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Lunes 20 de Mayo de 2019
02:34 hs.

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ZANON - FÁBRICA SEM PATRÕES
O fio vermelho de Zanon
Redação

"Para seguir nos expropriando todos os dias, os capitalistas nessecitam expropriar nossa história. A história mais terrível para eles, é aquela que mostra que podemos vencer" (Eles se atreveram: A Revolução Russa de 1917 [Documentário])

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Uma vitória contraditória

Zanon, fábrica militante sem patrões é um livro escrito por Raúl Godoy, operário de Zanon, principal referência da fábrica e dirigente trotskista do Partido dos Trabalhadores Socialistas (PTS). É um relato em primeira pessoa de uma das experiências mais profundas do movimento operário argentino dos últimos anos. Ao ser inaugurada em plena ditadura militar, com uma fama de estrito controle sobre os trabalhadores, a fábrica terminou sendo gerida por eles mesmos, depois de inúmeras batalhas ao longo dos anos contra as tentativas de demissões, esvaziamentos e desalojamentos pela patronal.

Publicaram-se livros e documentários dando centralidade à gestão operária da fábrica, porém, o enriquecedor do relato de Godoy são as discussões com os próprios trabalhadores no caminho à recuperação da Comissão Interna (CI) e do Sindicato de Operários e Empregados Ceramistas de Neuquén (SOECN), assim como seu enfrentamento contra o Estado e à empresa. Dessa forma, explica como se chegou à ocupação da fábrica e em como a produção sob a gestão operária se deu quando corria o ano de 2001. Avançando no livro, se discute, desde o ponto de vista operário, que se bem a ocupação pode ser lida como uma conquista, mostrando a superioridade da planificação da produção sem patrões, se não se impõe em toda a economia do país este modelo, as gestões operárias ficam cada vez mais limitadas a sua auto-exploração.

O processo de Zanon ocorreu em meio a uma das épocas menos revolucionárias e mais reacionárias do capitalismo. Foram décadas onde a intelectualidade burguesa falava de “fim da História”, do triunfo total do capitalismo, agora globalizado e sem contradições. Enquanto isso, alas progressistas e alguns setores autointitulados de “esquerda” se somavam aos novos ventos da época, negando a centralidade ou a própria existência da classe operária – e inclusive das classes sociais – limitando-se a lutar pelas migalhas dentro do sistema.

Nas palavras de Lênin, foram 30 anos de “revisionismo pacifista”. Na Argentina, a “longa década” dos anos 90 (1989-2001) esteve marcada por dois governos neoliberais que vieram a completar o programa de flexibilização trabalhista, das demissões e das privatizações que havia começado na ditadura militar. Em Neuquén e em todo o país, vivia-se uma situação de crise aguda pelas demissões, pela piora das condições de vida e pelo aumento da pobreza. Se bem que houve importantíssimas e duras lutas com cortes de vias, enfrentamentos com a polícia, e rebeliões como a de Santiagueñazo em 1993 e a de Cutralcazo em 1996, entretanto, no conjunto se concluiu com a imposição dos planos da burguesia sobre toda a classe trabalhadora, produzindo uma crise social imensa em dezembro de 2001.

Como se chegou até aqui?

No interior de fábricas como Zanon, havia um regime de ditadura que a patronal impunha, impedindo a organização interna, perseguindo e castigando aqueles que queriam desafiá-la. Para isso, contavam com a cumplicidade da burocracia da SOECN. Por isso, foi um passo chave a recuperação da CI pela chapa Marrón Clasista, constituída pelos setores do ativismo e militantes do PTS. Começar a funcionar mediante assembleias democráticas como máxima instância de decisão, impulsionar o debate político franco e aberto pela organização e pelas medidas de luta a se tomar, tudo isso foi um treinamento fundamental que fortaleceu os operários de Zanon e que contribuiu para quebrar aos poucos sensos comuns fortemente arraigados, como por exemplo, que os delegados só lutam pelos direitos dos trabalhadores de sua própria fábrica, que eles podem tomar decisões sem consultar à base ou que não se pode falar de política no local de trabalho.

