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Lunes 21 de Octubre de 2019
04:36 hs.

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LIÇÕES DAS FÁBRICAS OCUPADAS NA ARGENTINA
Uma gestão operária em Neuquén: há 16 anos da tentativa de desalojamento de Zanon
Raúl Godoy

Fazem 16 anos de um dia consagrado na luta de Zanon. Vínhamos 2 anos ocupando a fábrica, atravessando todo tipo de provocações, repressões nas ruas com dezenas de detidos pela polícia, ameaças de morte a vários de nossos companheiros e famílias, em uma província governada por Sobisch. Um nível repressivo intenso.

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A 16 anos das tentativas de desalojamento em Zanon, que os operários impediram com a mobilização e determinação em resistir à repressão policial

Fazem 16 anos de um dia consagrado na luta de Zanon. Vínhamos 2 anos ocupando a fábrica, atravessando todo tipo de provocações, repressões nas ruas com dezenas de detidos pela polícia, ameaças de morte a vários de nossos companheiros e famílias, em uma província governada por Sobisch. Um nível repressivo intenso.

Era comum que as mobilizações terminassem em repressão. Inclusive, por esses anos se deu o encarceramento da cúpula da CTA, central sindical encabeçada por Julio Fuentes. Também havíamos resistido, quando cumprimos o primeiro aniversário da ocupação, ao ataque violento feito por bate-paus organizados pela burocracia da CGT no sindicato dos empregados do comércio, e de setores da MPN (Movimento Popular de Neuquén, partido político), que recrutaram jovens nos bairros adjacentes em troca de dinheiro, junto à torcida organizada do Clube Cipoletti, chamados de Barra Brava, sendo transportados em caminhões que desembarcaram frente à fábrica e tentaram invadi-la à força. A resistência durou muitas horas, e ao não conseguir invadir a fábrica, todo o local se transformou, com intensas mobilizações de organizações e trabalhadores de outras fábricas que se solidarizaram, sendo anunciada uma paralisação geral na província de Neuquén por parte das centrais sindicais ATE e CTA.

Ante a impossibilidade de nos derrotarmos com bate-paus, tentaram fazê-lo com o aparato legal do Estado. A juíza Norma Poza resolveu que os proprietários de Zanon “tomassem posse com o uso da força pública” da fábrica. Isso significava a ameaça de um desalojamento violento, depois de um ano e meio de ocupação diante do locaute patronal e da consequente produção sob gestão operária.

Nós, operários de Zanon, decidimos resistir. Para além de uma intensa campanha correndo as escolas, os bairros e o país, também havíamos tomado atitudes internas.

O 8 de abril

Foi uma jornada histórica e completa. Teve emoção, fortaleza e organização. Era uma espécie de “Dia D” para nós, já que havia uma ameaça firme com ordem de desalojamento, e a tomada de posse da fábrica por parte dos proprietários parecia cada vez mais iminente.

Fizemos um grande plano militante em assembleias, em reuniões de consultas e organização com toda a esquerda que apoiava nossa luta, em jornadas inteiras na fábrica com as Mães de Maio, nas reuniões da Coordenadoria do Alto Vale, e em dezenas de amostras de apoio da população.

Um feito destacável, que mostra a profundidade do apoio solidário, foi a das professoras organizadas na Associação dos Trabalhadores da Educação de Neuquén (ATEN), que enviaram nos cadernos de comunicação dos estudantes primários uma nota aos pais não só anunciando a paralisação delas como também denunciando o desalojamento, convocando às famílias para se juntarem na fábrica para ajudar os operários.

O mais contundente que se sucedeu foi a convocatória a uma paralisação geral na província por parte da CTA e das professoras reunidas na ATEN. O mesmo se passou com os professores universitários, que em uma assembleia conjunta com os estudantes, votaram pela paralisação da Universidade Nacional de Comahue. Os movimentos de desempregados de Neuquén também se mobilizaram e foi impressionante.

Foi muito forte essa jornada. Os trabalhadores haviam feito várias assembleias em que discutiram não sair da fábrica, inclusive quando havia repressão, pensavam em enfrentá-la de forma organizada. Esta questão levou a muita discussão interna. Dizíamos que “aqui apenas nos tirariam sobre pés e caneladas” e posso assegurar que na maioria dos companheiros esse sentimento se concretizava. Essa era a força moral que transmitia a cada um deles que vinham a apoiar a luta. Na assembleia se deu a opção aos companheiros para eleger entre estar dentro da fábrica ou fora, junto com o resto das organizações. Todos queriam estar dentro. Até então, eu era secretário geral do Sindicato e discutimos que também estivéssemos dentro da fábrica se a polícia decidisse entrar.

Nesse dia não faltou nenhum operário de Zanon. Tivemos algumas semanas prévias de preparativos bastante intensos, onde nos organizamos para resistir a qualquer tentativa de repressão. Não ia ser fácil nos desalojar e isso deixamos bem claro, que os que viessem desalojar os operários de Zanon não conseguiriam passar.
Foi aí que a Junta Interna do Hospital Castro Rendón emitiu um comunicado em que se dizia que os trabalhadores do hospital NÃO iriam atender aos policiais feridos em caso de terem reprimido os operários: também deram sua mensagem à repressão.

Eu acredito que essa firmeza tomou o conjunto da comunidade, passando a apoiar o movimento ativamente. O governo avaliou o alto custo político que teria em caso de uma repressão, e teve que retroceder. Publicamente defendemos nosso direito aos postos de trabalho, a pôr a fábrica a serviço da comunidade, e também ao legítimo direito a autodefesa em caso de repressão.

Esse dia se tornou um marco na história do movimento operário, porque nunca uma pequena fábrica como a nossa teve semelhante concentração de apoio, e esse gesto histórico ficou marcado de forma calorosa em todos nós. Quando a classe trabalhadora tem um programa e uma política clara, assume as demandas de outros setores explorados e oprimidos, quando atua como direção do resto do povo trabalhador, pode sim mostrar toda sua potencialidade política de classe.

A questão do desalojamento da fábrica e como enfrentá-la foi uma batalha fundamental. Levou-nos a muitas discussões, reflexões e polêmicas, que assumimos frontal e fraternalmente, sujeitos à crítica permanentemente, tanto internamente quanto em relação às distintas correntes políticas, inimigas, adversárias e de aliados. De todas aprendemos algo.

Partimos sempre da base que nenhum acontecimento pode cair do céu. Pessimismo na razão, otimismo na vontade. Ou como dizíamos sempre nas assembleias: nos preparamos com a maior vontade e militância para o pior das hipóteses.

Conseguimos construir finalmente um arranjo democrático bem amplo, que chegou a incluir até aos representantes da Igreja, todos “contra a repressão aos operários de Zanon”. Junto a isto organizamos a autodefesa dentro da fábrica, com a colaboração das organizações operárias combativas e em uma frente única de trabalhadores com a CTA, que decretou a paralisação na província inteira. Tudo isso sob a “disciplina ceramista”, como havia se popularizado naqueles dias.

Esse foi a última tentativa de desalojamento sério que tivemos em nossa fábrica. O 8 de abril se converteu em um elemento fundamental na nossa luta.

 
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