chamando-os de “marginais” e o PT não fez nada através dos sindicatos que dirige filiados à CUT nacionalmente e no Rio para cercar essa greve de solidariedade. Justamente a maior categoria da cidade, com aproximadamente 33 mil trabalhadores, majoritariamente negros, que sempre foram submetidos pela burguesia racista e os governos às condições de trabalho precárias. O PT saiu do governo do Paes só em 2016 com uma ruptura justificada no apoio do PMDB ao golpe institucional e por isso disputaram como vice na candidatura de Jandira Fegahli (PcdoB). Com essa estratégia de conciliação de classes em aliança com a direita que abriu espaço para avançarem no golpe institucional e abriu caminho para Bolsonaro.

Foi justamente também essa estratégia com as alianças que o PT construiu ao longo desses anos que não resolveu nenhum problema estrutural no Rio de Janeiro, como deixou um forte legado de remoções (65 mil entre 2009 e 2013 na gestão do Paes), privatizações, aprofundamento de esquema de corrupção e da repressão. Essa "herança" é parte da crise do Rio hoje, que como sempre recai sobre as costas dos trabalhadores.

3) O PT apóia candidaturas bolsonaristas no estado do RJ

Além disso fica mais escandaloso até onde pode chegar a política de conciliação de classes e oportunista sem princípios do PT, como o apoio que foi votado para a candidatura à reeleição do Waguinho, o prefeito bolsonarista em Belford Roxo. Quaquá que liderou a proposta disse que “Waguinho é um aliado tradicional do PT”. Apoio justamente na semana que o Brasil atingia a marca de 100 mil mortes pela Covid-19, e assim como Bolsonaro, Waguinho tratou a pandemia como uma gripezinha, sendo o 10º maior município em número de casos e 8º no número de mortos.

Waguinho (MDB) apoiou Lula e Dilma, e o PT desde 2016 faz parte de seu governo. Gleise Hoffman diz que batalhou para que o PT tivesse candidatos próprios em todos os municípios pois “só o PT poderia se defender”, mas afirma que o apoio à reeleição de Waguinho foi uma decisão que tem que ser acatada já que foi voto vencido e o PT funciona assim há 40 anos. Benedita disse em entrevista para O Cafezinho que é parte da direção nacional do PT e que aprenderam dentro do PT que quando se toma uma decisão é importante que “a gente que perdeu possa aceitar o resultado e não criar nenhuma situação constrangedora para o próprio partido e que essa questão é “matéria vencida” e tem que olhar pra frente pra eleger os vereadores e bancada.

Mais recentemente Quaquá também firmou apoio ao bolsonarista Marcelo Delaroli (PL) para a prefeitura de Itaboraí. Além de ter tentado filiar um Policial Militar citado na CPI das milícias para ser candidato a vereador (e que depois teria desistido da filiação pelo PT).

4) O PT nos estados que governa no NE aplicou as reformas da previdência estaduais e freia a luta dos trabalhadores na direção dos sindicatos

O PT denuncia o governo Bolsonaro e os políticos que estão aplicando os ajustes e as reformas, mas assim como o PcdoB, nos estados do Nordeste que governa aplicou os ajustes dos patrões com a reforma da previdência. Benedita fala como se parecesse que já não governassem algum estado. Ao mesmo tempo que falam em defesa da vida contra a política negacionista de Bolsonaro, não garantiram, no estado do Rio Grande do Norte, governado por Fátima Bezerra do PT, testes massivos para a população e EPIs, nem mesmo foram garantidos leitos para todos que precisavam, chegando a produzir uma fila de mais de 200 pessoas por um leito de UTI.

O PT também assinou uma carta junto a outros governadores do Nordeste (PCdoB e PSB) contra uma fila única de leitos do SUS e do sistema privado de saúde. Isso demonstra que, apesar dos discursos, na prática não há uma política de fato de combate à COVID-19, por exemplo, que diferencie a política dos governadores do Nordeste de outros estado do Brasil.

O PT também dirige uma das principais centrais sindicais do país, a CUT, que segue na trégua com o governo Bolsonaro pois a política do PT é colocar todas as suas fichas na via eleitoral, e ir preparando o terreno para as eleições presidenciais em 2022.

