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Sábado 14 de Diciembre de 2019
08:53 hs.

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Sobre o pessimismo, o otimismo, o século XX e muitas outras coisas*
Leon Trotski

Publicado pela primeira vez em 17 de fevereiro de 1901, no n. 36 da Vostótchnoe Obozriénie [O arauto do Leste], semanário de variedades regional, o presente texto é uma carta à redação assinada por “Antid Oto”, pseudônimo utilizado por Leon Trotski à época, forjado a partir da palavra italiana antidoto (“antídoto”, em português) e transliterada ao alfabeto cirílico (Антид Ото, em russo). Passados 118 anos de sua primeira publicação, momento em que novamente a humanidade encontra-se em uma encruzilhada que ameaça, sem exageros, a sua própria existência sobre a face da Terra, a “carta” de Trotski pode ser considerada, pela força de suas palavras e pela profundidade de suas reflexões, um antídoto ao nosso tempo. Em tom sóbrio, mas confiante, dono de um genuíno otimismo, sem sombra, contudo, daquele otimismo escapista característico do autoengano, o texto revela a veia literária de Leon Trotski, que, um dia, sonhara em ser escritor. Impressiona a erudição de suas linhas, a potência de sua pena e a delicada habilidade com que maneja a língua russa, elementos que concorrem para conferir à “carta” o status de uma ensaio literário, quase poético.

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Fotomontagem: Thais Oyola.
Tradução: Paula Vaz de Almeida.

Dum spiro, spero.

Se eu fosse um autêntico cientista, consagrado, e decidisse escrever uma monografia sobre o pessimismo e o otimismo, começaria, certamente, pelas classificações. Isso confere ao trabalho a solidez necessária, capaz de, muitas vezes, completar a falta de conteúdo... Mas, como não sou um cientista, apenas uma “pessoa leiga”, e não estou escrevendo uma monografia, mas uma “carta”… Começarei, mesmo assim, pelas classificações: o que, na verdade, é uma auto-humilhação!...

Tal classificação, que me dou a liberdade de lhes propor, tem como fundamento a divisão entre otimismo e pessimismo em sua relação com os elementos da tríade sacramental: Passado, Presente e Futuro. Tanto o otimismo quanto o pessimismo, apesar de sua oposição lógica, psicologicamente quase sempre coexistem em uma única pessoa, orientação e classe: enquanto o otimismo se orienta para um elemento da trindade, o pessimismo se concentra em outro. Aqui são possíveis algumas combinações, alguns tipos fundamentais, que têm um profundo sentido comum. Detenhamo-nos, em primeiro lugar, no tipo de otimista do passado.

Com um olhar cheio de ira, ódio e bestialidade, ele observa como “tal cloaca irrompe uma onda de desejos baixos inundando praças e ruas”, como “a profanação mais obscena desonra o seu santuário”... Ele tenta rebentar numa gargalhada satânica, quando “ouve em uma reunião o ganido de castração de um animal de grande porte – da plebe” – em vão! Seu riso soa doloroso e inseguro... Então, repleto de angústia, com terno amor, volta os olhos ao passado, no qual se delineam os traços suaves das “pacatas alegrias da fortaleza da vida cotidiana”. [1]

Esse é o tipo mais miserável de ideologia civil. Seu representante: Taine [2]. Seu símbolo: um crânio sem dentes com as cavidades dos olhos abertas. O destino peremptório da história condenou-o à privação de todos os seus direitos sobre o futuro...

O segundo tipo, o otimista do presente, nem sempre olha para o passado e não projeta muito o futuro: ele, integralmente, com todos os seus sonhos e esperanças, com todos os seus desejos e receios, não sai dos limites da contemporaneidade. É a encarnação da complacência civil, da estupidez e da limitação pequeno-burguesas [3]. Foi ele quem, pela boca do doutor [4], afirmou que o nosso mundo é o melhor dos mundos. Foi ele quem, no Reichstag alemão, há um quarto de século, gargalhou uma gargalhada grossa, jogando para trás sua cabeça estúpida e balançando sua barriga adiposa, quando um deputado-“sonhador” sozinho fustigou com uma palavra espirituosa esse melhor dos mundos...

