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Viernes 18 de Octubre de 2019
11:00 hs.

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Sobre a promíscua relação entre o capitalismo, a ultradireita e a bancada da bíblia contra o laicismo
Simone Ishibashi
Rio de Janeiro
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Por Simone Ishibashi

Bolsonaro passa pelo momento de maior desgaste desde que foi eleito, acuado pelas manifestações de 15 de maio que tomaram as ruas de várias capitais e cidades do país. Foram várias respostas regressivas que Bolsonaro buscou dar desde então. Dentre elas está a convocatória do ato deste dia 26/05 que enquanto essas linhas são escritas demonstram-se bastante débeis. Mas que tiveram sua pauta inicialmente chamada contra o Congresso e o STF, e depois adaptada para se transformar em uma unidade militar-empresarial a favor da reforma da previdência.
Mas não foi apenas isso. Na melhor alusão à máxima, que já é parte do senso comum, de que a melhor defesa é o ataque, Bolsonaro publicou um texto “anônimo” no qual dava a entender que as corporações não o deixariam governar, e não contente, ainda replicou a estapafúrdia ideia de que seria um “enviado de deus”. O debate aqui realizado não é dirigido à “religiosidade popular” enquanto tal, muito embora em uma sociedade livre da exploração e da opressão inclusive essa será terá seu sentido histórico superado, mas contra as cúpulas religiosas reacionárias, que se apoderam do Estado de maneira cada vez mais voraz.
Isso se deu através da publicação de um vídeo de um pastor congolês que afirma que Bolsonaro havia sido escolhido por deus para governar o país. Segundo o pastor em questão o Brasil estaria “passando por um tempo novo”. E prossegue dizendo que “na história da Bíblia há políticos que foram estabelecidos por deus. Falam do imperador da Pérsia, Cirus. Deus fala através de Isaias eu escolho meu servo Cirus. Bolsonaro é o Cirus do Brasil. Querendo ou não, eu não moro aqui no Brasil. Mas falo da parte de deus que vocês querendo ou não Jair Bolsonaro é o Cirus no Brasil”.
Que Bolsonaro havia costurado uma aliança com os pastores de todas as origens e matrizes, desde que ricos e contrários a todo e qualquer avanço nas demandas democráticas dos setores oprimidos, não é novidade. O ponto novo é justamente a auto reivindicação de Bolsonaro de que seria o portador de uma suposta missão divina, que lhe conferiria uma autoridade diretamente vinda dos céus. O que significa, por sua vez, que seus críticos seriam opostos aos desígnios de deus. Ou diretamente representantes de forças malignas.
Mais do que um novo absurdo, que choca pelo reacionarismo e estupidez, para o leque amplíssimo de frases proferidas por Bolsonaro, tal afirmação demonstra que a própria natureza do Estado laico, uma conquista do século XVIII, não existe no país. Crescentemente a liberdade de cátedra, a importância da Ciência, as demandas democráticas das mulheres, negros e LGBTs são identificados por essa reacionária “santa aliança” entre ultradireita e igrejas forjadas no equivalente terrestre mais próximo às verdadeiras profundezas do inferno, são consideradas como “marxismo cultural maligno”. O processo que pavimentou esse caminho pode ser melhor compreendido mediante a ampliação do Estado no sentido gramsciano, isto é a incorporação das igrejas, em especial das neopentecostais, como parte das organizações que possibilitam que conformam os blocos de poder no país. No entanto, é chave ressaltar que a própria disseminação destas igrejas resultou na geração de uma cúpula de pastores-capitalistas-políticos, algumas vezes bilionários.

A ampliação do Estado através das igrejas e a questão do Estado laico

Esta unidade regressiva entre a ultradireita representada por Bolsonaro às vertentes fundamentalistas cristãs evocadas pelas igrejas neopentecostais têm sido uma das vias de ampliação do Estado, no sentido gramsciano. Marx afirmava que a “religião é apenas um sol fictício que se desloca em torno do homem enquanto este não se move em torno de si mesmo” (MARX, s/p). Tal ficção tem fornecido motivações religiosas para legitimar intenções políticas, como ocorre na história. Retomando a noção de Estado ampliado de Gramsci, nota-se como a busca pela consolidação de uma determinada hegemonia, envolve as dimensões da sociedade civil, que organizariam o consenso sem o qual o Estado, sobretudo no Ocidente não teria como se sustentar. Dessa maneira, nas palavras de Gramsci:

