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Domingo 13 de Octubre de 2019
23:33 hs.

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RAPPI, IFOOD, GLOVO, UBER EATS
Entregas por App: tecnologia para o século XXI ou para voltar ao XIX?
Tatiane Lima

A paisagem das grandes cidades brasileiras começaram a ser modificadas significativamente nos últimos dois anos. Nos grandes centros urbanos, em meio às multidões e ao intenso trânsito, é impossível não ver os exércitos de entregadores por aplicativos. As cores vivas de seus uniformes e mochilas gigantes chamam atenção e buscam transmitir que a realização da felicidade está “ao toque de um clique”. Nada mais contrastante com o cinzento e duro trabalho que encaram dia e noite atrás dos motores ou pedais. Entenda neste artigo um pouco mais sobre esse universo crescente, competitivo e precarizador do trabalho por Apps.

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Startups: o fenômeno sob a velha exploração carniceira

As transformações no mundo pós crise capitalista de 2008 parece ter sido um motor para a explosão de Startups na América Latina dos últimos anos. No entanto empresas emergentes e tecnológicas não são uma novidade da atualidade. Com raízes no Vale do Silício, região da Califórnia nos EUA, não por um acaso as primeiras aparições de Startups remonta aos anos 90, em meio à ofensiva neoliberal pós Guerra Fria e aos avanços tecnológicos da Internet, que começava a ser comercializada mais amplamente após décadas de exclusividade dos meios militares, científicos e acadêmicos norte-americanos. Esse foi o berço das gigantes de hoje: Microssoft, Google, WhatsApp, entre muitas outras. E o que essas empresas em sua fase inicial prometiam segue sendo um princípio básico comum para as jovens empresas de Apps da atualidade: serem negócios repetíveis e escaláveis. Ou seja, devem assegurar seu espaço no mercado, com planos de expansão, liderança e uma valorização inversamente proporcional aos seus custos, com destaque ao custo do trabalho humano realizado.

Um rápido olhar sobre o histórico que as dinâmicas Startups de entrega (sobretudo as que vêm buscando crescer no mercado de entrega de comidas, mas que aspiram ir além, como veremos adiante) vêm construindo mostra que encontram-se em um terreno de apostas milionárias, com grandes investidores como mentores, especialistas em capital de risco e que fazem fortunas em cima de seus históricos de sucesso, numa especulação agressiva. Nomes como o do russo Yuri Milner da DST Global (investidor do Facebook, Twitter, WhatsApp e Nubank), que é ligado aos interesses estratégicos do governo russo, como ficou demonstrado nos vazamentos do Panama Pappers ou do grupo norte-americano Sequoia (investidor inicial do Google, Youtube e que agora busca terreno na China, índia e América Latina), como alguns exemplos, estão entre os principais investidores da Rappi e, junto ao processo de “aceleração” que esta teve no próprio Vale do Silício, foram fundamentais para sua expansão com avaliação que hoje supera 1 bilhão de dólares e garantiu o tão cobiçado título de Startup “unicórnio”.

A pioneira Uber Eats, norte-americana como não poderia deixar de ser, trouxe o modelo Uber ao ramo das entregas mais ou menos junto com o mercado de transporte por aplicativo, a partir de 2009. Foi seguida pela brasileira Ifood, que começou suas atividades em 2011 e por enquanto lidera o ramo na América Latina, contando com um sugestivo investimento do segundo homem mais rico do Brasil, Jorge Paulo Lemann, o mesmo nome que busca ser exemplo de investimento numa Educação “inovadora” e que foi citado como “uma inspiração” pelo CEO brasileiro da Rappi, Bruno Nardon. Já a espanhola Glovo e a colombiana Rappi, ambas nascidas em 2015, disputam terreno na América Latina, enquanto a última é sem dúvidas o mais importante fenômeno na região.

Com modelos operacionais diferentes, a relação entre essas principais Startups que emergem pelo delivery de comida está justamente numa competição, tecnológica e especulativa, materializada através do trabalho humano ultra explorado. Seus dados concretos são praticamente inacessíveis e pouco confiáveis, não permitem afirmar com precisão quais são seus lucros reais e o que reverte de fato à legião de trabalhadores que mobilizam. Porém basta fazer uma simples comparação entre essas empresas, seus anúncios de captação, avaliação e aspirações, e as condições de trabalho e vida dos milhares de entregadores para ver nitidamente que os bilhões manipulados via mercado financeiro passam longe de qualquer garantia digna de trabalho, mas, sim, escondem uma brutal exploração que ascende junto ao desemprego e a precarização da vida trazidos pela crise capitalista que alcança mais de uma década. Enquanto a crise econômica deteriora a vida de milhões de brasileiros e latino-americanos, os mercados fizeram megarounds de investimentos às essas empresas de delivery que ultrapassaram os 100 milhões de dólares nos últimos meses.

Os entregadores: um exército jovem, negro e ultra explorado

Em pouco mais de três anos o fenômeno Rappi conta com uma rede global de mais de 60 mil entregadores, sendo que somente nas ruas brasileiras, nas quais chegou em 2017, estima-se que conte com mais de 25 mil trabalhadores. A colombiana que é uma sensação no Brasil está também no Uruguai, Argentina, México, Peru e Chile, e tem como estratégia anunciada por seus fundadores o “foco na América Latina”. Para se tornar uma liderança na região ela opera com a ideia de “entrega de tudo, muito rápido” (além de comida, compras, remédios e produtos de farmácia, dinheiro em espécie etc.). Similar à abrangência de entregas empregada pela Glovo, a Rappi vem se preparando não só para ser líder, mas também para enfrentar o App chinês WeChat, que conta com um bilhão de usuários e, além de entregas de comida e compras de todo o tipo, agrega num mesmo App opções bancárias, transporte, redes sociais, contatos de clínicas médicas etc. Aí está um dos principais motivos de investimento do Vale do Silício na Rappi, em tempos de guerra comercial é preciso evitar a expansão do App da gigante chinesa Tencent.

