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Domingo 25 de Agosto de 2019
13:39 hs.

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USP | QUEM MATOU MARIELLE FRANCO?
Mesa em memória de Marielle reúne dezenas de estudantes na Letras USP
Juventude Faísca USP

Mesa em memória e por justiça por Marielle é realizada no curso de Letras da Universidade de São Paulo nesta quinta-feira, dia que se completou 1 ano do assassinato de Marielle. Professores, estudantes e funcionários discutiram o caráter deste crime político e por quais caminhos devemos seguir.

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Na quinta-feira, 14, completou-se um ano do assassinato de Marielle Franco. Apesar da prisão dos dois ex-policiais suspeitos pelo assassinato de Marielle e Anderson, que segundo informações da mídia possuem ligação com a família Bolsonaro, sabemos que, diferentemente do que tentam apontar como um crime de ódio, foi sim um crime político e que segue sem resposta clara.

A juventude Faísca e o grupo de mulheres Pão e Rosas, junto a professores, funcionários e estudantes da faculdade de Letras organizaram uma mesa com o nome “Assassinatos de Marielle e Anderson – um ano sem solução” para que este 14 de março não passasse em branco, exigindo justiça e demonstrando que não nos calaremos enquanto não obtivermos respostas reais de quem mandou matar Marielle Franco.

A mesa contou com a participação da professora Dra. Vanessa Martins do Monte, professora Dra. Elizabeth Harkot de La Taille e com a trabalhadora da faculdade Patrícia Galvão, diretora do SINTUSP (Sindicato dos trabalhadores da USP).

O debate levantado pela professora Vanessa Martins do Monte foi interessante ao tratar do assassinato não só de Marielle Franco, ocorrido há 1 ano, mas também o da dirigente revolucionária Rosa Luxemburgo, ocorrido há 100 anos – remarcando como ambos os assassinatos foram responsabilidade do Estado, sendo assassinatos políticos, com a intenção de silenciar pensamentos críticos e de mulheres da esquerda. E que no caso de Marielle segue sem resposta.

A Professora Elizabeth Harkot de La Taille trouxe a reflexão sobre o que representa o brutal assassinato contra Marielle Franco. Como ela pontuou, para além de olhar para a questão dela ser uma mulher negra, também é preciso olhar qual era o papel político que Marielle cumpria. Enquanto parlamentar de esquerda, a vereadora tinha um projeto de Brasil muito diferente do que pretende a extrema direita, denunciava a intervenção militar no Rio de Janeiro e o papel das milícias. Ao tratar o assassinato dela como um crime puramente de ódio, se perde a dimensão de que o caso foi um crime político, para silenciar a voz de uma militante de esquerda que incomodava a “ordem” vigente.

Patrícia Galvão, da Secretaria de Mulheres do SINTUSP, abordou justamente a falta de respostas sobre assassinato de Marielle Franco após um ano. Para conseguirmos exigir justiça por Marielle não podemos confiar no judiciário que há tempos vem demonstrando quais seus interesses e a quem protege. Antes mesmo do assassinato de Marielle, vimos o judiciário apoiar e promover o golpe institucional em 2016 e, no ano passado, prender arbitrariamente Lula, o candidato que tinha maior intenção de votos – escancarando o caráter manipulado das eleições de 2018 que culminaram na eleição de Bolsonaro.

Justamente por tudo isso se dá a importância de que, através de mobilizações massivas, exijamos do Estado todas as condições necessárias para que haja uma investigação independente, na qual as instituições garantam os recursos, disponibilidade de materiais e informações, e acesso aos arquivos para organismos de direitos humanos, peritos especialistas comprometidos com a causa, parlamentares do PSOL, representantes dos sindicatos, de movimentos de favelas etc, para que sejam parte dessa investigação.

Para que seja possível impormos isso, é fundamental que as grandes centrais sindicais, a CUT e a CTB, dirigidas respectivamente pelo PT e pelo PCdoB, organizem assembleias e espaços em que os trabalhadores de todo o país possam discutir as perspectivas e caminhos a seguir para derrotar o pacote de ataques que está por vir e construir um forte plano de lutas, exigindo justiça por Marielle e que nenhum direito nos seja arrancado.

O ponto forte e que esteve em consonância entre as três falas foi como diante de tudo isso e do contexto em que se insere o assassinato de Marielle, está colocada a necessidade de nos organizarmos não só contra este crime, mas contra todos os ataques que vieram ao longo do fortalecimento dessa extrema direita e que estão por vir com esse governo reacionário de Bolsonaro, como a Reforma da Previdência.

