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Miércoles 15 de Julio de 2020
17:17 hs.

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CORONAVÍRUS E LUTA DE CLASSES
França: Concentrações se multiplicam em frente aos hospitais, rumo a uma convergência dos indignados?
Cécile Manchette

Enquanto o governo se prepara para revelar seu novo plano para o hospital, chamado “Ségur de la santé” (Seguro da saúde - NT), mobilizações acontecem nos hospitais, nos quais numerosas ações têm sido convocadas desde a semana passada. O começo de um movimento que pede por uma insurreição dos trabalhadores da saúde, para que não sejam eles a pagarem pela crise.

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"Ségur de la santé": uma promessa que não acabou com a desconfiança dos trabalhadores da saúde

Ao final do Conselho de Ministros, realizado na quarta-feira (20), Olivier Véran, falou sobre o novo plano para os hospitais: o "Ségur de la santé". Um novo plano que o ministro queria diferenciar dos precedentes: o “Minha saúde 2022” e do “plano de emergência”, de Agnès Buzyn, apresentado como resposta à greve de emergência. “Iremos rapidamente, iremos forte”, ele resumiu. Mas os contornos do novo plano para os hospitais e a saúde pública seguem vagos e incertos. A promessa principal, e nova do governo é de aumentar os salários, o que tem sido exigido pelos trabalhadores da saúde por anos, ao qual o governo tem respondido até hoje somente com bônus individuais.

A promessa de uma revalorização dos salários, para elevá-los ao nível da média européia, da qual a França está muito distante, é acima de tudo uma resposta à raiva latente nos hospitais e na saúde em geral, nos últimos anos, que foi exacerbada pela onda epidêmica. Desde o início da crise da saúde, os valores sobre a remuneração dos trabalhadores e enfermeiros do hospital ressurgiram e são agitados por trabalhadores raivosos nos hospitais. De fato, as enfermeiras francesas têm um salário mais baixo do que seus colegas dos países europeus vizinhos e gostariam, entre outras coisas, de serem pagas decentemente por seu trabalho. Atualmente, outros números devem ocupar a mente do executivo: em 2019, 96% dos trabalhadores da saúde estimaram que "a saúde está indo mal"; enquanto uma pesquisa da Opinionway-Square Management, 84% dos franceses apoiaram o movimento de greve dos trabalhadores de emergência no ano passado. Embora alguns ainda tenham dúvidas sobre os motivos da "crise dos hospitais públicos", a crise sanitária terminou demonstrando as consequências da economia orçamentária em recursos humanos e materiais, em particular o fechamento de leitos em terapia intensiva. Uma nova mobilização em hospitais e na saúde certamente encontraria apoio e aprovação por parte da população.

Na semana passada, após o descontentamento dos trabalhadores da saúde com a publicação tardia do decreto sobre o bônus "excepcional", em que os trabalhadores ainda não vêm a cor e será seletivo, o governo decidiu usar uma receita que “nós já conhecemos”, preparando o terreno para o dia 25 de maio, com os parceiros sociais que concordarem em participar. A diferença é que hoje um certo número de trabalhadores envolvidos em mobilizações passadas já experimentou esses "planos de emergência" disfarçados que continuam a destruir a saúde pública, esses arremedos, que são verdadeiras máscaras do “diálogo social”, que servem, acima de tudo, para canalizar nossa raiva, para melhor dividi-la.

Mesmo antes de o "Ségur de la santé" começar, muitos profissionais de saúde criticaram e questionaram o conteúdo desse plano: qual será o aumento dos salários? Quem será contemplado e por quanto tempo? E os planos de reestruturação e de cortes de leitos sobre os quais o ministro evitou falar? Que tal um plano de contratação ou as linhas gerais do "plano de investimento maciço", prometidos para o dia 25 de março, pelo presidente? A nota da Caisse des Dépôts, revelada pela Médiapart no início de abril, bem como o desejo do governo de "questionar certos grilhões", ou seja, em mexer na semana de 35 horas, mostram que não há dúvidas sobre quais mudanças o governo Macron quer.

Embriões de mobilização em muitos hospitais

Nesta situação, o pior seria cair na armadilha do governo. Uma armadilha que alguns profissionais de saúde detectaram, como o neurocirurgião Laurent Thines, no Hospital Universitário de Besançon: "Não é a primeira vez que acreditamos que uma promessa de melhoria acabe sendo traída. Manter a pressão é vital, mas sabemos que podemos contar com você. Não adormeçamos com essas belas palavras. Tudo o que Emmanuel Macron parece dizer é incompatível com o projeto que defende em nome dos interesses que o colocam nessa posição e o que ele representa. Na prática, a reestruturação e a abolição dos projetos de leitos e funcionários continuam: Saint-Etienne, Caen, Nancy? ... Eles tentam nos adormecer até as férias ... depois é verão e depois voltamos para a escola e partimos para um passeio… Eu estou cansado disso! Em Besançon, vamos organizar uma grande manifestação de apoio ao hospital, na quinta-feira, 28 de maio, se a epidemia não começar até lá.