No entanto, isso foi apenas o início, o primeiro passo de um longo processo de luta que revolucionou a vida na fábrica e no sindicato. Apenas dois anos mais tarde, a chapa Marrón conquistou por uma ampla maioria a direção da SOECN, que desde então teve uma política classista e independente dos distintos governos. Essa política ficou marcada nas discussões para reformar os estatutos do sindicato, o que impulsionou alguns anos depois a tomada de decisão em colocar sob gestão operária a produção de Zanon, com o propósito de transformá-lo pela raiz: ali se reconheceu a divisão da sociedade em classes sociais e dos interesses irreconciliáveis entre burgueses e proletários, que a classe trabalhadora é um apenas uma e sem fronteiras e totalmente independente do Estado (muito importante esse elemento em um país em que o governo de Perón estatizou os sindicatos). Também se estabeleceu que os dirigentes sindicais recebessem o mesmo salário de um operário no local de trabalho, que ao terminar seu mandato devem voltar a trabalhar, decidindo-se tudo em assembleias. Estes são apenas alguns elementos que definem o que Raúl Godoy chama de um “verdadeiro antídoto contra a burocratização dos sindicatos”.

Lênin afirmava que os militantes revolucionários teriam que ser “tribunos do povo”, isto é, que pudessem conduzir seus companheiros tanto na luta pelas reivindicações sindicais quanto contra todo tipo de opressão. Esse foi o sentido de militar ativamente para levar a discussão política para dentro da fábrica; para organizar os operários em instâncias democráticas e resolutivas como as assembleias; por conquistar “posições” como a direção da CI e do SOECN, e, por sua vez, por converter essas posições em órgãos mais amplos que incluíam a diferentes setores de trabalhadores que não eram ceramistas, como os operários de outros sindicatos, de trabalhadores demitidos, sobretudo do Movimento dos Trabalhadores Despedidos de Neuquén (MTD), que eram um dos setores mais combativos daquele momento, aos organismos de Direitos Humanos, ao movimento estudantil e aos povos originários. Esse foi o sentido da criação da Coordenadoria Regional do Alto Vale.

A tomada

De volta ao ano de 2001, frente ao locaute patronal e na defesa dos postos de trabalho, os trabalhadores tomaram o controle dos portões da entrada da fábrica e cinco meses depois iniciaram a produção sob gestão operária. Desde então, o objetivo de transformar o que poderia ter sido um conflito sindical numa causa social esteve presente, e se fez carne e osso nas práticas concretas da militância. No ano de 2003, quando a justiça ordenou o desalojamento da fábrica, as ações da Frente Única Operária se concretizaram: os professores da região avisaram através de notas que não dariam aulas porque defenderiam os trabalhadores da fábrica; os trabalhadores do Hospital Castro Rendón informaram que se chegassem policiais feridos por terem reprimido os operários de Zanon, não iriam atendê-los; além do apoio dos organismos de Direitos Humanos e de estudantes, que se fizeram presentes no dia, no marco da paralisação da província que foi convocada pela Central dos Trabalhadores Argentinos (CTA), mobilizando cerca de 6.000 pessoas.

Esse relato que Godoy construiu desde o início de sua militância na fábrica, permite compreender a profundidade desta experiência, essa sensação que Zanon fez sentir a qualquer um que cruzasse os portões da entrada da fábrica e pisasse em seu chão. A certeza de que ali havia algo a mais que uma fábrica gerida por seus trabalhadores e trabalhadoras: uma história de militância revolucionária e uma estratégia para a classe trabalhadora em seu conjunto.

Que lições nos deixam Zanon?

Ainda que esteja centrado no desenvolvimento de um caso específico, o texto reflete pinceladas de uma época particular de nosso país, nesse sentido, podemos dizer que se encontra nos vai e vem das lutas de classes dos últimos vinte anos. Isto se explica não apenas porque no relato Godoy põe em relação permanente as ações e debates que tiveram lugar na fábrica com o contexto mais amplo no qual se desenvolviam os acontecimentos, mas também pelo próprio conteúdo do programa que orientou a ação.