Finalmente, o terceiro tipo, para o qual recomendamos reforçada atenção do leitor, não está conectado ao passado nem pela antipatia nem pela simpatia: o passado lhe interessa apenas na medida em que dele nasceu o presente, e o presente, na medida em que dá um ponto de apoio para a criação do futuro. E esse futuro, oh!, possui inteiramente suas simpatias, suas esperanças, seus pensamentos... Esse terceiro tipo pode ser caracterizado como pessimista do presente e otimista do futuro.

São esses os três principais tipos. Ao lado deles, convém colocar de maneira completa, há, ainda, o otimista absoluto [5] e o pessimista absoluto.

O primeiro, geralmente, liga o otimismo ao misticismo: nada mais conveniente que, colocando a responsabilidade pelo curso das coisas terrenas em forças sobrenaturais, confiar inteiramente em sua benevolência e, cruzando os braços sobre o peito, ponderar sobre o fato de que “o mundo não foi criado por nós e não vai terminar junto conosco”... A essa categoria se relaciona o falecido V. Soloviov. [6]

O pessimista absoluto é o espírito da negação, o espírito da dúvida, um produto de momentos históricos difíceis, quando o porvir não é claro, e o futuro “ou é vazio ou é sombrio”, quando a desarmonia social atinge uma tensão suprema... Esse pessimismo pode criar um filósofo, um poeta lírico (Schopenhauer [7], Leopardi [8]), mas não pode criar um militante. Les éxtremités se touchent (os extremos se tocam). Os dois últimos tipos, apresentando, aparentemente, uma contraposição absoluta um ao outro, tocam-se em um ponto extremamente importante: ambos são passivos.

Não é o caso do otimista do futuro. Este é a própria atividade. Seu pessimismo e seu otimismo não constituem o “zwei Seelen in einer Brust [9], duas almas que lutam entre si e oferecem-lhe o espólio da reflexão (Fausto, Hamlet). Não, estão conectados a ele em um todo harmônico: o otimismo do futuro está tão somente a serviço do imperativo do alto e idealista ativismo civil, enquanto as raízes o alimentam com o pessimismo do presente...

A realidade não apenas riu com uma gargalhada grossa do otimista do futuro, mas, ainda, ofereceu-lhe uma prova impressionante. Foi ele quem diante do interrogatório da Santa Inquisição exclamou: E pur si muove! (E, no entanto, se move!) Foi ele quem, “docilmente e sem derramamento de sangue”, ardeu em 17 de fevereiro de 1600 [10] em Roma, na Praça das Flores, mas ele, como a fênix, renasceu das cinzas e, ainda assim, apaixonado, crente e combatente, bateu à porta da história. Adquiriu o direito de descobrir as leis que regem o movimento dos corpos celestes, mas, quando desviou sua ávida mirada do espaço sideral e transferiu-o à Terra, a esse “mísero pedaço de lama”, e pôs-se a procurar as leis que regem os movimentos das sociedades humanas, o Torquemada [11] coletivo mais de uma vez lhe dirigiu especial atenção. E pur si muove! – respondeu, no entanto, a Torquemada, crente e atuante, atuante e crente...

Por um lado, o otimista do futuro contrapõe-se ao filisteu. Forte devido à sua massa e com a pureza de sua vulgaridade, armado com sua experiência, sem ultrapassar os limites do balcão, da escrivaninha e da cama de casal, balança ceticamente a cabeça e condena “o sonhador idealista” com a afirmação pseudorealista: “Nada de novo sob a lua; o mundo é uma eterna repetição do ocorrido”...

Por outro lado, contra o mesmo otimismo, levanta-se o sacerdote diplomado em ciências naturais, que alcançou a mais grandiosa conquista do século dezenove.

– Profano! – dirige-se o sacerdote ao “sonhador”. – Se se assumir para a vida orgânica da Terra a idade de cem milhões de anos – e este é o número mínimo admitido pela ciênica –, então, para a fração da raça humana, obtém-se um décimo de milhão, e dessa fração, que você, com brilho nos olhos, chama de “história mundial”, obtém-se a patética porção de tempo de seis milênios. Ou, a fim de que se imprima de maneira mais clara em sua mente de não iniciado, que não está acostumada a operar com períodos tão colossais, essas relações as traduzirei para uma linguagem de medida de tempo mais familiar. Se, em uma fração da vida orgânica, admitir-se 24 horas, então, para a raça humana, obtém-se 2 minutos, e para a toda a sua “história mundial” nada mais, nada menos que 5 segundos... Haveria algo por que lamentar, haveria algo sobre o que sofrer, haveria algo por que rogar, haveria algo por que lutar quando todo o período da história da vida não é mais que um segundo de eternidade, um ínfimo episódio da evolução cósmica, uma combinação de forças mecânicas passageiras, um espasmo fugaz da matéria do mundo?! Aceite, sonhador, diante da imensidão do infinito e da infinitude da eternidade!