Desde que o deconfinamento começou, em 11 de maio, o pessoal de saúde cumpriu sua promessa: estar na rua depois da Covid. Em diferentes cidades, manifestações foram convocadas por trabalhadores da saúde por duas semanas, para expressar sua raiva e enviar uma mensagem ao governo de que não haverá "retorno ao normal". Em 11 de maio, em Nantes, 300 pessoas se reuniram em frente ao CHU em apoio aos trabalhadores da saúde e suas demandas para exigir "mais verbas para o hospital público". Ainda muito mobilizados na luta contra o vírus e exaustos por dois meses de assédio físico e psicológico,alguns ainda com raiva, mas é certo que o desconforto, a raiva e o sentimento de injustiça são profundos e maciços aos que estão ao lado dos trabalhadores da saúde.

Em Nantes, Toulouse, Paris, Rouen, Clermont-Ferrand, na região de Paris: Saint-Denis e em outras cidades, foram chamados comícios e manifestações em frente aos hospitais para exigir recursos para o hospital, equipamentos médicos (máscaras, testes ...), funcionários contratados permanentemente, aumentos salariais ou em oposição aos planos de reestruturação. Essas reuniões têm a particularidade de se juntar a usuários, aos coletes amarelos e a trabalhadores de outros setores, como em Toulouse. Na segunda-feira, no hospital Henri Mondor, onde o descontentamento é forte desde o início da pandemia, vários funcionários se reuniram para mostrar sua raiva, que atualmente está atrás de suas máscaras.

Nesta quarta-feira, também saiu uma manifestação do hospital Tenon, que estava no centro da luta contra a Covid, em uma das áreas mais afetadas pela epidemia. Os trabalhadores da saúde tinham pendurado uma faixa na frente do hospital que dizia: "Aumento de contratações, aumento dos salários, aumento de leitos".

"Não é de medalhas que precisamos, mas sim de meios", foi escrito em uma placa erguida por um trabalhador da saúde, em resposta à promessa do governo de dar aos funcionários uma medalha de reconhecimento. Mas em cada um desses eventos a mensagem é clara: os trabalhadores não querem medalha, nem bônus de 1.500 euros, querem material, recursos humanos, abertura de leitos, valorização salarial ou um aumento geral no índice de reajuste, que está congelado há anos.

Há manifestações rápidas convocadas para todas as quintas-feiras, como o novo comício anunciado em 22 de maio, em frente ao hospital parisiense Robert Debré, bem como o dia de mobilização nacional de 16 de junho, convocado pelos coletivos nascidos em um ano de luta no hospital (inter emergências, inter-blocos e inter-hospitais), pelos sindicatos CGT, SUD e Unsa, pela associação de médicos de emergência na França, os Printemps de la psychiatrie, ou mesmo com o estado de greve anunciado pela Sud Santé, no Hospital Universitário de Bordeaux, e no centro hospitalar de Pau. São muitos os sinais de que os trabalhadores da saúde não pretendem se curvar à estrutura imposta pelo governo.

Contra os planos do governo, a urgência de uma unidade dos trabalhadores da saúde de todos os setores

Uma enfermeira, ciente dos planos do governo para o mundo do trabalho nos próximos meses, falou com os presentes no comício em frente ao hospital Tenon, na quarta-feira: "Eles antecipam um tsunami de demissões no setor privado, mas também no público. [...] sabemos perfeitamente que mesmo o que é prometido para o hospital também corre o risco de ser esquecido, porque de qualquer maneira, em dois ou três meses, seremos informados de que não há mais dinheiro." Diante dessa observação, em 11 de maio, Magalie, delegada da CGT no CHU de la Grave, em Toulouse, reivindicou explicitamente a importância de uma mobilização interprofissional, de modo que não cabia aos trabalhadores pagarem pela crise: "O que é importante é que todos nós estamos ligados. Todos juntos na rua, todos os usuários, todos os cidadãos e todos os atores envolvidos. "

Assim, o pessoal da saúde que estava na “linha de frente” da luta contra a Covid pôde se conscientizar, no último período, de seus interesses comuns com trabalhadores de outros setores, como os da educação, do transporte, de entregas, que agora também são comprados com bônus e passam pelas mesmas lógicas de políticas de privatização e de austeridade, com suas muitas demissões, reestruturações, ou até técnicas gerenciais agressivas para fazê-los pagar pela crise.

A mobilização nascente nos hospitais e na saúde, em um contexto de crise econômica sem precedentes, poderia ser combinada com outras insurreições, além de um programa de emergência e da ruptura com o sistema capitalista; contra as reformas já anunciadas, por um plano de contratação massivo, por salários para todos com divisão do tempo de trabalho, capazes de unificar a luta contra o governo e contra os patrões.

Publicado originalmente no Revolution Permanente

 
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