No debate em que todos os estudantes e presentes na mesa poderiam intervir, ficou forte o significado que esse assassinato tem para a população negra, para as mulheres, para os LGBTs. Sabemos que estes setores são os primeiros alvos da extrema direita, na figura de Bolsonaro, e que serão os primeiros a sentir na pele, junto com a classe trabalhadora, as reformas trabalhista e da previdência, além de toda a perseguição ideológica e conservadora contra a “ideologia de gênero”, sexualidade, etc.

Nesse sentido, se torna claro o caráter político do assassinato que aconteceu um ano atrás. A execução de Marielle é uma ferida aberta do golpe institucional: assassinaram da maneira mais bárbara uma militante de esquerda no país, uma mulher negra – tentaram enterrar com quatro balas na cabeça as ideias que ela defendia e que não esquecemos desde então, e nem esqueceremos.

Especificamente em relação ao fato de Marielle Franco ser mulher negra, discussão levantada nas intervenções da mesa de quinta-feira, o caso de seu assassinato mostra como foi colocado cheque a hegemonia do Estado sobre o discurso da democracia racial, ideologia presente na história do país desde os tempos coloniais, após a abolição da escravatura. Esse discurso da democracia racial se fraturou em tal nível que se tornou necessário eliminar de dentro do poder uma voz divergente como a de Marielle, avançando em medidas mais profundas de repressão e controle pela via da coerção. O caso se torna um escândalo ainda mais assustador quando vemos que toda a investigação do próprio Estado não consegue esconder o nível de envolvimento de políticos com os assassinos dela.

A mesa abordou o tema do assassinato de Marielle Franco e a conjuntura atual que vivemos na política brasileira, pensando os desafios que estão colocados hoje para todos aqueles que se colocam como oposição ao governo atual. Espaços assim são fundamentais para que os estudantes, em conjunto com os professores e funcionários possam, mais do que exigir justiça por Marielle, ter reflexões vivas e dinâmicas sobre a realidade que nos rodeia, a partir de espaços de debate aberto que explicitem inclusive diferenças dentro dos movimentos de esquerda e discutam as distintas concepções sobre os caminhos a seguir.

A juventude Faísca sempre defendeu a necessidade das entidades estudantis promoverem espaços de debate e auto-organização dos estudantes. O Centro Acadêmico do curso de Letras (CAELL), hoje dirigido por uma gestão composta pela juventude do PT, Levante Popular da Juventude e estudantes independentes, já demonstrou que possui uma concepção distinta quando, mesmo com o chamado que foi feito, não construiu nenhum espaço que permitisse ao conjunto dos estudantes opinar, discutir e construir o dia 14 de março em memória de Marielle. Nem sequer participou dessa mesa construída por diversos setores do curso, única iniciativa em memória de Marielle no dia em que completava um ano do seu bárbaro assassinato. Seguimos fazendo um chamado para que essa gestão construa esses espaços e que organize o maior número possível de estudantes, começando por construir uma assembleia do curso que nos permita debater como nos organizaremos frente ao chamado para um dia de luta contra a Reforma da Previdência no dia 22 de março.

Esse debate que se abriu deve continuar no curso de Letras da Universidade de São Paulo, ao redor deste e tantos temas. Na última quinta-feira, uma sala lotada com cerca de 100 pessoas reunidas para debater a falta de respostas sobre quem matou matar Marielle e Anderson é uma expressão viva do nível de politização do nosso curso e uma demonstração da vontade dos estudantes de se refletir sobre o cenário político nacional e qual o nosso papel na luta contra tantos ataques colocados. É fundamental que frente o governo Bolsonaro possamos pensar qual estratégia e caminhos levar adiante, tanto para lutar por justiça por Marielle, como para enfrentar a reforma da previdência e todos os ataques que virão para atacar profundamente os trabalhadores e a juventude, sobretudo mulheres, negros e LGBTs. Por isso, seguimos fazendo um chamado para que a gestão Viramundo do CAELL construa de fato espaços de debate e discussões com o conjunto dos estudantes. Mais do que isso, fazemos um chamado a que a entidade representativa de todos os estudantes da Universidade, o DCE – cuja direção tem à frente as mesmas organizações que compõem o CAELL – para que organize em todos os cursos, em conjunto com cada centro acadêmico, esses espaços de debate, a exemplo também de um Congresso dos Estudantes da USP, onde poderemos discutir os rumos do Movimento Estudantil, definindo e debatendo tanto as questões de dentro da universidade como de fora, tirando ações concretas e buscando unificar nossa luta com os professores e trabalhadores.

 
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