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Lunes 9 de Diciembre de 2019
23:46 hs.

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CRÍTICA
Bacurau: uma alegoria catártica dos impasses políticos de nosso tempo
Fernando Pardal
@fepardal

O filme "Bacurau", de Kleber Mendonça e Juliano Dornelles, vem se mostrando um sucesso de público e crítica ao retratar de forma alegórica o combater ao imperialismo e à extrema-direita. Que formas são usadas para isso? CONTÉM SPOILERS.

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CONTÉM SPOILERS

Além dos prêmios recebidos em Cannes, Lima e Gramado, entre outros, muitos relatos atestam a grande popularidade de “Bacurau”, filme dirigido por Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles. Plateias emocionadas aplaudem, gritam, choram ao ver na tela do cinema um pequeno povoado que resiste, por todos os meios necessários, a violência e a opressão dos que os veem como mero objeto do entretenimento sádico com o qual procuram preencher suas vidas. Os estadunidenses veem ao país para “brincar de Counterstrike”, usando suas “armas Vintage” para atirar a esmo naqueles que consideram como sub-humanos, embasando-se para seul julgamento num racismo irrestrito contra todos que não considerem “brancos” como a si próprios.

Reações asquerosas e reacionárias que procuram a distinta roupagem de uma “crítica estética” para ocultar suas opiniões políticas, tais como a de Miguel Forlin no Estadão, apenas ressoam como um elogio não intencional à força provocativa do filme. E as declarações explícitas dos envolvidos com o longa, como Sônia Braga dedicando um prêmio recebido a Marielle Franco e questionando quem a matou, ou as declarações da produtora sobre dúvidas de que o filme poderia ter sido produzido durante o governo Bolsonaro, deixam explícita a intenção política que já é clara para qualquer um que veja o filme.

Se Kleber Mendonça disse “Eu nunca fiz nenhum filme, e também, quando eu era crítico de cinema, eu nunca escrevi nada com a intenção de passar uma mensagem”, Juliano Dornelles optou por assumir mais claramente o posicionamento político do filme, afirmando que: “A gente vive num país que é muito rico em absurdos. Rico em contradições, rico em violência, rico em deseducação, isso é alimento para mais de dois mil filmes. Bacurau é só mais um”. A intenção e a realização de uma crítica a esse governo são, em si mesmas, louváveis. Mas como qualquer arma empenhada na luta, precisamos avaliar seus métodos e sua eficácia.

Em um tweet recente, Kleber Mendonça criticou um protesto realizado contra Bolsonaro durante seu pronunciamento na televisão. Em todos os cantos do país, panelaços foram ouvidos contra as declarações cínicas do presidente a respeito das queimadas na Amazônia. Mendonça, no entanto, questionou a atitude dizendo: “Eu realmente acho que não é possível ter panelada de esquerda. Símbolo forte demais do Golpe. Panelada agora contra Bolsonaro só para quem caiu no trote 17.” O interessante dessa crítica é a afirmação de uma posição que vê como impossível reapropriar-se de um método de protesto para utilizá-lo contra a direita porque esse já estaria impregnado de uma conotação de direita. Mesmo sendo algo tão simples quanto um bater de panelas (método de protesto que, diga-se de passagem, é muito anterior aos panelaços da direita no país).

Comparemos então essa crítica ao modo como Mendonça e Dornelles dirigiram Bacurau. Como eles próprios afirmam: “Bacurau é um exercício sem vergonha em ser de gênero”. Ou seja, eles admitem que tomam fórmulas consagradas no cinema em determinados gêneros cinematográficos para utilizar em seu filme. O Huffpost fez uma matéria em que resgata algumas das principais influências utilizadas em Bacurau. Filmes de terror de John Carpenter (homenageado no filme inclusive com o nome do personagem “João Carpinteiro”), filmes de faroeste, de ação e ficção científica. Em entrevista, Mendonça disse que “cada filme exige uma roupa, um pouco como a gente quando vai sair de casa, dependendo do tempo, se está mais frio ou está mais quente, bota a roupa que é mais adequada.” Afirma que no caso de Bacurau, é um “exercício” de fazer um filme “sem vergonha” de ser de gênero, ou seja, de se apropriar irrestritamente das fórmulas consagradas pela indústria cinematográfica. Fórmulas que são adotadas pelo seu sucesso e pela garantia de gordas bilheterias - o interesse fundamental que motiva Hollywood. Ele e Dornelles se sentiram “muito bem” e “muito livres” ao fazer algo com “tintas ligeiramente absurdas do gênero”.

