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Miércoles 13 de Noviembre de 2019
18:17 hs.

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INTERNACIONAL
Trump segue jogando petróleo sobre as tensões no Oriente Médio
Claudia Cinatti
Buenos Aires | @ClaudiaCinatti

Na quinta-feira dois navios petroleiros foram atacados a poucos quilômetros da costa do Iran e Donald Trump imediatamente culpou o país persa elevando a tensão na região.

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Que o Oriente Médio é uma região inflamável não é nenhuma novidade. Porém, nos últimos dias não se tratou de uma metáfora. Na última quinta-feira dois navios petroleiros, um de propriedade norueguesa e o outro operado pelo Japão, sofreram um ataque próximo ao estratégico Estreito de Ormuz, a poucos quilômetros das costas iranianas. Com as densas colunas de fumaça de fundo, se tecem todo tipo de especulações e também de operações (geo)políticas que envolvem, além dos atores protagonistas – Estados Unidos e Irã –, um amplo espectro de atores com interesses muito diversos em jogo, como a União Europeia, Japão, China, Russia, Arábia Saudita e Israel.

Em um clima de crescente hostilidade, o incidente incendiou alarmes nos mercados, que responderam com uma alta inicial do preço do petróleo, beirando a 4%, ainda que logo cedeu terreno. Por volta de um terço do tráfico internacional de petróleo bruto e gás liquefeito – em particular na direção do Japão, China e Índia – passa pelo estreito de Ormuz, uma via marítima de pouco mais de 3km de largura que fica entre Irã e Oman. Teoricamente, o Irã teria a capacidade de o bloquear como resposta ao sufoco que as sanções impostas por Trump submetem. Mas na prática isso parece muito mais difícil. Começando porque os Estados Unidos protegem esta artéria marítima vital com a V Frota, que tem seu comando central em Barém.

Não é a primeira vez na história que os barcos petroleiros comerciais são alvos de ataques militares. Como subproduto da guerra entre Irã e Iraque, em meados da década de 1980 se afundaram ou danificaram por volta de 550 navios nas águas próximas ao estreito, o que foi seguido por um par de longos anos de turbulências nos mercados energéticos. Ainda que hoje o impacto não é o mesmo porque o xisto transformou os mercados e deu aos Estados Unidos uma maior autonomia, as consequências seriam sentidas na economia internacional.

Mas, no momento, o maior impacto é na esfera da política internacional.

Os ataques coincidiram com a presença do primeiro ministro do Japão, Shinzo Abe, que estava de visita em Teerã em tom de paz, levando supostamente uma mensagem negociadora de Trump. Mas sua missão, como o petroleiro japonês, foi consumida em chamas. É provável que a próxima vez que Trump o encarregue de um recado, Abe pense duas vezes.

Os que especulam que foi obra do Irã invocam o sentido da oportunidade a favor de sua hipótese: segundo esta interpretação conspirativa, o poder factual iraniano representado pelo aiatolá Ali Khamenei, havia provocado o incidente para que o primeiro ministro japonês, Shinzo Abe. Tomasse consciência do perigo que significaria para seu país um conflito armado no estreito de Ormuz, por onde, calculam os especialistas do tema, passaria por volta de 80% das importações japonesas de petróleo provenientes do Oriente Médio.

Os que especulam que foi uma provocação dos EUA também apelam ao sentido da oportunidade: a presença de Abe ia objetivamente contra o isolamento do regime iraniano imposto à força por sanções de Trump. Horas antes das explosões Abe havia declarado que o Irã não tinha intenções de construir armamento nuclear.

O governo norteamericano, primeiro através do secretário de Estado, Mike Pompeo, e logo diretamente pela boca do presidente Donald Trump, responsabilizou o Irã pelos ataques. Como é óbvio, não há nenhuma evidência conclusiva. No conceito de toda prova, os EUA apresentaram um vídeo de procedência duvidosa em que, supostamente, uma patrulha iraniana extrai de um dos barcos danificados uma mina que não havia explorado. Esta pseudo prova foi desmentida inclusive por membros da tripulação do navio japonês, que declararam que o ataque veio de um “projétil voador”.

A acusação de Trump contra o Irã está tão “em papéis soltos” como as supostas “armas de destruição massiva” que justificaram a guerra e a ocupação do Iraque em 2003. Porém, para a ala neoconservadora da administração republicana onde militam o assessor de segurança nacional John Bolton e o próprio Pompeo, os ocorridos são o de menos. Nisso seguem a escola das “fake news” fundada por Karl Rove, o arquiteto do governo de George W. Bush e Dick Cheney, que tinha a certeza pós-moderna de que os EUA, como império, criava sua própria realidade. A realidade ficcionada de Bush terminou na guerra do Iraque, cujas consequências prosseguem ainda ao poder norteamericano, apesar de que se passaram 16 anos.

O primeiro governo ocidental a referendar a acusação norteamericana foi o do Reino Unido. Porém, Theresa May está de saída devido à crise do Brexit e o líder da oposição trabalhista, Jeremy Corbyn, que poderia ser o futuro primeiro ministro se houvessem eleições antecipadas, rechaçou a versão a qual qualificou de pouquíssima credibilidade, e se colocou na calçada em frente chamando a afrouxar as tensões com o Irã.

A pergunta de um milhão é se estas são as primeiras escaramuças de um conflito militar de envergadura ou um ato a mais da “diplomacia coercitiva” do governo de Trump.

Não há uma única resposta, simplesmente porque uma coisa pode levar a outra.

Nos seus três anos de mandato, Trump tem se mostrado reticente às guerras distantes e melhor espera que o cuco do poder militar – ao qual tem fortalecido com milhares de milhões de dólares – mais o clube de sanções econômicas alcancem para dissuadir os inimigos dos EUA. Mas às vezes tem se cercado de falcões como Bolton, que junto com setores da direita tradicional republicana, como o senador Marco Rubio, empurram à intervenção em diversas latitudes, desde o Golfo de Omã até a Venezuela. Como resultado, há políticas demasiado ofensivas – como a tentativa de golpe na Venezuela – que sem a disposição de usar a força terminam em um blefe e expõem perigosamente a debilidade da liderança norteamericana. As taxas têm se tornado ferramenta fundamental e quase exclusiva desta política exterior imperialista, que está a anos luz da “grande estratégia” das épocas douradas da hegemonia norteamericana, mas muito perto da base eleitoral de Trump, que há muito tempo está em campanha pela sua reeleição.

O incidente dos navios petroleiros, na realidade o segunda de envergadura em um mês, ainda não qualifica como um casus belli, mas se soma a uma escalada persistente do governo dos Estados Unidos, que começou com a retirada unilateral de Trump do acordo nuclear com o Irã, inscrito sob o governo de Obama em 2015.

Desde o cálculo racional, a maioria dos analistas insistem que nenhum dos atores centrais parece querer uma guerra, mas a soma do sufoco econômico com a acumulação de recursos bélicos por parte dos Estados Unidos podem fazer que inclusive um acidente leve a um conflito de consequências imprevisíveis.

 
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