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Domingo 27 de Septiembre de 2020
19:31 hs.

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A China na desordem mundial
Esteban Mercatante

No que se passou de 2020, a “opinião pública” mundial passou de massacrar a China inicialmente pelo seu manejo da Covid-19 a aplaudi-la pelo mesmo motivo quando a pandemia se expandiu ao resto do planeta e outros países estavam claramente lidando pior. No momento seguinte a China foi exaltada como salvadora por sua ajuda “humanitária” na forma de kits de testes, máscaras, respiradores, e outras doações ao resto do mundo, e quando dezenas de milhares desses kits enviados falharam, a China foi ridicularizada. Isso é um exemplo da ciclotimia [1] (intencional) nos tratamentos que o gigante asiático recebe na imprensa internacional, que se estende também às análises sobre o desafio que a China poderia colocar às potências imperialistas.

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Ilustração: Mata Ciccolella

A China no sistema capitalista mundial

Em 2013, Perry Anderson escreveu que com a ascensão da China, “a conclusão lógica da grande estratégia estadunidense de longo prazo ameaçava se virar contra si mesma”. Sua premissa “sempre havia sido a harmonia entre o universal e o particular – os interesses gerais do capital assegurados pela supremacia nacional dos Estados Unidos”. Mas sob essas novas condições, “a primazia norte-americana não é a pedra angular automática da civilização do capital” [2].

Sete anos depois, a tendência descrita tem se aprofundado freneticamente, assim como Donald Trump lançou a “guerra comercial” contra a China logo após ganhar a presidência americana em 2016. Essa guerra teve suas idas e vindas de acordo com as necessidades políticas em transformação, mas tem em seu centro os interesses estratégicos de conter a China e a batalha pela primazia tecnológica. Esses interesses são compartilhados pela maior parte do “establishment” político e econômico, que não adere ao slogan de “America First” de Trump, e por conta desses interesses pode suscitar adesões mesmo na União Europeia e no Japão, apesar da desconfiança com o presidente de cabelo laranja, e mesmo se eles questionem os mecanismos que ele emprega em sua estratégia.

O “ascenso” da China, que teve como pressuposto sine qua non a unidade nacional conquistada na revolução de 1949, se apoiou na internacionalização da produção empreendida pelo capitalismo desde o final dos anos 70 (impulsionada pelas grandes multinacionais para aumentar seus níveis de rentabilidade explorando o trabalho barato pelo mundo). Isso permitiu que a China se tornasse um excepcional caso de “desenvolvimento desigual e combinado exacerbado” [3]. Por conta da peculiar combinação de massivo atraso econômico (o que ofereceu terreno virgem para investimento) e uma ampla reserva de força de trabalho potencial com baixos salários graças à alta quantidade de população rural, a China pôde ser a Meca das chamadas cadeias globais de valor que começaram a se formar nos anos 80 e rapidamente se desenvolveram desde os anos 90.

Sobre esta base, a China vem empenhada há pelo menos 15 anos em alcançar uma alquimia que quase nenhum país de industrialização tardia alcançou na segunda metade do século XX e o que passou do XXI. Sair da assim chamada “corrida para o fundo”, termo que caracteriza esse tipo de competição a que foram obrigadas as economias atrasadas, para atrair capitais oferecendo as melhores condições para as empresas (baixos impostos, baixos salários, zonas sem alfândega, leis ambientais limitadas) em troca de um dumping social e ambiental, e assim se juntarem à “corrida para o topo” em termos de produção de valor e desenvolvimento. De acordo com Enrique Arceo, a Coréia do Sul e Taiwan (que o Estado chinês almeja reintegrar completamente algum dia) estão entre os poucos casos relativamente bem-sucedidos que, “se bem não deixaram de ser países periféricos”, “iniciaram um processo sustentado de constituição de um sistema industrial”, um conceito que o autor contrasta com a industrialização desorganizada que caracteriza a maior parte dos investimentos ligados a redes de comércio global [4]. Em um esforço de emular os resultados desses poucos casos “bem sucedidos” de desenvolvimento por industrialização de exportação da última metade do século, a China – que tem sido por um longo tempo o principal exportador industrial – tem alcançado um lento mas sustentado aumento na integração de produção local (ou seja, é cada vez menos um centro para a montagem de componentes trazidos de fábricas na Coreia, Taiwan, Singapura, e outros países). A China se distingue de outros países aqui mencionados pela predominância de empresas estatais (SOEs) que, desde o final de 1980 durante o segundo período de reformas, “substituíram e subjugaram o setor privado” que havia surgido com as mudanças iniciadas sob a liderança de Deng Xiaoping em 1978 [5].