Contudo, os gêneros dos quais os diretores retiram os elementos para compor Bacurau se prestam a papeis muito distintos do que a crítica a um governo de extrema-direita ou à rapina imperialista. Eles visam, é claro, em primeiro lugar as boas bilheterias que podem render lucro; para isso, se firmam em fórmulas que formalmente e em seu conteúdo reforçam o que há de mais convencional e, portanto, conservador na ideologia da classe dominante. A distinção maniqueísta entre “mocinhos” e “bandidos” e os estereótipos para essas categorias de personagens, a violência espetacular, e os finais felizes são apenas alguns exemplos. Seria possível, então, subverter esses elementos para utilizá-los em um filme cujo objetivo fosse oposto a isso? Dornelles diz que “O que o filme propõe [...] [é] juntar um tipo de cinema popular com elementos pra gente refletir, e o filme ficar com a gente, a gente pensar no filme depois de sair da sessão”. Como se dá essa tentativa?

Em seus tweets, Mendonça se disse cético quanto a que algo muito menos complexo e comprometido com valores dominantes - como um mero panelaço - pudesse ser reapropriado para pautas progressistas; aqui falamos de gêneros cinematográficos vigentes há décadas, cujo uso a serviço dos interesses de um dos mais elaborados setores da indústria cultural foi muito aprimorado. E é essa a armadilha de Bacurau, que leva o filme a servir um propósito muito distinto do que talvez pudesse ser o de seus autores.

As metáforas usadas na crítica são claras: um grupo de estadunidenses (liderados por um alemão naturalizado nos EUA [representado por Udo Krier]) utiliza sua influência política e seu poder econômico para fazer de um povoado nordestino - majoritariamente negro e permeado de todas as figuras sobre as quais o ódio da extrema-direita se abate, como transgêneros e gays (inclusive o andrógino “cangaceiro moderno” Lunga) - o alvo de seus desejos sádicos de assassinar gratuitamente pessoas. Aqui está representado o imperialismo, fundamentalmente. Seus aliados para isso são os brasileiros que se acham mais parecidos com eles do que com seus compatriotas. Para que não fique dúvida sobre a que setor o filme se refere, um deles é um assessor de um desembargador federal - um setor do judiciário como os que foram a “mão de obra” da Lava Jato. Além disso, também contam com o apoio dos políticos locais, representados pelo prefeito Tony Junior.

Esse grupo de “vilões” é caracterizado bem a gosto das fórmulas de gênero que os diretores tomam: são movidos por uma perversidade e um sadismo implacáveis, capazes de gerar repulsa em qualquer um. São quase todos retratados como figuras com as quais nenhum espectador poderá simpatizar, dando gargalhadas e sentindo tesão após fuzilar um casal de idosos, relatando sadicamente seu prazer ao matar crianças, confessando seu desejo de assassinar a ex-mulher ou pessoas inocentes a esmo. Entram aí referências bastante explícitas a situações de violência no Brasil, como a suposta “confusão” da lanterna de uma criança com uma arma de fogo que serve de justificativa para assassiná-la friamente. Ou as referências aos massacres estadunidenses em lugares públicos que vêm aos poucos se tornando prática corrente no Brasil também, como no emblemático caso de Suzano ocorrido neste ano.

O líder do grupo, contudo, lembrando modelos como o de “Duro de Matar” (um clássico do gênero hollywoodiano de “ação”), ou até de Hannibal Lecter, é figurado como uma figura mais “complexa” e “misteriosa”, seguindo um código de conduta próprio que vai para além de um mero desejo sádico irreprimível, o que serve para elevar a tensão no filme, mas em nada ajuda a explicar a realidade que pretende alegorizar.

Já o grupo dos “mocinhos” é representado como harmônico e coeso, onde até mesmo os traços mais degenerados da sociedade, como a prostituição, figuram como algo lúdico e condizente com o sentido de comunidade. Os heróis são inteligentes, corajosos, e o principal deles, Lunga (Silveiro Pereira), tem “um quê” de rebeldia solitária, à la Mad Max e numa referência aos cangaceiros. O vilarejo de Bacurau figura assim como uma comunidade idílica e sem contradições - seus habitantes decidem tudo em assembleias dirigidas pelo “ancião” Plínio, eles se coordenam e respondem unificadamente aos abusos do prefeito Tony Junior, e mesmo a miséria em que vivem é permeada pela alta tecnologia das escolas e combatida heroicamente pelas viagens do caminhão pipa que traz água a eles. A negligência do governo que não lhes fornece remédios - ou os fornece apenas vencidos - é combatida com a sabedoria popular dos remédios caseiros que eles usam.

