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Domingo 25 de Agosto de 2019
00:58 hs.

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SUPLEMENTO DA FT-QI
Luta de classes e novos fenômenos políticos na situação internacional
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Com os Coletes Amarelos na França e as mobilizações contra regimes ditatoriais pró-imperialistas na Argélia e no Sudão, os explorados irromperam em um cenário internacional convulsionado.

No último ano, aprofundaram-se as tensões econômicas e a instabilidade política que veio se gestando desde a crise capitalista de 2008, mas que deu um salto com a chegada de Donald Trump à presidência dos Estados Unidos, em um marco de desaceleração da economia mundial.

A crise sem saída do Brexit, a guerra comercial de Trump contra a China e, em menor medida, contra a União Europeia, as tendências nacionalistas nos países centrais, a perspectiva de um conflito entre grandes potências, a crise dos partidos tradicionais, a polarização social e o surgimento de novos fenômenos políticos e ideológicos tanto a direita quanto a esquerda, e as tendências mais radicalizadas da luta de classes são expressões da que se abriu um período transicional em que se estão preparando grandes conflitos entre os Estados e as classes.

Nos referimos a isso quando dizemos que a situação internacional se caracteriza por tendências a crise orgânica –crise de hegemonia burguesa- em vários países entre os quais se encontram potências imperialistas. Essa situação supõe tanto as tentativas da burguesia de acabar com a crise com governos bonapartistas de direita –como o Bolsonaro no Brasil ou o próprio Trump nos EUA- como a radicalização na luta de classes e na resposta política dos explorados diante dos ataques capitalistas. Para isso nos preparamos.

América Latina entre a tentativa de golpe na Venezuela e uma direita conflituosa

Na América Latina estamos vivendo uma ofensiva recolonizadora do imperialismo norte-americano que tenta recuperar terreno frente ao avanço econômico da China na região. O governo de Trump se apoia nos governos da direita pró-imperialista que hoje praticamente dominam o Cone Sul para alinhar o que ele considera seu “quintal” por atrás de Washington, enquanto tenta outras táticas de pressão para lidar com o governo chamado "progressista" de López Obrador no México.

A expressão mais aguda dessa política é a tentativa de golpe na Venezuela, planejada pela direita de Guaidó e o governo estadunidense, e apoiado pelo chamado “Grupo de Lima” que reúne os governos da direita continental e o Canadá. Em outro terreno, essa mesma política se expressa no retorno do FMI à Argentina, que com o governo de Macri se encontra sob a tutela desse organismo e de seus planos de ajuste a serviço do capital financeiro internacional.

Além disso, no marco em que a ofensiva golpista sobre a Venezuela se encontra estancada, os governos da direita regional encontram limites para poder se assentar e mudar a relação de forças para aplicar as contrarreformas que os capitalistas exigem. Nisso inclui-se o governo Bolsonaro, o mais à direita da região, que está em meio a disputas entre os diversos setores que compõem sua coalizão e que perdeu grande parte de sua popularidade, ainda que estas divisões dos de cima não tenham levado a uma resistência ativa das massas. A trégua das burocracias sindicais – ligadas a forças como o PT brasileiro ou o kirchnerismo na Argentina - tem sido essencial também para limitar essa resposta por baixo.

Em linhas gerais, há uma orientação mais ou menos comum destes governos de direita de avançar com medidas neoliberais que implicam um salto no ataque contra as condições de vida dos trabalhadores e setores populares, principalmente reformas trabalhistas e do sistema previdenciário, ainda que não tenham chegado a uma relação de forças favorável para aplicá-las, o que significa que batalhas centrais ainda estão por vir.

Como parte da nossa batalha contra o imperialismo e seus agentes regionais, a partir do PTS e da FT-QI, impulsionamos uma forte campanha anti-imperialista contra o golpe na Venezuela, sem dar nenhum apoio ao governo antipopular e repressivo de Maduro, assim como contra o bloqueio e qualquer tipo de agressão imperialista contra Cuba.

A rebelião dos Coletes Amarelos

A rebelião dos Coletes Amarelos na França é o processo mais importante da luta de classes a nível internacional. Trata-se de um elemento novo que não estava presente no período anterior, e é uma mudança qualitativa que tem lugar em uma das principais potências imperialistas. Este estouro tomou de surpresa os partidos do regime político e teve elementos muito importantes de radicalidade nos métodos. No momento mais alto do processo, passou de reivindicações parciais à exigência diretamente da renúncia de Macron, e nisso conseguiu um importante apoio social.

No entanto, é um movimento contraditório social e politicamente. Embora sua maioria seja de assalariados, não se trata de setores concentrados e organizados do movimento operário, e além disso não utilizaram os métodos da luta de classes, como a greve geral. Nisso cumpriram um papel fundamental as direções burocráticas, evitando a unidade com os trabalhadores sindicalizados. Nesse marco, ainda que minoritárias, em determinados lugares se desenvolveram tendências à coordenação democrática, no interior das quais o ponto mais alto se deu nas assembleias nacionais em Commercy e Saint-Nazaire.

Agora estamos em um momento em que, como movimento de luta, está em retrocesso, e a participação as ações dos sábados baixou, tendo em vista que o movimento já dura muitos meses e foi fortemente reprimido. Ainda assim segue conservando um forte apoio de massas, que se mantém apesar das manobras de Macron com o chamado "grande debate" e as próximas eleições no parlamento europeu.

Enquanto a extrema direita de Marine Le Pen tentou capitalizar o movimento em seu início, JL-Mélenchon e seu movimento “populista” La France Insoumise foi impotente para dar uma orientação alternativa. É neste marco em que se encontra colocada a batalha estratégica para ganhar o melhor da vanguarda deste movimento para a revolução socialista, que os partidos da extrema esquerda lamentavelmente não estão à altura, e têm tido uma política rotineira.