Mas a China não é a Coreia do Sul ou Taiwan por outra razão fundamental: ser o país mais populoso do planeta. Por si só, sua entrada nos circuitos do capital contribuiu para mais da metade da “duplicação da força de trabalho” global que vem sido tão discutida em décadas recentes, e seus esforços para subir nos rankings dos poderes econômicos são, em termos de escala, tão disruptivas quanto. É a segunda maior economia no mundo avaliando a partir de seu PIB bruto e poderá superar os Estados Unidos na próxima década [6], apesar da sua produtividade ainda estar muito atrás de economias mais desenvolvidas; mesmo se essa não fosse sua intenção, sua crescente proeminência seria inevitavelmente vista por países ricos como uma ameaça à sua posição dominante. Por conta de seu papel nas exportações industriais e, cada vez mais, pelo tamanho de seu mercado, a China vem conseguindo assegurar – com resultados variáveis – acordos de transferência de tecnologia (quando não está simplesmente roubando o know how).

A mudança veio com as condições trazidas após a crise econômica de 2008. O crescimento de exportações da China era contrabalanceado pelo alto consumo americano, altamente apoiado na dívida. Isto se colapsou durante os anos de recessão, e se reativou em um ritmo insuficiente para suportar o crescimento da China, que manteve um crescimento de 7% por ano até 2015. Desde a crise, ocorrem boatos de que a burocracia do PCC estaria tentando “reequilibrar” a economia para que ela dependa mais da demanda doméstica. Mas isso acabou levando a investimentos excessivos (com taxas que chegavam a 50% do PIB a partir da criação de infraestrutura subutilizada) enquanto o consumo continuava fraco. Fora dos setores médios e da elite que se tornaram milionários no fervor de desenvolvimento capitalista, salários têm se mantido baixos internacionalmente, mesmo eles tendo crescido consideravelmente em relação aos níveis de 20 anos atrás. Isso explica o lançamento da nova Iniciativa do Cinturão e da Rota (BRI), que tem por objetivo ser a nova “Rota da Seda,” em uma tentativa de criar um espaço integrado global que absorva mais bens chineses e receba investimentos. Mas mesmo antes do BRI, investimentos chineses em setores como agricultura, mineração, assim como infraestrutura, estavam se espalhando pelo mundo, em alguns lugares – como no continente Africano – superando a presença dos EUA e de poderes Europeus. Se ainda existem alguns que acreditam na ilusão de que a China poderia contrabalancear os poderes imperialistas tendo um papel mais “benevolente” em relação a países pobres e em desenvolvimento [7], sua performance nesses países contradiz essa crença, pois lembra o papel de países europeus nos séculos 19 e 20.

A Grande Recessão também ajudou a China e os EUA a se posicionarem mais claramente como competidores. Apesar do Pentágono e de think tanks já terem desenvolvidos cenários de conflito e estratégias de contenção [8], a crise foi catastrófica. As denúncias de Obama em relação à “manipulação monetária” se tornaram mais enfáticas, ocorrendo ao mesmo tempo em que os Estados Unidos estavam inundando o mundo com dólares através de sua “flexibilização qualitativa” para empurrar a economia Americana. Acordos comerciais com o objetivo de excluir a China (o Tratado Trans-Pacífico) também se proliferaram nesses anos. Do lado chinês, Xi Jinping levou o país em uma direção mais nacionalista, e ele se tornou um jogador cada vez mais agressivo no palco internacional. Quando Trump se tornou presidente, com seu slogan de “America First” suas “guerras comerciais”, a política externa estadunidense mudou em muitos aspectos. Mas com a China, isso simplesmente escalou, colocando barreiras comerciais (em vez de simplesmente excluir a China de acordos com outros países) no centro da disputa.