O mecanismo cotidiano de trabalho duro de dezenas de milhares de pessoas para essas empresas está baseado em duas ideias complementares: a já mencionada “tenha tudo ao toque de um clique” e a ideia de parceria autônoma no trabalho realizado, onde a máxima é “faça o dinheiro que quiser e do seu jeito”. São propostas tentadoras que vêm ocupar um espaço material como “soluções” necessárias em meio à uma vida sem emprego, sem tempo de descanso, sem perspectiva. E a tecnologia vem como uma espécie de certificado dessa falácia de empreendedorismo. Mas a realidade custa caro, arde no sol quente, sofre com a chuva e a exposição aos acidentes de trânsito. Essa realidade já custou fatalmente vidas e cotidianamente agride milhões delas. Foi sob esse pano de fundo que morreu o brasileiro Thiago Dias, vítima de um ataque cardíaco devido a uma rotina intensa de trabalho. Sem pronto socorro ou qualquer suporte da empresa, essa foi a realidade para Thiago e sua família. E essa barbárie está legitimada pela suposta autonomia, que também negligencia os equipamentos de segurança de trânsito ou mesmo seguro e remuneração para o caso de quem se acidenta trabalhando e precisa “ficar parado” por um tempo para se recuperar.

Essas empresas que escalam seus lucros às custas da ausência absoluta de quaisquer direitos trabalhistas também disseminam a competição entre os próprios trabalhadores, afinal preferem os “parceiros mais rentáveis”, como os motoboys, capazes de percorrer distâncias maiores em menor tempo, ainda que suas aspirações depende também dos ciclistas e até mesmo daqueles que realizam as entregas a pé. Pesquisas recentes divulgadas pelo El País e BBC sobre os entregadores da cidade de São Paulo demonstram que esses trabalhadores são jovens (em especial os ciclistas, expostos a maiores riscos e menores salários, chegam muitos a ser menores de idade), mais de 70% que se declara negro, com jornadas de mais de 12 horas, de segunda a segunda, com salário médio de R$ 992 por mês, menos que o mínimo oficial. Os próprios trabalhadores apontam o desemprego como principal motivador da busca pelos Apps, que no caso dos ciclistas chegam a custar cerca de 80 Km pedalados por dia e muitas noites com um sono vigilante em bancos de praças públicas. E mesmo com estatísticas que apontam ser um trabalho esmagadoramente masculino, com cerca de 97% de homens, há uma parcela de mulheres aí, jovens e também de maioria negra. A dura realidade desse trabalho precário se soma à opressão de gênero, com relatos de assédio de todos os tipos e até mesmo agressão física.

Dados recentes do IBGE (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios-Contínua, de julho de 2019) sobre a condição dos trabalhadores no país mostram um assombroso crescimento dos trabalhadores “por conta-própria” em mais de 1 milhão, enquanto diminui os trabalhadores formais. Como via de enfrentar o desemprego ou a precarização dos postos de trabalho, autorizada pela Reforma Trabalhista de Temer e agora endossada pela MP 881 de Bolsonaro, que é levada sem demora adiante pela maioria do Congresso, os trabalhos por Apps são sem dúvidas um fator significativo nesses dados. Recentes embates jurídicos entre o Ministério Público de São Paulo e Brasília e as empresas Ifood-Movile e Loggi (que atua com entregas gerais na área de logística) são um exemplo dessa tentativa de justificar a ultra exploração com ares de empreendedorismo, com a negação do vínculo empregatício para não cumprimento de responsabilidades mínimas — sendo que, a despeito da autonomia do trabalhador, as empresas realizam sanções, o induzem a trabalhar num ritmo intenso e atender todos os pedidos sem distinção, além da principal característica, que não compartilham de uma relação de igualdade/cooperação, mas há um controle sobre todos os âmbitos do trabalho e dos lucros ostensivos, sob condições de trabalho degradantes.

A fantástica inovação tecnológica, da conexão permitida por um clique no Smartphone, está, quase paradoxalmente, ligada ao atraso bárbaro de centenas de milhares de vidas fustigadas ao limite do esforço físico. As mega valorizações da moderna Wall Street e do mercado financeiro mundial caminham lado a lado com uma das maiores desvalorizações dos trabalhadores na história humana. Milhões de dólares circulam por hora, ao tempo que um trabalhador recebe por isso menos que um dólar no mesmo espaço de tempo, com um desgaste físico digno do século XIX em muitos casos. E isso não é um paradoxo, é apenas a dinâmica vital e irracional do capitalismo enquanto sistema social. Mas o embate ideológico de que essa é a inovação e maior aspiração de avanço que a humanidade pode ter deve ser travado. Os efeitos da crise capitalista, seu desemprego e retirada de direitos conquistados pela classe trabalhadora no último século não são o único caminho possível. A juventude que no mundo vem questionando essa imposição, que volta a simpatizar com a ideia de uma sociedade sem exploradores, que toma as ruas em vários países em defesa de direitos democráticos e que no Brasil foi o primeiro setor a se levantar contra o governo de extrema direita de Bolsonaro, essa juventude é a mesma que pode ser um obstáculo aos planos do capital financeiro e seus governos reacionários para que a crise seja paga pelos capitalistas.

 
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