No Rio de Janeiro dirigem sindicatos importantes como o Sindicato dos portuários, bancários e são parte da direção do SEPE, para citar alguns. Nacionalmente poderiam junto com a CTB (PcdoB) unificar petroleiros e bancários com a luta dos trabalhadores dos Correios em greve contra o projeto de privatização das estatais de Guedes. Essas propostas não aparecem na campanha da Benedita. Além disso, Lula, no 7 de Setembro, apareceu com um discurso mais radical sem parecer que “suja suas mãos”, mas as demonstrações dos ataques nos estados que governam no NE, a fragmentação das lutas e o freio das burocracias sindicais e os acordos e trabalho pelas frentes amplas com todo o tipo de golpista da direita e até mesmo apoio à candidatos bolsonaristas, mostra a divisão de tarefas do PT nesse momento com sua estratégia de conciliação de classes.

5) Benedita da Silva votou a favor do perdão de 1 bilhão de reais em dívidas das Igrejas

Benedita da Silva votou com mais 3 parlamentares do PT, o perdão de 1 bilhão de reais das dívidas da Igreja, com a anulação da cobrança do imposto sobre lucro e a cobrança das dívidas previdenciárias destas instituições. O projeto aprofunda privilégios das Igrejas, que já não pagavam impostos e utiliza o aparato do Estado, concessões de televisão, bancadas parlamentares para privilegiar um certo grupo de pastores-políticos, que utilizam suas Igrejas como palanque de votos e em seguida tentam impor suas concepções religiosas ao Estado.

Apesar de Benedita da Silva defender em sua campanha o Estado Laico, não passa de pura hipocrisia pois com esse voto mostra mais uma vez a conciliação com a bancada conservadora, o que não surpreende, já que o PT todos os anos de governo conciliou com a bancada religiosa que odeia as mulheres e LGBT e nunca concedeu o direito ao aborto legal, seguro e gratuito elementar pra que as mulheres parem de morrer. Para manter o apoio da bancada evangélica e sua base de olho nas eleições, o PT também, em 2019, realizou o 1° Encontro de Evangélicos e Evangélicas do partido que teve Benedita da Silva à frente.

6) A representatividade da mulher negra como estratégia para conciliar as classes não é uma saída para negros e negras

As eleições marcam o racismo estrutural e divisão de classes no nosso país, de dois em dois anos uma maioria de políticos brancos, ricos, representantes dos capitalistas, ocupam cargos e votam leis apenas a serviço dos seus interesses. Ter tão poucos negros em cargos executivos é uma expressão concreta do racismo na política brasileira, que serve para explorar a enorme massa de trabalhadores, majoritariamente negros. Mas rebaixar as aspirações dos negro e negras ao papel de eleger um representante para ocupar um lugar de autoridade no executivo e manter esta autoridade como é hoje, como gabinete de comando das Polícias Militares ou Guardas Municipais que reprimem o povo negro, vai contra uma estratégia de emancipação e fim do racismo.

Seria o mínimo ser representado em todos os espaços, mas ocupar um cargo político é diferente da reivindicação que pode ser feita aos papéis e filmes na TV, e mesmo aí ou em qualquer âmbito, para qualquer setor oprimido a representatividade não pode ser um fim em si mesmo. Nas eleições mais ainda a representatividade dos negros e negras, por fora de uma estratégia da classe trabalhadora, ou seja, por fora de pensar a imensa maioria de trabalhadores negros, não é de fato uma saída, pois o seu resultado só poderá ser eleger representantes negros e negras para ocupar espaços individuais no estado brasileiro racista, enquanto a maioria dos negros seguem sofrendo com a violência policial, o desemprego e o racismo, pois o que é o pilar fundamental do estado brasileiro não muda. Principalmente sendo em meio a pandemia que escancarou que os negros são os que mais morrem de Covid ou de balas da polícia, ou são empurrados para o desemprego e a fome. Seria preciso romper com o reformismo petista, que enquanto deu algumas concessões, estendeu a precarização das condições de trabalho das negras e negros com a terceirização, fortalecendo o aparato militar policial que reprime as negras e os negros dando cobertura para as invasões militares das favelas e as UPPs, e cumprindo o vergonhoso papel de invadir e ocupar militarmente o Haiti a mando do colonialismo imperialista dos EUA, novamente oprimindo o país onde ocorreu primeira revolução de independência das Américas, que foi uma revolução negra.

Num país como o Brasil, em que o racismo é estrutural do sistema capitalista, exatamente porque uma grande maioria da classe trabalhadora é negra, a burguesia escravocrata vem aprofundando seus ataques para aumentar sua taxa de lucro através da precarização do trabalho, da vida e violência policial. Não é possível ter um programa de conciliação de classes de humanização do capitalismo como é o da Benedita e do PT, pois o capitalismo não é para todos. Sem um programa que faça com que os capitalistas paguem pela crise, que se enfrente com os herdeiros da Casa Grande, serão os negros e trabalhadores que seguirão sendo os alvos da crise.

 
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