Nos dois grupos em conflito, os espectadores são levados à empatia imediata pelos moradores de Bacurau que lutam contra os sádicos invasores. A motivação destes não é nenhuma senão sua vontade de matar, e esse é o primeiro reducionismo do filme que deriva de seu formato “de gênero”. A simplificação entre os “mocinhos” e “bandidos” achata brutalmente as complexas relações sociais, produzindo um discurso ideológico em que os que oprimem e exploram o fazem por questões de caráter, como um vilão do Batman, e não como agentes do imperialismo motivados pelas relações sociais capitalistas. Se reproduz um discurso corrente que apresenta o bolsonarismo e todas suas causas, implicações e consequências com “explicações” tão profundas quanto dizer que ele tem “problemas mentais”.

Mas efetivamente o filme não vai em nenhum momento a um âmbito em que se procurem explorar as raízes das questões. A alegoria criada na tela está a serviço de outra coisa: ela reproduz numa forma espelhada o mesmo tipo de dinâmica que é proposta pelos “filmes de gênero” no qual se inspira. Quer emocionar o público, cativá-lo por meio da adesão empática a personagens que lutam contra maléficos vilões. A crueldade abominável desses vilões, cuja personificação caricata e infantilizante do “mal” só pode existir em narrativas como esta, inspira o ódio e a expectativa do público para que a justiça seja feita.

E, como não poderia deixar de ser em um filme adequado à fórmula, a justiça é enfim feita. Como Beatrix Kiddo, a quem a crueldade desmedida de Bill foi aplicada sem misericórdia (não sem retirar do personagem do vilão seu “mistério” e sua “complexidade”), os moradores de Bacurau se vingam de seus agressores com cabeças explodidas, sangue em profusão e até mesmo o direito a exposição de cabeças cortadas para tirar fotos com os celulares. Não estariam exagerando?, pergunta um morador a Teresa (Bárbara Colen) uma das “mocinhas”: “não”, responde ela, com a certeza de quem faz justiça.

A fúria dessa vingança, e vê-la na tela praticada com gosto, caiu como uma redenção a tantos que foram ao cinema ver Bacurau, e que hoje se encontram angustiados, deprimidos e até desesperados com a situação do país. Eles veem na tela a justiça que não conseguem fazer contra os algozes do bolsonarismo; e não à toa, em exibições como a de Gramado, o público foi ao delírio em aplausos e gritos ao ver a reação do povo de Bacurau [1]. É um momento catártico, no sentido artistotélico, ou seja, ele “purifica” os espectadores. [2] O júbilo que estremece o público é o de ver representada na tela a justiça e a consequente harmonização social que se vê incapaz de realizar na vida.

Assim, ao final do filme, todos os que foram ao cinema procurar um filme que se contrapusesse ao terrível estado de nossa sociedade saem aliviados por terem visto nas telas a justiça; na vida real, tudo permanece igual. E, involuntariamente, o filme contribui para, efetivamente, manter as coisas tal como são. Os grupos dos “maus” e “bons”, apresentados de uma maneira absolutamente maniqueísta, servem apenas para reforçar valores e convicções que já existiam antes. Os que identificam o grupo dos assassinos estadunidenses ao bolsonarismo ou imperialismo veem isso reforçado nas telas e se regozijam ao vê-los justiçados. Os que veem ali o contraditório reforço de uma “violência” da polarização social brasileira (como a crítica de Jerônimo Teixeira na Folha), reforçam também sua visão anterior. Nenhuma reflexão é proposta, nenhuma contradição é apresentada. Contradições, aliás, inexistem nesse “cinema de gênero”, onde tudo é simples e linear na busca de maiores bilheterias.