[...] Por enquanto, podem-se fixar dois grandes “planos” superestruturais: o que pode ser chamado de “sociedade civil” (isto é, o conjunto de organismos designados vulgarmente como “privados”) e o da “sociedade política ou Estado”, planos que correspondem, respectivamente, à função de “hegemonia” que o grupo dominante exerce em toda a sociedade e àquela de “domínio direto” ou de comando, que se expressa no Estado e no governo “jurídico”. Essas funções são precisamente organizativas e conectivas. Os intelectuais são “prepostos” do grupo dominante para o exercício das funções subalternas da hegemonia social e do governo político, isto é: 1) do consenso “espontâneo” dado pelas grandes massas da população à orientação impressa pelo grupo fundamental dominante à vida social (...); 2) do aparelho de coerção estatal que assegura “legalmente” a disciplina dos grupos que não “consentem”, nem ativa nem passivamente, mas que é constituído para toda a sociedade na previsão dos momentos de crise no comando e na direção, nos quais desaparece o consenso espontâneo. (GRAMSCI, 2000, v. 2, pp. 20-21).

A noção de Estado ampliado caracteriza a expansão das igrejas evangélicas para a conformação das mutações que marcaram o regime político brasileiro após as eleições de Bolsonaro. O papel das igrejas, ao lado da burocracia sindical que por outras vias termina sustentando o Estado, é bastante significativo como organizadoras reacionárias do “consenso espontâneo” concedido por parte de setores de massas hoje no país. Decretando que Bolsonaro seria um enviado de deus, e demonizando todos os a que ele se opõe, a cúpula dos pastores-capitalistas usa da escatologia religiosa para defender a agenda econômica de ataques, como a reforma da previdência, e se alçar como força contrária às demandas democráticas dos setores oprimidos. No entanto, é importante considerar que tal consenso, por mais que pareça ser inquebrantável à primeira vista, é cheio de contradições. Uma delas reside no rechaço de grande parcela das massas, dentre as quais figuram os evangélicos, em relação à reforma da previdência. Portanto, apontar uma saída consequente, que leve essa potencialidade até sua máxima expressão, é uma tarefa fundamental hoje.
Mas para além disso, uma demanda datada do século XVIII volta à tona, como subproduto da ampliação do Estado representada pela presença da bancada da bíblia. Trata-se da questão de elementar de separação da religião e do Estado, isto é, aquele que separa a Igreja da religião. Esta noção é derivada das conquistas da Revolução Francesa de 1789, que mudou de maneira significativa as relações entre a Igreja e o Estado burguês. A sequência de eventos que marcam essa transformação na França envolve o confisco dos bens da Igreja em 1790, posteriormente revertido quando se encerra o período jacobino, a declaração de que o ensino público deveria ser laico em 1882, e a declaração de que a França se tornaria um Estado laico, garantindo a liberdade filosófica e religiosa em 1905. Tais medidas constituíram-se como avanços progressistas, no marco da Revolução Francesa que forneceu as bases para a conformação dos Estados burgueses.
Porém, em meio ao século XXI, quando a burguesia já há muito tempo deixou de ser uma classe revolucionária, transformando-se no oposto disso, essas medidas são ora questionadas por uma cúpula capitalista religiosa, como no caso do Brasil, ora distorcidas em nome do próprio princípio de laicismo do Estado. Um exemplo desta segunda situação se deu na própria França em 2004, quando em meio à guerra ao terror que compôs a guerra do Iraque pelos EUA, se proíbe sua numerosa população muçulmana de frequentar as escolas e universidades usando o véu, sendo já uma distorção dos preceitos do Estado laico para reprimir sua população imigrante. Esta é uma demonstração de que na época de decadência do capitalismo as próprias conquistas da revolução burguesa mais clássica, são atacadas e distorcidas pela burguesia. O que nos traz de volta à situação aberta no Brasil.

