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Jueves 29 de Octubre de 2020
17:49 hs.

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CULTURA
Revolução cultural? (Parte 2): As 2 fases de acumulação cultural primitiva da classe trabalhadora
Afonso Machado
Campinas
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Geralmente quando fala-se em cultura, pensa-se em assuntos “elevados”, em questões espirituais ou intelectuais que fazem bem a todos, independentemente de classe social. Se existe uma ideia que virou carne de pescoço no dicionário dos ingênuos , é aquela que fala da cultura ou da Educação enquanto elementos que habitam o alto de uma escadaria: caberia a cada indivíduo subir esta escadaria para obter cultura, conhecimento, e logo “melhorar de vida”, “ascender socialmente”. Assim a escola, a universidade, as artes, as ciências, seriam elementos que promoveriam a salvação dos trabalhadores dentro da sociedade estabelecida. Pois é: papo furado... Predomina ainda entre as instituições e profissionais comprometidos com o sistema capitalista, uma noção meramente recreativa de cultura: seria um momento de relaxamento em que produtos culturais, geralmente provenientes da indústria cultural, não devem ser levados muito a sério. Os marxistas possuem um outro entendimento da cultura.

A crítica do materialismo histórico compreende a cultura a partir da divisão social do trabalho, a partir dos conflitos de classe. Disto decorre que um olhar crítico sobre a cultura impede deslumbramentos; afinal de contas, a produção cultural na história das civilizações deu-se a partir da exploração das classes oprimidas, da destruição de culturas por povos conquistadores, da dominação imperial sobre diversos povos. Qualquer debate cultural sério da atualidade, levanta o clássico problema das estratégias para a classe trabalhadora, debilitada inclusive em termos educacionais, apropriar-se das tradições do passado (de assimilar as heranças artísticas, literárias, científicas, filosóficas etc).

Mas como realizar esta apropriação da cultura do passado quando a classe trabalhadora não está no poder? De que adianta um saber se este não instrui o proletariado sobre a sua condição de classe? De que vale um conhecimento histórico que não desemboca na práxis? Existem outros escritos publicados nessa coluna, que já abordaram a questão da acumulação cultural primitiva da classe trabalhadora. Retomamos agora o assunto para definir melhor esse conceito á luz de contextos históricos específicos. Em termos culturais o marxismo visa preservar e difundir o conhecimento da história, os patrimônios culturais do passado. Não se trata de endossar toda a herança cultural: se faz necessária a aplicação da dialética materialista para avaliar as contradições das diferentes culturas em seus enraizamentos econômicos e sociais, nas suas formações históricas particulares. Perante a história das civilizações, o acúmulo cultural testemunha as capacidades humanas de produzir conhecimento. Entretanto, sabemos que existe contraditoriamente nestas mesmas capacidades humanas de produção do conhecimento, componentes ideológicos que visam perpetuar a divisão das sociedades em classes.

Uma questão é certa: quando o proletariado assumir o poder político(e ninguém na atual conjuntura sabe responder quando isto irá ocorrer) ele deverá apropriar-se de toda a cultura, sabendo beneficiar-se da validade do seu sentido universal para o conhecimento e ao mesmo tempo desenvolver a habilidade para analisar criticamente tudo aquilo que expressou as ideologias de sistemas sociais opressores. Mas infelizmente não é o que temos pra hoje: o proletariado realiza em suas lutas cotidianas uma penosa e conturbada educação política, tenta construir com muita dificuldade, a trancos e barrancos, sua consciência de classe perante sofisticados obstáculos ideológicos. Em tais circunstâncias a cultura, o conhecimento da história, precisam ser concebidos enquanto armas ideológicas. Não é possível usar meias palavras: no atual estágio de consciência histórica da classe trabalhadora, em especial daqueles trabalhadores submetidos à servidão nos setores do capitalismo de serviços, a cultura precisa exercer um papel político utilitário, de agitação mesmo.

