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Martes 20 de Agosto de 2019
14:42 hs.

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RAÚL GODOY
Conheça Raúl Godoy e a experiência da gestão operária de uma fábrica sem patrões
Redação

A entrevista com Raúl Godoy que traduzimos aqui foi feita em 2011, no aniversário de 10 anos da luta ceramista na fábrica Zanon. Ao jornal La Verdad Obrera (LVO), Raúl Godoy apresenta uma síntese da experiência do processo de gestão operária da fábrica Zanon, renomeada pelos operários de “FaSinPat” – Fábrica Sem Patrão.

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Nos dias 27 e 28 de abril, o MRT do Rio de Janeiro está organizando um encontro com o deputado operário do Partido dos Trabalhadores pelo Socialismo (PTS) da Argentina, que foi eleito por ser referência de Zanon, Fábrica Sem Patrões, ocupada e colocada para produzir sob gestão operária desde 2001. Queremos destes exemplos da esquerda argentina tirar conclusões de como enfrentar a crise econômica, política e social no Brasil, que no Rio já mostrou que em tempos de crise só nos oferece desemprego, vida cara e precária, violência policial, enchentes e brutalidades como o assassinato da Marielle. Contaremos também com a presença de Marcello Pablito, trabalhador do bandejão da USP, do MRT e do Sindicato dos Trabalhadores da USP, e outros operários e jovens do MRT, para debatermos como enfrentar Bolsonaro, Witzel e Crivella, que descarregam a crise nas nossas costas com desemprego, fuzilamentos e enchentes. Contato: https://www.facebook.com/CarolinaCacauED/

La Verdad Obrera: No dia 1º de outubro completam-se 10 anos da ocupação de Zanon em meio à crise que a Argentina vivia. Qual o significado disso hoje?

Raúl Godoy: A luta de Zanon foi uma resposta classista frente à crise capitalista na Argentina, que levou, naqueles anos, ao fechamento de quase 2 mil fábricas.
A primeira resposta foi dada pelas organizações dos trabalhadores desempregados, mas depois vieram as primeiras ocupações contra os fechamentos das fábricas e as demissões de trabalhadores, que não só questionavam a propriedade privada, e sim demonstravam que os capitalistas não eram necessários. “Sem patrões podemos produzir”, repetíamos em diferentes partes do país.

Nossa experiência mostra, em pequena escala, que os trabalhadores são capazes de dar uma saída operária e popular frente ao fechamento de empresas, frente ao desemprego. Que a crise seja paga pelos capitalistas.

Nestas semanas, não só nos lembraremos daqueles dias em que decidimos ocupar a fábrica, mas queremos que nossa luta sirva a muitos trabalhadores para prepararem o futuro.

LVO: Quais foram os principais pontos desse processo?

A primeira coisa que fizemos foi recuperar a comissão interna contra a burocracia de Montes, que era vendida à empresa. Estabelecemos objetivos básicos: que tudo se resolveria por assembleia, que os delegados seriam revogáveis, e que defenderíamos os trabalhadores efetivos e os contratados com igualdade. A unidade das de todos os trabalhadores foi uma de nossas primeiras bandeiras de luta. Assim fomos trabalhando, ombro a ombro, com um grupo de companheiros, desde os primeiros conflitos até a luta contra esvaziamento da fábrica organizado pela família Zanon, que terminou no fechamento da fábrica.

Tivemos uma greve muito importante, que é um marco de nossa luta, no ano 2000, quando morreu nosso companheiro Daniel Ferrás devido às más condições de saúde, higiene e segurança de atendimento na fábrica. Outro marco foi a recuperação do Sindicato, em uma histórica assembleia em Cutral - Co, onde impedimos que a burocracia de Montes impusesse uma junta eleitoral fraudulenta. Lá ganhamos o sindicato, depois, a votação foi um processo, porque a maioria dos trabalhadores nos apoiava. Outro marco muito importante foi a greve de 34 dias em 2001. Naquele momento, colocamos aos nossos companheiros que, se queríamos manter nossos postos de trabalho, teríamos que lutar. “Que abram os livros de contabilidade, que mostrem os milhões que ganharam em todos os anos anteriores”, foi essa a reivindicação e fizemos uma grande greve.