A unidade das fileiras operárias e a possibilidade de conquistar aliados entre os setores mais explorados e oprimidos – que ocupa um lugar central no programa e na estratégia da corrente política da qual Godoy é referente – se fez presente na prática concreta dos operários de Zanon, aqueles que lograram articular e confluir com distintos setores do povo trabalhador. Nesse movimento, conseguiram participar e influenciar nas organizações e movimentos sociais reais, isto é, ter uma política hegemônica aos demais setores do conjunto dos explorados. Sobre esta base teórica e programática, Zanon foi parte de diferentes processos de luta que tiveram lugar por aqueles anos, selando relações, influenciando e transformando diferentes âmbitos da militância daquele momento. Nesse sentido, se conectou, por um lado, com a organização dos movimentos de desempregados, particularmente com o MTD de Neuquén, com quem participaram da Coordenadoria Regional do Alto Vale. Por outro lado, com o processo de recuperação de fábricas, onde se destacou a articulação com a indústria têxtil Brukman, juntas sobre o lema “se tocam a uma, tocam a todas”, como também com o fenômeno das assembleias de bairro, das quais os trabalhadores participaram no marco das diferentes instâncias de coordenação. Finalmente, articulou-se com o processo de recuperação do protagonismo das organizações sindicais, da qual Zanon foi precursor. A conquista da direção da CI e depois da SOECN, se desenvolveu ao longo dos anos anteriores à recuperação de outras seções e organismos em diferentes sindicatos, antes que na Argentina começasse a se debater sobre os processos de “revitalização sindical” e do “sindicalismo de base”.

É interessante prestar atenção ao modo em que Godoy vai narrando, no próprio relato, a caracterização da situação nacional e do desenvolvimento de um partido que também transitava num processo de transformação, que acabava de romper com o MAS e com o morenismo. O PTS era nesse momento um pequeno grupo que buscava manter o legado do marxismo revolucionário, num momento onde a maior parte da esquerda girava para identificar nos desempregados, popularmente chamados de “sujeitos piqueteiros”, os novos sujeitos revolucionários. Tratava-se de dialogar com os movimentos existentes para intervir no marco de uma realidade que atravessava mudanças profundas, sem abandonar a centralidade da classe trabalhadora, a força social capaz de hegemonizar o conjunto dos oprimidos. A aliança com diferentes setores da classe trabalhadora contribuiu para potencializar as lutas, resistir aos ataques (como as tentativas de desalojamento das plantas industriais), assim como para elevar a moral revolucionária da classe operária.

Para concluir, o relato em primeira pessoa de um dos seus principais dirigentes nos permite ingressar e conhecer “desde dentro” as ações e posições dos operários, introduzirmos no plano de fundo de uma experiência pensada, planejada e construída coletivamente, que desde o início se propôs a romper com o corporativismo e ultrapassar os muros que os dividem dentro e fora da fábrica, os mesmos muros que separam a fábrica do bairro, da indústria e dos serviços, assim como aos trabalhadores empregados e àqueles desempregados. Dessa forma, a ideia do sindicalismo militante ao qual apela Godoy para definir sua experiência na SOECN, assume valores concretos no desenvolvimento do processo de conjunto, ao passo que ressalta seus limites e termina na militância política. O objetivo de transcender as demandas sindicais e propor a unidade e a confluência com os setores populares e dos trabalhadores em luta, contribui para quebrar a divisão entre o econômico e o político, que caracteriza e define o capitalismo. Esta política hegemônica foi o que permitiu Zanon a não ser apenas uma fábrica recuperada, mas sim em converter-se numa referência tanto nacional quanto internacional. Estudar a história dos operários de Zanon é necessário não apenas para “aplicar” suas conclusões nas batalhas atuais e nas que estão por vir, mas também, e, sobretudo, para nos convencermos a convencer os outros de que podemos vencer.

 
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