Desde os anos 2000, o gigante asiático colocou todo o empenho para fortalecer suas companhias “campeãs nacionais”. Apoiando a expansão dessas empresas pelo mundo, a China cada vez mais busca jogar o mesmo jogo que forças imperialistas vêm jogando nas décadas recentes: a concentração e centralização de capital pelo mundo, que permitiu que empresas multinacionais consolidassem sua dominância nas redes de valor, e tirassem vantagem das diferenças de salários e da competição entre países afim de atrair capital, reduzindo impostos e garantindo outras concessões, e assim se apropriaram de uma larga porção de mais-valia gerada ao redor do mundo (que acaba protegida em paraísos fiscais).

Se não fosse o bastante, em anos recentes a China começou a se projetar na área em que os Estados Unidos baseou sua primazia: a inovação tecnológica.

A posição global da China em números

A China é, depois dos EUA, o principal destino para investimentos externos diretos (IED) – os fluxos de capital entre esses países destinados a realizar empreendimentos produtivos ou a compra de empresas. Os Estados Unidos receberam 16% do IED global em 2019 e a China 13.6%. Mas ao mesmo tempo, e diferentemente da década anterior, o IED da China que sai da China para o resto do mundo tem se tornado bem considerável. O líder nas saídas de IED em 2019 foi o Japão (que vem se alternando com os EUA na liderança), que contabilizava 17% dos fluxos externos de IED. Foi seguido pelos Estados Unidos (9,5%), e os Países Baixos (9,4%), e a China em quarto lugar (8,9%). Por conta de sua posição histórica como investidor, os Estados Unidos estão muito na frente quando se trata de IED acumulado: o imperialismo americano contabiliza 22% do total de investimentos externos, seguido pelos Países Baixos (7.3% do total), China (6%), e Japão (5.2%). É claro, nessa era de redes de valor globais, o IED é um fator que precisa ser considerado com um grão de sal. Muito da expansão de firmas multinacionais tem sido a partir de subsidiárias, com as quais eles têm estabelecido contratos, mas sem qualquer propriedade ou participação que as ligue. Se nós nos atermos apenas a investimentos, nós talvez estejamos subestimando a liderança e o controle global da produção de grandes empresas nos EUA, União Europeia, e Japão.

Entre as 500 maiores empresas do mundo de acordo com a Fortune, 89 eram empresas chinesas em 2013 (e em 2003 eram apenas 14). Em contraste, em 2019, a China tinha 119, sendo a líder mundial e superando os EUA, com 99. Se nós compararmos essas empresas estadunidenses com as chinesas, nós podemos observar que mesmo com 20% menos empresas nessa lista, as empresas estadunidenses geraram mais lucro (US$ 8,7 trilhões comparados com US$ 7,9 trilhões das empresas chinesas) e o fizeram gastando menos ativos, o que significa que eles são mais lucrativos. Mas as empresas estadunidenses são ainda mais lucrativas em termos absolutos: os US$ 670 bilhões combinados das 99 empresas são 61% mais do que as 119 firmas chinesas. Em outras palavras, uma comparação entre as empresas de ambos os países em relação a sua “eficiência” revela que as americanas têm, ao todo, várias vantagens.

Quando olhamos para o desempenho em inovação, nós vemos resultados similares. A vantagem indisputada da China com o 5G da Huawei, a tecnologia que promete ser a chave da “Internet das Coisas” e com múltiplas implicações de segurança, acionou todos os alarmes em Washington.

Em 2019, pela primeira vez, a China se tornou o maior usuário do sistema internacional de patentes, arquivando 58.990 aplicações. Seguida dos EUA (57.840), Japão (52.660), Alemanha (19.353), e Coreia do Sul (19.085).

Em 2019 a Comissão Europeia publicou um ranking das 2.500 empresas que mais investem em pesquisa e desenvolvimento (P&D) no mundo. A China era o segundo país com mais empresas (507), depois dos Estados Unidos (769), e seguida pelo Japão (318) e da Alemanha (130) [9]. Contudo, quando se trata de gastos totais, a China fica em terceiro lugar: as empresas estadunidenses gastam o equivalente a 312 bilhões de euros, enquanto o Japão gasta 109,4 bilhões e a China apenas 96,4 bilhões de euros. A Alemanha, que possui ⅓ da quantidade de empresas da China entre as 2.500 primeiras posições, registra um investimento em pesquisa e desenvolvimento de 82,9 bilhões de euros [10]. Embora a China tenha muitas empresas no ranking, apenas duas estão entre as 50 primeiras: Huawei (5) e Alibaba (28). Os Estados Unidos possuem 22 empresas no top 50, enquanto a Alemanha tem 8 e o Japão 6. A Coreia do Sul tem apenas 1, mas é a Samsung, que ocupa o segundo lugar entre as empresas que mais gastaram em pesquisa e desenvolvimento em 2019, atrás da Alphabet (Google) e pouco à frente da Microsoft.