Precisamos ter em mente o seguinte problema: de que vale toda a cultura para o trabalhador se não existe uma experiência que o ligue a ela? (Benjamin). As reflexões de Benjamin sobre o empobrecimento da nossa experiência na civilização burguesa, na qual fala-se exaustivamente sobre cultura no sentido mais estritamente diletante, nos levam ao desafio de buscar uma relação com o conhecimento capaz de despertar uma postura revolucionária, capaz de possibilitar a construção de uma outra tradição. Isto entraria em contradição com a necessidade histórica dos trabalhadores realizarem a sua acumulação cultural primitiva? É preciso pensar os contextos históricos em que esta acumulação pode efetivar-se.

Partindo ágora da conclusão da primeira parte deste artigo, devemos assinalar quais seriam as fases desta acumulação cultural. Nos primeiros tempos do governo soviético, Trotski combateu a crescente burocracia e os surtos iconoclastas negadores do passado. O revolucionário russo defendia que caberia ao proletariado assimilar a cultura do passado. A acumulação cultural primitiva das classes populares, que tiveram o patrimônio cultural negado pela classe exploradora, corresponde aos anseios da Revolução permanente: o aprofundamento da Revolução, inclusive no cotidiano de uma sociedade que busca construir o socialismo, exige trabalhadores esclarecidos, armados intelectualmente contra as tendências políticas burocráticas que visam conter a luta de classes. Na União Soviética do início dos anos de 1920, os revolucionários em torno de Trotski viam diante de si a possibilidade histórica de décadas de guerras revolucionárias internacionais, sendo que caberia aos trabalhadores durante este processo elevarem-se culturalmente a fim de reunirem condições históricas para criar a cultura do futuro, isto é, de uma sociedade sem classes.

A tese trotskista da acumulação cultural primitiva está correta: na União Soviética ela se dava num contexto em que a classe trabalhadora estava no poder e devia combater as tendências contra-revolucionárias da burocracia. E hoje em dia? É preciso aprofundar a tese trotskista da cultura levando em conta a necessidade mais imediata da organização e assimilação de uma tradição cultural revolucionária, fornecedora do ABC da história da luta de classes, portanto de um conhecimento apoiado numa práxis que leva ao questionamento da cultura dominante. Se faz necessário definir aquilo que chamamos na primeira parte deste artigo de 2 fases de acumulação cultural primitiva:

Primeira Fase: Cabe à esquerda produzir, organizar e disseminar hoje tradições culturais revolucionárias que atuam como arma ideológica contra a classe dominante.

Segunda Fase: em uma etapa posterior, quando os trabalhadores chegarem ao poder e estabelecerem os seus governos, serão colocadas na ordem do dia as condições educativas para o proletariado assimilar criticamente toda a cultura do passado.

Durante a Primeira Fase de Acumulação Cultural Primitiva, isto é, ao longo de um processo que se faz dentro dos problemáticos limites da sociedade capitalista existente, é necessário compreender/definir a natureza ideológica da cultura a ser assimilada: o conceito de luta de classes é o critério para reunir e interpretar as imagens do passado e a sua relação dialética com o presente. Trata-se de realizar a partir de textos e estratégias artísticas, a representação das lutas dos oprimidos do passado e do presente, bem como inserir imageticamente/poeticamente o passado no presente e o presente no passado. Sim, sim, já se escreveu sobre isso aqui: parece um mantra, mas na realidade é um “mantra materialista “.

Já se disse o suficiente para que a imaginação histórica dos artistas choque, impacte a percepção dos trabalhadores. O que está em pauta no atual momento da luta de classes em suas dimensões culturais, é a tentativa de produzir representações da história segundo a ótica das classes exploradas, construindo uma tradição cultural revolucionária que reivindica a memória dos oprimidos e não a perpetuação das versões históricas que celebram a memória dos opressores.

Quando começaria e quando terminaria a primeira e a segunda fases de acumulação cultural? Tudo dependerá do ritmo internacional da luta de classes. Por hora, precisamos combater por uma tradição cultural revolucionária, que corresponde diretamente ao projeto político da Revolução permanente. É o que está na ordem do dia.

 
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