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Domingo 25 de Octubre de 2020
11:17 hs.

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LITERATURA OPINIÃO
À luz do que somos: sobre Luís Sepúlveda
Pablo Quintero
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Sobre A sombra do que fomos de Luis Sepúlveda

O escritor chileno Luis Sepúlveda, foi uma das milhões de vidas que tem cobrado a pandemia produzida pelo Covid-19 no mundo. Falecido em abril de 2020, em Oviedo, o escritor foi de fato o primeiro caso a ser diagnosticado com esta doença em toda a região de Astúrias na Espanha. Nascido em 1949, foi militante do Partido Comunista do Chile (PCCh) e estudou na Universidade de Lomonosov em Moscou, com uma bolsa de estudos que comtemplava cinco anos, mas Sepúlveda foi expulso 5 meses depois do seu ingresso na universidade baixo o argumento de “atentar contra a moral proletária”, sendo extraditado ao Chile, onde no seu recebimento foi expulso pelo PCCh. Depois de ser expulso Sepúlveda adere ao Partido Socialista Chileno (adscrito a Unidade Popular) e pouco tempo depois torna-se parte da guarda de Salvador Allende, estando presente no palácio presidencial o dia onze de setembro de 1973 no meio do sangrento golpe de estado encabeçado por Augusto Pinochet e orquestrado por Henry Kissinger com o apoio absoluto do Departamento de Estado dos EUA. Como é bem sabido o golpe militar de 1973 levaria ao Pinochet a governar Chile até 1990, convertendo o país sul-americano no campo de experimentação preferido das políticas neoliberais, de precarização laboral, de privatização e de repressão estatal. Sepúlveda conseguiu partir para o exílio, o qual o levaria como um verdadeiro andarilho a percorrer Uruguai, Brasil, Perú, Equador (onde viveu por anos com indígenas Shuar), e Nicarágua (onde se integrou as brigadas sandinistas nos anos setenta), se assentando definitivamente em Alemanha e mais tarde na Espanha, onde residia antes da sua morte.

Com mais de vinte livros publicados, e com um prêmio Casa de las Américas pelo seu primeiro romance, as obras de Sepúlveda guardam grandes diferenças entre elas. Abordam diversos temas, em diversos contextos históricos e geográficos, mas ao mesmo tempo todas tem em comum um conjunto de características que levam a insubstituível marca do autor: livros curtos em páginas, mas intensos quanto a emoções e ideias, romances que sempre levam uma sensação de nostalgia, mas que emocionam em aventura. Misturas de ternura, humor, realismo e situações ridículas fazem dos romances de Sepúlveda grandes reflexões sobre a condição humana na América Latina, sobretudo quando revisa a história e as condições estruturais das lutas socais e os caminhos tomados pelas esquerdas durante o século XX.

Ainda que não seja seu romance mais conhecido, A sombra do que fomos (La sombra de lo que fuimos), representa uma das melhores amostras da prosa e das ideias profundas de Sepúlveda. Publicado em espanhol em 2009, foi traduzido por Helena Pitta e publicado em Portugal pela editora Porto no mesmo ano do seu lançamento na sua língua original. O livro, carregado de humor, relata as histórias de três sexagenários que de volta a Santiago de Chile após de um longo exílio em diferentes países europeus se reencontram por acaso, e não tão por acaso, para levar à prática um plano traçado por outro idoso (desta vez um velho anarquista apelidado “a sombra”). Morto no começo da novela em uma das situações mais ridículas que possa ser imaginada e escrita, os três companheiros devem incluir um antipático quarto integrante, que está em posse dos planos traçados pela Sombra. Este quarto integrante é a vivida representação do oportunismo individualista, fantasiado de “compromisso social” que lamentavelmente tantas vezes temos visto a longo da vida (desde os mais variados discursos e “posicionamentos”). E, de alguma forma, cada um dos três companheiros originais desta última empresa revolucionaria na velhice, representa um fragmento do movimento socialista/comunista na América Latina: o populismo de esquerda, a ortodoxia obediente ao komintern e o trotskismo.

Talvez o nosso autor tentasse criar com esta pluralidade um símbolo da heterogeneidade imperante na esquerda ou da diversidade com a qual conviveu na Unidade Popular no Chile, e que levou a múltiplas (e as vezes até violentas) confrontações “internas”. Como relata um dos três personagens iniciais quando no começo de 1970 sua brigada de trabalho produtivo teve um enfrentamento armado com outra pelo controle de um bando de galinhas de cria. Porém, Sepúlveda não faz desta heterogeneidade uma prova para a defesa de uma única, exclusiva e ortodoxa linha de pensamento e de práxis, mais bem parece advertir como as diferenças políticas dentro de campos que deveriam ser dialógicos podem as vezes construir sectarismos antidialéticos que conduzem irremediavelmente ao fracasso. Mais ainda quando o “significante vazio” do populismo reproduz múltiplas reificações e mistificações construindo sentimentos e dinâmicas, no mínimo, problemáticas para a concreção da transformação social.

Da mesma forma, a história de vida de cada um dos personagens retrata os diversos destinos que teve que enfrentar a militância de esquerda, tanto no exilio quanto no Chile. Permite a Sepúlveda explorar sucintamente as consequências de três processos históricos e pessoais diferentes: ter sido preso e torturado ficando no Chile; ter conhecido o “socialismo realmente existente” na Romênia de Ceauşescu; e ter sofrido as mais íntimas misérias do exilio na França. Mas o livro não cultiva o território da tristeza senão da esperança e da utopia, porque nunca é tarde demais para se jogar nas mãos de empresas revolucionários, que mesmo um pouco individualistas, podem redimir e em certa forma fazer justiça a um conjunto de vidas sofridas.

O romance de Sepúlveda é um excelente livro que merece a sua leitura. É preciso destacar que a obra contém muitas referências a história da esquerda no Chile, e muitas piscadas de olho a cultura popular da esquerda chilena, mas isto não causa empecilho algum na leitura, talvez de forma contrairia desperte o interesse em conhecer essa “história cultural” e ir em busca das músicas de agrupações como Inti-Illimani e Quilapayún, tão queridas e admiradas na América de língua hispânica. Se na biblioteca de alguma amiga ou de algum colega, no estante de algum sebo ou em alguma livraria encontrar alguma vez um livro de Sepúlveda, qualquer um, não duvide: leve ele com você. Nos primeiros dois casos pede ele emprestado (os livros no final das contas deveriam ser propriedade coletiva sob a administração de alguém), nos últimos dois casos, se puder e quiser compre-o e senão exproprie-o (Luis ficaria orgulhoso), não tem importância o como, mas leve-o, desfrute-o, e depois faça-o circular. Em nenhum dos casos vai se arrepender.

 
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