Depois veio a ocupação, 5 meses de acampamento, em que colocamos em prática uma militância operária enorme e, mais tarde, a colocamos em funcionamento. Com o objetivo de uma administração de trabalhadores, organizamos a produção criando distintos setores e comissões de comercialização; compras; vendas; saúde; segurança; imprensa e divulgação; coordenadores de setor; e um organismo de direção que, além da gestão econômica, discutia política, para onde o conflito caminhava, um verdadeiro Conselho Operário: a “reunião de coordenadores”. Foi uma experiência nova para nós e para milhares de trabalhadores que nos seguiam, uma escola de planejamento que demonstrava a capacidade da classe operária para dirigir as fábricas.

E a gestão operária de Zanon, diferentemente de outras experiências, soube rodear-se desde o princípio de um enorme apoio, não só de outros trabalhadores, como também da comunidade, dos nossos irmãos mapuches, do conjunto de organismos de Defensores de Direitos Humanos, de artistas, e mesmo os internos da Unidade 11, presídio localizado próximo à Zanon, que fizeram chegar a sua solidariedade doando suas refeições durante várias jornadas de luta.

Nos unimos com milhares de desempregados que lutavam por um justo trabalho e estudantes que defendiam a educação pública. Isto fez com que se popularizasse o grito “Zanon é do povo, apoie os operários”, levantado por milhares de trabalhadores que viam Zanon como um exemplo de resposta à crise.

Incorporamos desde o início as demandas de diferentes setores. Levantávamos naquele momento mais outra bandeira: “por um plano de obras públicas, que gere trabalho, moradias, escolas e hospitais”; todas estas demandas eram muito sentidas por uma população que sofre uma crise habitacional e de infraestrutura que, nos duros invernos de Neuquén, resulta que as as casas humildes peguem fogo, contrastando com os milhões lucrados pelas petroleiras privilegiadas pelo estado.
Com os estudantes e professores, levantamos juntos a bandeira da “educação pública, laica e gratuita”, que levou posteriormente a firmar-se em um pacto operário-universitário entre nosso Sindicato Ceramista e a Universidade do Comahue.

Nosso trabalho em comum com outras organizações operárias, para enfrentar a reintegração de posse, a burocracia sindical e o governo, levou-nos a impulsionar uma organização comum, a Coordenadora Regional do Alto Valle. Ali confluíram trabalhadores de fábrica, funcionários públicos, da saúde, professores, organizações de desempregados, estudantes e partidos de esquerda. Foi uma organização muito importante em Neuquén, que permitiu-nos coordenar nossas ações de luta, organizar a solidariedade com grandes ações – como a do 8 de abril de 2003 na qual a ATEN [Associação de trabalhadores da educação de Neuquén] parou em apoio aos trabalhadores de Zanon – e ter um órgão de debate e discussão entre os trabalhadores antiburocráticos.

Essa experiência, ainda que não tenha se estendido no tempo, foi muito profunda, uma mostra do tipo de organismos de autodeterminação dos trabalhadores que temos que por de pé em momentos de crise como a que vivíamos naqueles anos, e que se voltam a viver em outros lugares do mundo. [1]

Todo este trabalho que fizemos para nos unir com setores de trabalhadores e populares e ganhar o apoio da comunidade, com qual contamos durante todos estes anos, mostra em pequena escala a potencialidade que a classe trabalhadora tem para encabeçar uma aliança de todos os setores que sofrem a exploração e a opressão nesta sociedade, aliança esta que pode enfrentar e vencer os capitalistas. Isso permitiu liquidar qualquer tentativa de reintegração de posse e enfrentar agora a tentativa de nos quebrar economicamente, como vem tentando fazer o governo do MPN com a colaboração do governo nacional, ambos inimigos da gestão operária. [2]

LVO: Ao lado da gestão operária, o Sindicato Ceramista cumpriu um papel fundamental…

