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Lunes 26 de Agosto de 2019
07:55 hs.

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FILOSOFIA E SOCIOLOGIA
Filosofia e Sociologia e a estrutura do capitalismo
Diego Nunes

Imaginemos a civilização capitalista como um prédio, com pilares de concreto e ferro e lages. Na cobertura vive a alta burguesia, o chamado mercado financeiro, com seus monopólios e oligopólios, pessoas vivendo com tudo do bom e do melhor daquilo que é produzido nos andares inferiores.

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Lá em cima a burguesia não trabalha, vive de renda, de agiotagem. Comidas caras livres de agrotóxicos e transgênicos, vinhos envelhecidos em barris de carvalho virgem, cultura, arte, diversão e orgias. Neste andar também se encontram os maiores veículos de comunicação do mundo, muito atentos ao estado de ânimo de todos os andares. No andar de baixo, os parlamentos burgueses e o sistema judiciário com seus altos salários e alta ambição de chegar na cobertura. Esse andar é um verdadeiro balcão de negócios do mercado financeiro, ali se compra e se vende emendas constitucionais e projetos de leis para garantir a sustentação da super estrutura desse edifício. Negociando neste andar estão também os partidos sociais democratas, ditos de esquerda, que flertam com o poder burguês achando que um "capitalismo consciente" é possível. Alguns desses partidos como o PT e PCdoB no Brasil controlam as maiores centrais sindicais (a CUT/PT e a CTB/PCdoB) e quase todos os sindicatos de trabalhadores do país. Compondo uma casta burocrática nos sindicatos, em cada processo de luta, em cada greve, tentam provar para a burguesia que podem controlar as massas trabalhadoras, organizam derrotas tentando fazer com que as categorias que representam não percebam, embora muitas vezes não consigam esconder, traindo na cara dura mesmo. Com esse controle negociam seus interesses.

Nos andares inferiores está a classe média com algumas subdivisões e no térreo a imensa maioria das pessoas: a classe trabalhadora. Os pilares deste edifício são imaginários, dependem da fé das pessoas nas ideias dominantes que vem do terraço. Essas ideias são transmitidas por meio dessas estruturas ideológicas aparentemente de um concreto e ferro muito sólidos, mas que não passam de um holograma proibido de se tocar. Esses pilares ideológicos são capazes de sustentar determinado peso, mas a burguesia quer construir mais andares para além da cobertura, querem atingir o espaço. Os veículos de mídia, as novelas, os filmes e séries cumprem um papel de esconder os verdadeiros responsáveis pela estrutura desigual desse edifício. Mas não só as mídias, muitas outras instituições como a família e a escola acabam por proliferar as ideias da classe dominante sem perceber. Essas ideias jogam uns contra os outros no térreo, homens contra mulheres, brancos contra negros, héteros contra lgbts.

O capitalismo é irracional, trata dos recursos naturais e dos mercados consumidores como se fossem infinitos. Assim os pilares começam a rachar e uma crise estrutural assola o edifício. Das fissuras abertas nesses pilares surgem figuras públicas que no seu delírio desesperado por defender os interesses dos moradores da cobertura proferem discursos não mais velados, mas explícitos de racismo, xenofobia, machismo e lgbtfobia, como Donald Trump no hemisfério norte e Bolsonaro, que virou piada na Europa sendo chamado de "Trump dos trópicos". É então que o regime, para continuar sendo funcional para uma classe dominante precisa proibir o livre pensar, e punir cada um que se atreva a questionar a estrutura dessa construção comprometida. À fim de erguer mais um andar lá em cima, a própria classe dominante percebe que precisa esmagar o térreo. Descarregar a crise dessa estrutura em baixo, única maneira de dar uma sobrevida para esse prédio arruinado. Retirar direitos trabalhistas, fazer com que trabalhemos mais, sem descanso e até a morte, enfim, retirar todas as migalhas que concederam em época de crescimento econômico. E se isso ainda assim não for suficiente, criar uma guerra que destrua os meios de produção para que sejam reconstruídos depois, a exemplo da Primeira e Segunda Guerras Mundiais. Porém, esse período é muito delicado para os donos do mundo. Porque são períodos em que os pobres e trabalhadores podem se organizar, e destruir as bases dos pilares ideológicos fazendo com que a burguesia caia lá de cima. Abrem-se períodos revolucionários. Por essa razão eles precisam perseguir quem pensa e promove o livre pensar.

Filosofia e Sociologia nas escolas públicas nunca foi uma escolha da burguesia, sempre foi uma conquista. Após a redemocratização no Brasil na década de 1980, essas disciplinas que haviam sido afastadas durante a ditadura militar não retornaram imediatamente para as escolas. Dez anos após a constituição de 1988 fortaleceu-se a luta pelo retorno dessas disciplinas, e o projeto de lei tramitou durante outros dez anos. Somente em 2008 foi aprovada a obrigatoriedade dessas disciplinas após grande insistência de movimentos estudantis universitários. As escolas teriam até 2011 para se adaptar. É preciso lembrar que em 2008 o Brasil não vivia os sintomas de uma crise econômica internacional que começava naquele ano.

O Brasil teve um período de crescimento econômico que permitiu ao parlamento burguês conceder esse direito entre tantos outros programas sociais que surgiram das migalhas que caiam da mesa dos empresários e banqueiros na era Lula. Porém, logo o cenário muda e a crise chega numa reação em cadeia que já havia arrasado o mundo árabe em 2011. Em torno de 2013 assistimos as jornadas de junho no Brasil, sintoma já dos ajustes promovidos pelo próprio PT, que a direita conseguiu junto com a mídia canalizar para um ódio contra este partido, no combate a corrupção por meio também da operação lava jato. Some-se a isso a intensificação da crise em 2015, o resultado foi o golpe institucional contra Dilma Rousseff em 2016. Porém quem foi verdadeiramente golpeado não foi um partido político, mas o conjunto da classe trabalhadora e pobre com a retirada de tudo o que foi possível conceder naquele período lulista e mais, querem que trabalhemos até morrer, querem entregar a preço de banana nosso petróleo, nossas riquezas, nossas terras indígenas para a mineração e agronegócio. Prometeram gerar mais emprego com a reforma trabalhista, e o desemprego passa da marca de 13,1 milhões de pessoas. A burguesia quer nos vender como a carne mais barata para o mercado internacional imperialista.

Mais do que nunca é preciso pensar, se organizar politicamente à esquerda da esquerda tradicional, conciliadora, reformista, centrista e traidora. Criar frações revolucionárias em cada local de trabalho e estudo à fim de retomar os sindicatos para as mãos dos trabalhadores. Pensar em táticas concretas como o confisco dos bens dos grandes sonegadores, o não pagamento da fraudulenta dívida pública, a administração das fábricas pelos próprios trabalhadores com apoio universitário e controle popular, a abertura dos livros de contabilidade de todas as empresas.

Táticas que levem à vitória da grande estratégia: um mundo de trabalhadores livremente associados! Sem opressão e exploração! Controle operário dos meios de produção! Indústria e tecnologia a serviço do ser humano e não mais do lucro! O fim das classes sociais!

 
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