Dum spiro, spero! Enquanto respirar, terei esperança! – exclama o otimista do futuro. – Se eu vivesse a vida de um corpo celeste, me referiria com completa indiferença a essa bola de lama desprezível, perdido no universo infinito, eu igualmente brilharia tanto o mal quanto o bem... Mas eu sou uma pessoa! E a “história mundial”, que, para você, impassível sacerdote da ciência, contabilista da eternidade, parece um segundo no orçamento temporal, para mim, é tudo! E enquanto eu estiver respirando, vou lutar pelo futuro, aquele futuro resplandescente e iluminado em que o ser humano, forte e maravilhoso, vai se apoderar da correnteza espontânea da história e dirigi-la para um horizonte ilimitado de beleza, de alegria, de felicidade! Dum spiro, spero!

E ao patético filisteu, com sua negação da mudança do mundo sob a lua, o otimista do futuro opõe os mesmos cálculos contábeis da ciência que lhes são direcionados. Veja! – exclama: – dos 5 segundos da história mundial, de toda sua vida comezinha, livrou-se menos que meio-segundo – e, talvez, menos que um décimo de segundo resta até o fim de sua existência histórica. Viva o futuro!

Os séculos passaram em fila, indiferentes como o movimento da Terra em torno do Sol, e somente os episódios dramáticos da luta incessante pelo futuro deram uma coloração clara a essas convenções aritméticas desnudas, a esses gigantes da linhagem do calendário.

O século dezenove em muito satisfez e mais ainda enganou as expectativas do otimista do futuro, obrigou-o a transferir a maior parte de suas esperanças ao século vinte. Ao se deparar com um fato revoltante, exclamava: como? Às vésperas do século vinte!... Ao imaginar sublimes quadros de um futuro harmônico, pendurava-o no século vinte...

E eis que esse século vinte chegou! E o que encontrou ele em seu próprio limiar?

Na França, a espuma venenosa do ódio racial; na Áustria, a rinha nacionalista dos chauvinistas burgueses; no sul da África, a agonia de um povo pequeno massacrado por um colosso; na ilha da “liberdade”, hinos triunfantes em honra da vitoriosa ganância dos especuladores jingoístas [12]; “complicações” dramáticas no Leste; movimentos rebeldes de massas populares famintas na Itália, na Bulgária, na Romênia... [13] Ódio e matança, fome e sangue...

Ao que parece, é como se o novo século, esse gigante forasteiro, no próprio momento de sua emergência, se apressasse a condenar o otimista do futuro ao absoluto pessimismo, ao nirvana civil.

– Morte à utopia! Morte à fé! Morte ao amor! Morte à esperança! – troveja aos disparos dos fuzis e ao retumbar dos canhões o século vinte.

– Renda-se, patético sonhador! Eis-me, o seu tão esperado século vinte, o seu “futuro”!...

– Não! – responde o otimista insurreto: – você é só o presente!

17 de fevereiro de 1901

* A tradução aqui apresentada, feita diretamente do original em russo por Paula Vaz de Almeida para a revista Revolução Permanente, n. 3, 2019 e gentilmente cedida ao Ideias de Esquerda, baseia-se em texto publicado em 1926, em Problemas de cultura. A cultura do velho mundo [Проблемы культуры. Культура старого мира], volume 20 das Obras reunidas (21 vols.) de Leon Trotski, cuja seleção, reunião, organização e publicação foi feita pela editora estatal da URSS, a Gossizdat, de 1924 a 1927. Infelizmente, não se conservaram todos os volumes da série, uma vez que, depois da expulsão de Trotski do Partido Comunista da União Soviética, bem como daquele país, Ióssif Stálin se esforçou para destruir essas Obras. O texto ficou popularmente conhecido entre nós pelo título “O otimismo e o pessimismo” e apenas um pequeno trecho, correspondente à parte final da “carta”, está disponível em português, extraído do livro de Isaac Deutscher Trotski – o profeta banido. Esta é, provavelmente, sua primeira publicação, na íntegra, em português e vem acompanhada de notas, tanto as do próprio escritor quanto as da edição original e as da presente publicação.

 
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