Totalmente. No ano 2000, como muitos sabem, conseguimos tirar do sindicado a burocracia dos Montes. A Agrupação Marrom do SOECN (Sindicato de ceramistas de Neuquén) organizou-se a partir de um programa classista, e foi sendo colocada à prova em cada um dos acontecimentos que estou te contando e também diante do que passava na província. E não só em Neuquén. De cara começamos a intervir em cada lugar aonde havia uma luta: Mosconi em Salta, Brukman, petroleiros, assembleias populares, metrô etc. Organizamos os encontros de fábricas, participamos das assembleias de desempregados, impulsionávamos um jornal chamado Nossa Luta, tudo o que nos permitisse construir a unidade com estes setores que lutavam contra a burocracia sindical e a patronal, setores que eram nossos irmãos. Então propúnhamos e impulsionávamos diferentes formas de coordenação das lutas.

E dentro da categoria dos ceramistas também colocávamos o objetivo de revolucionar o sindicato. Muitos companheiros combativos recuperam suas organizações mas não lutam para se livrar da herança burocrática dentro delas. Muitos passam por um sindicato e depois o perdem, e tudo segue igual.

Por isso, depois de muita discussão, debates e participação, aprovamos os novos estatutos do sindicato: que a assembleia dos trabalhadores é soberana e os dirigentes sindicais são revogáveis e seus cargos são rotativos; que as minorias políticas tem direito a representação; que o sindicato se reivindica classista e por isso é independente do Estado, da patronal e dos partidos da patronal, e que se coloca a serviço da luta de classes para além das fronteiras nacionais. Isso é parte do programa revolucionário: a luta contra a estatização dos sindicatos em defesa da democracia operária. E não nos conformamos: na realidade isto não se alcança apenas com lutas – às vezes mesmo de forma heroica e sacrificada – em defesa de demandas puramente sindicais. Nós traçamos um horizonte mais de fundo, a perspectiva política de abolir a exploração do homem pelo homem.

O último passo, importantíssimo, que demos com os companheiros da Agrupação Marrom, foi a conquista de uma bancada de trabalhadores e socialista, na Legislatura de Neuquén. Tem o sabor de ser uma trincheira montada em território inimigo, porém com “a bandeira hasteada”, mantendo sempre a coerência de todos estes anos e fazendo as mesmas exigências. Desde 2003 um grupo de dirigentes vinha colocando a necessidade de dar o salto do sindical ao político, e impulsionávamos a conformação de uma ferramenta política dos trabalhadores. Nestas eleições, a constituição da Frente de Esquerda e dos Trabalhadores (FIT [3]) à nível nacional, entre o Partido dos Trabalhadores Socialistas, o Partido Obrero e a Izquierda Socialista, despertou entusiasmo em muitos trabalhadores. Foi por isso que plenárias abertas da Agrupação Marrom dos Ceramistas juntando as quatro fábricas, aonde integramos junto com companheiros independentes, e juntos resolvemos ser parte integrante da Frente em Neuquén, e votou-se em mim e em Alejandro López para encabeçar a lista de deputados. Às diferentes listas da Frente em Neuquén, foram-se somando vários companheiros. Enfrentamos também a proscrição eleitoral do governo kirchnerista contra a esquerda e os trabalhadores combativos e agora continuamos com a bandeira contra a perseguição judicial de todos os lutadores exercida por este governo. [4]

Notas dos tradutores:

[1] Em 2011, momento da entrevista, ainda não se fazia sentir os efeitos da crise internacional que estourou com a bolha imobiliária dos EUA em 2008 como se faz nos dias de hoje; efeitos que são sentidos e visíveis por todos e que no caso da Argentina em especial se aprofundou com a submissão de Macri ao FMI.

[2] MPN – “Movimento Popular Neuquino”, partido Neoperonista que governa a província desde a redemocratização.

[3] Quem é a Frente de Esquerda que se fortalece na Argentina?

[4] Durante o governo Kirchner, cerca de 4 mil lutadores foram processados por exercerem o legítimo direito democrático de manifestação: http://www.pts.org.ar/Por-el-desprocesamiento-de-todos-los-luchadores

Traduzido por Ana Dyonisio e Jean Barroso

 
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