Quando computamos as despesas em pesquisa e desenvolvimento das empresas por país, as empresas estadunidenses representam 38% do total, enquanto da UE 25,3% (sendo a Alemanha 10,1%), o Japão 13,3% e a China 11,7%.

Nessa área, os Estados Unidos continuam com a liderança, enquanto o Japão, a China e a Alemanha estão em posições bem afastadas. Mesmo com a existência da Huawei e a Alibaba, que investem em inteligência e artificial em 5G [11], a lacuna tecnológica ainda existe.

Vulnerabilidades

Em 15 de maio de 2019, depois que o Departamento de Comércio dos EUA emitiu uma decisão de proibir o uso da tecnologia estadunidense no fornecimento de chips para a Huawei, a guerra comercial entre os dois países se intensificou. A decisão impactou não apenas os chineses, mas também as empresas estadunidenses de tecnologia, como a Cisco e a Qualcomm, assim como o Taiwan Semiconductor Manufacturing Co. Ltd. (TSMC), o maior produtor de chips do mundo, que tinha a empresa chinesa entre seus maiores clientes. Contudo, a liderança dos chineses nas redes 5G não se estende apenas em relação aos chips.

Ao mesmo tempo em que emitiu essa decisão, os Estados Unidos vêm incentivando gigantes europeus de telecomunicações, como Nokia e Ericsson, a redobrar seus esforços para desenvolver o 5G. Ambas as empresas aumentaram seus pedidos da empresa TSMC, que não foi impactada por não vender para a Huawei [12].

No meio de julho de 2020, a Grã-Bretanha anunciou que excluiria a Huawei como fornecedor, contrariando sua decisão tomada meses atrás. Isso não se deve exclusivamente à pressão de Washington, que até alguns meses atrás não havia impedido a China de assinar acordos com outros países. O cientista político Minxim Pei, nota que “como a tecnologia dos EUA é utilizada para fabricar os semicondutores avançados exigidos pelos produtos da Huawei, incluindo as estações base 5G, o fornecimento da empresa será cortado, tornando quase impossível a produção de seus equipamentos 5G no futuro” [13]. Isso não irá interromper o desenvolvimento do 5G na China, mas provavelmente o atrasará e dará aos concorrentes mais tempo para entrar na concorrência.

No passado, a China já sofreu dificuldades por sua dependência de tecnologia estrangeira em outras áreas onde concentrou grandes esforços. Uma delas é das turbinas de vento. Neste sector foi decisiva sobretudo a contribuição realizada pela General Electric, que a China esteve em condições de impor graças à fraca demanda que a empresa enfrentava EUA e outros mercados, que a estimulou a trocar “vendas de curto prazo por competição de longo prazo” [14]. Como observa Jianyong Yue, graças a isto a China não só obteve a tecnologia senão que suas empresas começaram a exportar agressivamente “os produtos de alta tecnologia a preços competitivos em um mercado global que estava tradicionalmente dominado por seus sócios estrangeiros” [15]. Mas se tratou de uma vitória de duração efêmera, já que, como assinala o Wall Street Journal “concluída a parceria” com a GE, “muitos de seus sócios chineses não puderam tem êxito de forma independente” [16]. Entre outras coisas, isto responde a que, como explicou Jeffrey R. Immelt, Chairman e CEO da GE, “os elementos mais secretos da turbina, incluindo o desenho do sistema de resfriamento para a primeira coluna de pás e a tecnologia por trás do revestimento térmico protetor de ditas pás” não foram transferidos a seus sócios da China. Além disso, as turbinas desenhadas pela empresa no momento de negociar esta transferência se encontravam “ao menos duas gerações à frente” das que venderam à China [17]. Dada a persistência do atraso em importantes categorias como sistemas de controle e software de suporte das turbinas, Yue conclui que “se as empresas ‘maduras’ da China poderão alcançar seus competidores estrangeiros no mercado global através de inovações autossuficientes, e inclusive superá-las, segue sendo uma questão não resolvida” [18].