Assim, por mais que a intenção dos diretores, roteiristas, atores e até produtores do filme possa ser a de protestar contra o governo e quiçá até mesmo de fomentar as pessoas contra o atual estado de coisas, eles tropeçam ao tentar preencher as formas do cinema do conformismo com algum conteúdo questionador. Diferente de Kleber Mendonça, acredito que podem e devem haver panelaços de esquerda, sim. Mas muito mais difícil que isso será se apropriar de um formato narrativo feito para a conformidade e preenchê-lo de um conteúdo social distinto. Como disse Augusto Boal ao analisar o sistema trágico aristótelico:

“Que não reste nenhuma dúvida: Aristóteles formulou um poderosíssimo sistema purgatório, cuja finalidade é eliminar tudo que não seja comumente aceito, legalmente aceito, inclusive a revolução, antes de que aconteça...O seu Sistema aparece dissimulado na TV, nos cinemas, nos circos e nos teatros. Aparece em formas e meios múltiplos e variados. Mas a sua essência não se modifica. Trata-se de frear o indivíduo, de adaptá-lo ao que preexiste. Se é isso que queremos, esse sistema serve melhor que nenhum outro. Se, pelo contrário, queremos estimular o espectador a que transforme sua sociedade, se queremos estimulá-lo a fazer a revolução, nesse caso teremos que buscar outra Poética”.

Mendonça, no entanto, afirma ser “fascinado pela ideia do cinema popular, e a catarse, ela faz parte do cinema popular”. Portanto, é com essa poética que eles pretendem trabalhar, uma que não pode fazer mais do que estimular a expurgar os sentimentos no escuro da sala de cinema antes de retornar para a mesmice da vida.

O problema colocado para que Bacurau possa ser efetivo está justamente na concepção de seus diretores de que você pode simplesmente pegar uma forma “popular” de cinema - deixando de lado que se baseia em pressupostos como esses afirmados acima - e juntar a um conteúdo “verdadeiro”, e estaria pronta a obra. Mendonça afirma: “Basta você ser honesto com o país que você trabalha e retrata e eu acho que você vai ter um filme que as pessoas vão dizer: ‘É, isso aí é bom, eu reconheço isso aí, isso é verdade’.” Mas, como dizia Brecht:

“Alguns consagram-se verdadeiramente às tarefas mais urgentes, sem medo aos poderosos ou à pobreza, e no entanto não conseguem encontrar a verdade. (...) A honestidade não basta; são precisos conhecimentos que se podem adquirir e métodos que se podem aprender. Todos os que escrevem sobre as complicações desta época e sobre as transformações que nela ocorrem necessitam de conhecer a dialéctica materialista, a economia e a história.”

Justamente porque a verdade não corresponde às aparências; é preciso desnudá-las para se chegar à essência e poder, então, trabalhar com ela em uma obra de arte.

Como apontamos antes, a forma como Mendonça e Dornelles apresentam o bando que ataca Bacurau é como se fossem tomados por um mal intrínseco. É uma forma mistificadora, pois ao pretender contar a verdade sem falar de sua essência, trata-a como um fato “natural”. Corresponde, guardadas as proporções, à forma como Brecht apontava em alguns de seus contemporâneos o retrato do fascismo:

“O que torna imperiosa a necessidade de dizer a verdade são as consequências que isso implica no que diz respeito à conduta prática. Como exemplo de verdade inconsequente ou de que se poderão tirar consequências falsas, tomemos o conceito largamente difundido, segundo o qual em certos países reina um estado de coisas nefasto, resultante da barbárie. Para esta concepção, o fascismo é uma vaga de barbárie que alagou certos países com a violência de um fenômeno natural. (...) Como poderá alguém dizer a verdade sobre o fascismo ao qual é contrário, sem querer falar do capitalismo que o produz? Que aspecto prático poderá ter esta ’verdade’? Os que são contra o fascismo, sem tomar posição contra o capitalismo, os que lastimam a barbárie como resultado da barbárie parecem pessoas que querem comer sua porção de vitela sem abatê-la. Querem comer a vitela mas não querem ver o sangue. Contentam-se em saber que o açougueiro lava as mãos antes de trazer a carne. Não são contra as relações de propriedade que produzem a barbárie. São apenas contra a barbárie. Levantam a voz contra ela e fazem isso em países onde existem perniciosas relações de propriedade, mas onde os açougueiros ainda costumam lavar as mãos antes de servir a carne.”

A “verdade” apresentada por Mendonça e Dornelles padece de um mal semelhante: a barbárie dos invasores não possui causas se não seu próprio espírito sádico, e nem pode ser combatida a não ser nesse restrito âmbito. Ao ser enterrado vivo, o líder do bando diz que “É apenas o começo”. Por quê? Se o bando todo foi dizimado, de onde viriam novas ameaças? Nada disso é explicado, porque o filme não apresenta a verdade, mas apenas uma paródia “de gênero” desta. A forma "popular" tomada de Hollywood pode garantir grandes momentos catárticos e boas bilheterias, mas para conseguir falar da verdade e incitar uma mudança social é preciso procurar caminhos distintos.

 
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