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Miércoles 24 de Julio de 2019
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ARGÉLIA
Macron e Bouteflika buscam uma saída para a crise argelina
La Izquierda Diario

Frente à mobilização popular massiva que atravessa o país desde 24 de fevereiro, Abdelaziz Bouteflika decidiu não se manter como candidato para um quinto mandato presidencial. Essa decisão, que adia as eleições e prolonga seu atual mandato, foi saudada com satisfação por Emmanuel Macron. A crise argelina coloca um grave problema para o imperialismo francês na região.

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A crise dos coletes amarelos não é a única grave crise que cruza os pensamentos dos funcionários do governo de Macron. Frente ao movimento argelino que ocupa as ruas há várias semanas e que marca um despertar das massas argelinas depois de 20 anos de presidência de Bouteflika, Macron se apressou a saudar e defender a decisão do atual presidente de adiar as próximas eleições no país. Na lógica de querer dividir e cooptar um setor do movimento, o presidente também anunciou um conjunto de manobras democratizantes (Conferência Nacional para um Projeto de Constituição, Comissão Eleitoral Independente, Governo de Competências Nacionais) que buscam minimizar o setor das massas que rechaça não somente a Bouteflika mas o regime político da FLN [Frente de Libertação Nacional] em geral.

Durante seu "tour" pela África Oriental, Macron parabenizou com satisfação, no dia 12 em Djibouti, a decisão de Bouteflika de não se apresentar a um quinto mandato: "Saúdo com satisfação a decisão do Presidente Bouteflika, que abre nova página na história argelina". Uma "nova página" que significa sobretudo uma tentativa de voltar à ordem sob o pretexto de um suposto giro democrático, obviamente a mando da burguesia nacional e do imperialismo francês. Consciente dos interesses que a França tem no país, que é parte de seus principais provedores de gás e petróleo, mas que também representa uma base de estabilização de uma região sob domínio colonial francês, chamou a uma "transição em um tempo razoável", saudando "a juventude argelina, que pode expressar suas esperanças, sua vontade de mudança, assim como o profissionalismo das forças de segurança".

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Como indicaram vários diários franceses como o Liberation e o Le Point, a questão argelina é uma das principais preocupações do governo francês. Antes mesmo de sua apresentação como candidato, o palácio do Elysée havia aprovado a quinta candidatura de Bouteflika. Um movimento social como o que se desenvolve atualmente poderia chegar a questionar os interesses imperialistas franceses na região. As questões democráticas estão longe de ser uma preocupação para o Estado francês. A prioridade é sempre que não afetem as 500 empresas francesas localizadas na Argélia, os bilhões – 6,4 em 2014 – de exportações ao país, e os 2 bilhões de euros investidos diretamente em empresas locais e em importação de energia. E que isso não conduza a outras aspirações revolucionárias em um momento em que o Estado francês está diretamente desestabilizado pelos coletes amarelos.

Frente à posição delicada do imperialismo francês e da necessidade de não aparecer abertamente como um pilar do regime burocrático e moribundo de Bouteflika, a presença dos coletes amarelos prejudica a margem de manobra do governo. O governo nacional argelino, apesar de suas manobras democratizantes, parece não ser capaz de apaziguar o movimento no momento. Com um setor de mulheres e da juventude estudantil na vanguarda, as últimas mobilizações estudantis denunciavam que "queríamos eleições sem Bouteflika, terminamos com Bouteflika e sem eleições", e denunciavam também o conjunto do regime. Apesar do tom tranquilizante de Macron, a queda do regime argelino está longe de satisfazer as aspirações dos trabalhadores e jovens, que seguem nas ruas de forma massiva.

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A burocracia sindical, principal escudo do governo

Se o regime de Bouteflika tem sido capaz de resistir durante 20 anos aplicando uma política neoliberal e de ajuste ditada pelas instituições internacionais (FMI e Banco Mundial) e respondendo aos interesses das classes dominantes argelinas é porque sua chegada ao poder se deu em uma conjuntura muito favorável. Ela estava marcada por uma dupla derrota militar e política dos islamistas depois de 7 anos de guerra civil contra a Frente Islâmica de Salvação, que permitiu à FLN se estabelecer como "garantidora da ordem e da estabilidade" entre as potências imperialistas e as distintas frações da burguesia por trás do terror que sacudiu o país durante os anos noventa e a "década negra". A esse consenso em torno do "homem providencial", se somaram os benefícios sem precedentes do petróleo, que lhe permitiram conter o descontentamento popular redistribuindo as migalhas desta renda e levando a cabo alguns projetos de desenvolvimento de infraestruturas, gozando em particular do apoio dos imperialismos francês e americano. Mas para garantir essa estabilidade, era absolutamente necessário limitar mais e mais os direitos democráticos, por um lado, mediante a aniquilação cada vez maior da oposição política e, por outro, mediante a repressão sistemática de todas as seções sindicais combativas que não respondiam diretamente às ordens da direção da União Geral de Trabalhadores Argelinos (UGTA), principal sindicato aliado ao governo e que chamou voto em Bouteflika.

O porta-voz da central sindical é seu Secretário Geral, Sidi Said, que chamou diretamente a dedicar um dos congressos do sindicato à honra do fakhamatouhou ("sua majestade") Bouteflika. A linha de colaboração é cada vez mais aberta com o regime, apesar da pressão de certos setores da base. Hoje em dia, essa burocracia sindical representa um aliado importante do governo para impedir que o movimento operário organizado entre como ator na situação política nacional, cumprindo, desta maneira, com um papel de cúmplice do imperialismo.

As medidas que apresentou Bouteflika mostram que o regime tenta sobreviver perante a onda de mobilizações. Porém, as mobilizações seguem com a juventude à frente para questionar o regime de conjunto.

 
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