Algo semelhante ocorre com a indústria dos trens-bala chineses. A empresa japonesa Kawasaki e a empresa alemã Siemens foram algumas das empresas que os chineses procuraram firmar parceiras, contudo a Kawasaki transferiu suas principais tecnologias para sua subsidiária na forma de joint ventures (empreendimentos conjuntos) para compartilhá-la com seus parceiros chineses, enquanto a Siemens não compartilhou isso com a China de nenhuma forma [19]. As empresas mais inovadoras permaneceram sob controle dos japoneses, enquanto os parceiros chineses eram dedicados à montagem dos componentes secundários menos sofisticados. Bai Yimin, um conhecido analista de negócios que trabalha na Mitsui há anos, descreveu essas estratégias de transferência de tecnologia das empresas japonesas como “feito na China, mas feito pelo Japão” [20]. A empresa alemã Siemens se utilizou de uma estratégia parecida para evitar a indústria de trens-bala chineses. Os próprios gerentes disseram que “mantêm a mesma atitude que a Thyssen Krupp e Airbus…não cedemos tecnologias núcleo nem nunca o faremos” [21]. Embora essas declarações possam ser vistas como gestos para acalmar investidores alemães com receio da gigante asiática, diversos especialistas na construção de trens de alta velocidade na China confirmaram que o país ainda está longe de conseguir desenvolver sua indústria por conta própria. Nesse caso, as multinacionais também transferiram o projeto e conhecimento de suas tecnologias menos críticas, mantendo o conhecimento mais sofisticado e os direitos de propriedade intelectual sobre as tecnologias mais fundamentais. Estima-se que apenas 20% dos trens fabricados na China possuam direitos de propriedade intelectual, ou seja, não estão sujeitos a pagamento de patentes a terceiros ou outras restrições [22].

Embora as empresas globais dominem a manufatura de ponta e monopolizem as principais tecnologias, elas são cada vez mais sensíveis à probabilidade de a China se recuperar mais rapidamente do que o esperado, tornando-se um fortíssimo concorrente em um futuro próximo [23].

Uma longa marcha

Entre julho e novembro de 2020, é provável que a “guerra comercial” com a China esteja sujeito às mudanças da campanha eleitoral, como já anunciou Donald Trump. Mesmo que Trump perca, como todos os sinais indicam, não se espera que os conflitos em relação ao país diminuam nos próximos anos. Republicanos ou democratas, os Estados Unidos continuarão fazendo o possível para intensificar as tensões diplomáticas em relação a Pequim, utilizando-se até mesmo de players externos, como a Índia, Austrália e Japão para ofuscar o crescimento chinês, além de utilizar crises políticas internas como de Hong Kong para cunhar a imagem externa do país. Em junho, quando o governo chinês impôs uma nova lei de segurança na ilha, os Estados Unidos utilizaram o acontecimento para rechaçar suas políticas.

Hoje, os Estados Unidos têm desafiado vários aspectos da ordem capitalista transnacional que foram estabelecidas após o final da Segunda Guerra Mundial (ao mesmo tempo em que mantêm quaisquer prerrogativas que possam beneficiar as empresas estadunidenses) como uma maneira de lutar mais agressivamente para sustentar seus interesses e manter sua liderança. A ameaça não é que a China irá atacar essa ordem, mas sim reformulá-la, colocando o próprio Estados Unidos e outras potências ocidentais em outro patamar.

O objetivo da China de continuar aumentando sua influência dentro dessa ordem envolve cada vez mais questionar os “privilégios exorbitantes” da potência principal, atacando especialmente as prerrogativas monetárias e financeiras desproporcionais que os Estados Unidos mantêm (veja esta recente postagem no blog de Tony Norfield).

Sem dúvida, a China ainda tem um longo caminho a percorrer e enfrentará mais resistência das grandes potências a qualquer mudança no status quo. Se houver alguma dúvida sobre isso, os últimos anos mostram que esse caminho será repleto de convulsões internas e internacionais e, inevitavelmente, não será pacífico. Essa tem sido uma das maiores fontes de tensões geopolíticas nos últimos tempos, e continuará sendo assim mesmo que Trump (o outro grande gerador de disrupções) saia de cena se for derrotado em novembro. A perspectiva é ainda mais sombria com a crise atual. Seu escopo completo é incerto, mas já supera os estragos de 2008 e promete exacerbar todas as tensões geopolíticas já existentes.

 
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