O combate às cúpulas religiosas-capitalistas

A ascensão da ultradireita no Brasil, produto da crise orgânica, isto é de uma crise política, econômica e social que desgastou profundamente as vias de dominação exercidas através dos representantes e partidos políticos tradicionais da classe dominante, tem chocado pela amplitude do obscurantismo. Vê-se ministros queixando-se de que há muitos cientistas nas ciências, afirmando que veem deus em Bolsonaro e Jesus em pés de goiabeira. No entanto, isso não é apenas devaneio, ignorância ou transtornos psiquiátricos.
Trata-se em verdade de um projeto de poder muito bem estruturado por uma fração da classe capitalista, composta por self made men criadores de igrejas bilionárias. E da parte do governo é uma tentativa de Bolsonaro de estabelecer para si uma base relativamente mais estável, em meio a terremotos políticos incessantes com outros fatores de poder, como o STF e o Congresso. Esta base é composta pela cúpula da bancada da bíblia, cujos pastores-magnatas se utilizam da fé de seus fiéis para enriquecerem em uma escala capaz de despertar inveja a qualquer capitalista de ramos econômicos dos mais monopólicos.
Edir Macedo, fundador e líder da Igreja Universal do Reino de Deus, que também domina a TV Record, segunda maior do país detrás apenas da Globo, possui um patrimônio estimado de R$ 2 bilhões. Imóveis de luxo nos Estados Unidos, jatos e tudo o que de melhor o dinheiro pode comprar é parte do cotidiano de Edir Macedo, bem como denúncias por conta de lavagem de dinheiro. Já Valdemiro Santiago, ’dono’ da Igreja Mundial do Poder de Deus surge em segundo lugar com R$ 400 milhões. Silas Malafaia, que processou a revista Forbes alegando que teria patrimônio menor que o indicado pela revista, declarou em entrevista que a maior oferta de dinheiro que recebeu de um fiel “foi de R$ 2 milhões e a sua editora fatura R$ 45 milhões por ano”. (https://istoe.com.br/270456_JA+RECEBI+R+2+MILHOES+DE+UM+FIEL+/). Nesta mesma entrevista Silas Malafia diz que na “minha igreja tem desembargador, procurador, caras com doutorado. Vai dizer que a igreja evangélica só tem babaca, analfabeto, operário? Hoje a igreja evangélica é o extrato da sociedade: tem pobre, classe média e rico. Eu ganhei no meu aniversário uma Mercedes-Benz blindada de R$ 450 mil de um fiel, empresário rico, e não de um imbecil. Um dia, entro na minha empresa e está lá o carro com um laço em cima. Esse cara é um babaca que precisou ir à igreja para ficar rico? O cara é dono de uma frota de mais de 200 caminhões!”. Tais declarações demonstram de forma patente qual é a concepção que Malafaia tem sobre a maioria dos trabalhadores brasileiros. Coerente com essa afirmação, Malafaia tem se desdobrado em gravar vídeos defendendo a reforma da previdência, repercutindo a argumentação de que sem ela o “país quebraria”, que está na boca de praticamente todas as alas capitalistas e monopólicas do país, incluindo a Globo e um dos focos atuais da tensão com o governo, Rodrigo Maia.
Salta aos olhos, portanto, que a cúpula dos capitalistas pastores está adiante de um lucrativo negócio. Sendo o Estado burguês o balcão de negócios da classe dominante, como afirmava Marx desde 1848, não é de surpreender como essa parcela dos capitalistas da religião rapidamente faria de tudo para se apoderar de parcela do poder político, como se vê com a ampliação da bancada da bíblia que dobrou seu número desde 2006, passando para 182 deputados em 2018, organizados na Frente Parlamentar Evangélica. Tampouco surpreende que o Estado laico no Brasil esteja sendo atacado tão ferozmente, sob a tentativa de imposição de noções tão atrasadas que em nada deixam a dever para a Idade Média. O empoderamento do obscurantismo através de afirmações absurdas proferidas de maneira tão despudorada, é uma marca desses setores, mas engana-se quem pensa que seria apenas ignorância. Trata-se acima de tudo da defesa de interesses econômicos e políticos cruciais. Em outras palavras desta parcela dos capitalistas defenderem sua existência e ampliação como classe dominante, contra os trabalhadores e o povo, a quem brutalizam ideologicamente para enriquecerem.
A defesa do Estado laico é parte das demandas democráticas mais elementares. Mas não podemos nos satisfazer com um Estado laico e capitalista, que em meio à crise buscará fazer com que os trabalhadores arquem com os ônus com suas próprias vidas. É preciso partir da defesa da laicidade do Estado para concluir que uma formação de novo tipo, socialista, precisa emergir. Por conta da ligação entre este fundamentalismo cristão, capitalismo e utltradireita é que a defesa das demandas que compõem a base do Estado laico no Brasil devem ligar-se indissoluvelmente à luta contra a dominação econômica e política da cúpula dos pastores-capitalistas, de seus ataques à Educação e aos trabalhadores, com a reforma da previdência. Este combate deve abrir caminho para a ligação entre tais combates e a necessidade de uma luta que eleve os trabalhadores à condição de sujeitos da construção de uma nova sociedade, feita por eles e para eles, em que não haja exploração e opressão de nenhum tipo.

 
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