Mas é difícil que Macron acabe com um processo com raízes tão profundas. Trata-se de demandas estruturais de um setor abandonado durante anos, que existe em todos os países centrais, razão pela qual muitos dizem que os coletes amarelos estão por toda parte, produto das consequências da globalização neoliberal. O mais importante é que é uma experiência que pode repetir-se, e inclusive pode vir com maior intensidade, frente a ataques futuros.

Essa mudança na luta de classes dos países centrais, que pode ser o início de um giro importante na situação internacional de conjunto, faz com que a Europa esteja se transformando também em um dos centros de atividade para as organizações que compõem a FT-QI.

O “socialismo millennial” no coração do capitalismo

Os Estados Unidos são o epicentro de um dos fenômenos político-ideológicos mais interessantes: o chamado “socialismo millennial”. No coração do sistema capitalista hoje, uma maioria de jovens, de entre 18 e 29 anos, enxerga mais positivamente o “socialismo” que o capitalismo. Esse fenômeno que foi se gestando inclusive antes da crise de 2008, eclodiu com a candidatura de Bernie Sanders – o candidato “anti establishment” que, com um discurso reformista de esquerda, competiu com Hillary Clinton nas primárias democratas. Hoje se expressa organizativamente no DSA (Democratic Socialists of America), um partido que se reivindica “socialista democrático”, e que nos anos da presidência de Trump, passou de 5 mil a mais de 55 mil membros, em sua maioria jovens. Esse giro à esquerda de amplos setores também se expressou nas eleições de meio mandato, nas quais emergiu como figura política a congressista Alexandria Ocasio-Cortéz.

Suas figuras políticas de referência, como Sanders, e a direção do DSA, pretendem manter este fenômeno progressista dentro dos marcos do Partido Democrata, um dos partidos imperialistas que historicamente cooptou os movimentos que surgiam à sua esquerda para evitar que se radicalizassem em um sentido revolucionário. Assim sucedeu com o movimento dos direitos civis ou com o movimento contra a guerra no Vietnã.

Este giro ideológico da juventude para a esquerda, em particular nos Estados Unidos, mas também em outros países imperialistas como a Grã-Bretanha, é muito importante pois pode antecipar processos políticos e da luta de classes mais radicalizados.

Para isso é fundamental combater as estratégias neorreformistas que não são mais que uma cópia senil da antiga socialdemocracia, como a representada na direção majoritária do DSA, com sua política de apoiar candidaturas por dentro do Partido Democrata, e batalhar por construir uma alternativa com independência de classe e uma corrente marxista revolucionária. Com esse desafio, lançamos o Left Voice nos Estados Unidos.

A emergência e consolidação do movimento de mulheres

O movimento de mulheres segue sendo um ator político importante e até agora é o único que tem um caráter internacional. Onde há luta de classes, há mulheres na primeira fileira, como se vê nos Coletes Amarelos, nas mobilizações no Sudão e na Argélia, nas greves de professores nos EUA, etc. Isso fundamenta a nossa hipótese estratégica sobre o papel de vanguarda que as mulheres poderiam desempenhar no próximo período, na revitalização da classe trabalhadora e na recuperação dos sindicatos, assim como também na construção de partidos revolucionários e, em perspectiva, na refundação da IV Internacional.

Foi significativa a repercussão e a grande participação nas atividades do recente e exitoso giro de Andrea D’Atri na Europa, onde nossa posição feminista, socialista e da classe trabalhadora se provou atrativa para setores de vanguarda do movimento feminista, de outros movimentos sociais e de trabalhadoras independentes, e pode ser uma via privilegiada para a construção de partidos revolucionários. Nos últimos meses foi fundado o Pão e Rosas na Alemanha e na França, somando-se à corrente internacional que já existe em 14 países.

O internacionalismo e as tarefas dos revolucionários da FT-QI

Os grupos que compõem a Fração Trotskista pela IV Internacional intervêm, nos distintos países onde atuam, nos processos de luta de classes e nas batalhas ideológicas e políticas para erguer partidos revolucionários, internacionalistas e da classe trabalhadora. Impulsionamos a Rede Internacional de diários digitais em 11 países e 7 idiomas, que é a única do movimento trotskista que recebe milhões de visualizações mensais, fazendo com que as ideias revolucionárias cheguem a amplos setores da vanguarda trabalhadora, da juventude e do movimento de mulheres. Frente ao fracasso das variantes neorreformistas que se propõem administrar o capitalismo e incentivar o “mal menor”, como Syriza que se transformou em um aplicador dos ajustes e o Podemos, que se prepara para governar com os partidos do regime, levantamos bem alto as bandeiras da independência política da classe trabalhadora, da necessidade de terminar com esse sistema de exploração e opressão e de começar a construção de uma nova sociedade, baseada na propriedade coletiva dos meios de produção e nos órgãos de democracia direta dos trabalhadores e das massas.

Sabemos que, como dizia Marx, a luta é nacional em sua forma, mas internacional no seu conteúdo.

Nas páginas seguintes vamos resgatar as principais batalhas políticas e ideológicas que levam adiante cada um dos nossos grupos que compõem a nossa organização internacional, assim como os esforços e a política ativa da FT-QI para tentar confluir e fundir-se com outras correntes que evoluam para a esquerda, não só com a discussão, as também com uma prática política comum. Como parte desta política, viemos levantando táticas, como a proposta de construir um Movimento por uma Internacional da Revolução Socialista, a Quarta Internacional (MIRSQI).

 
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