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Domingo 18 de Agosto de 2019
08:46 hs.

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ANÁLISE
O projeto “celeiro do mundo” e o malabarismo de Bolsonaro entre EUA e China
Ítalo Garcia
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A burguesia agro-industrial foi um dos principais apoiadores da campanha eleitoral de Jair Bolsonaro. O fez em meio às incertezas que acompanhavam as crescentes tensões geradas pela guerra comercial entre EUA e China e apostando que sua vitória significaria o “fim da ideologização da política externa e comercial”, e pudesse encontrar formas de superar a dependência em relação ao mercado chinês. O que de longe deveria significar qualquer passo atrás nos negócios com os asiáticos.

Se então havia relativo otimismo, ainda que com inescapáveis incertezas, com os resultados dessa briga comercial, os recentes acordos entre Pequim e Washington prometem resultar em perdas importantes para uma série de comodities nacionais. Com isso, despertou-se a ira dos sojeiros, pecuaristas e outros setores da burguesia agro-industrial com a ala trumpista/olavista do governo e sua birra emprestada dos EUA contra os chineses.

Na segunda-feira desta semana, dia 15, representantes dos donos do latifúndio brasileiro e do “agrobusiness”, vieram a público rechaçar declarações do ministro das relações exteriores, Ernesto Araújo, um indicado do guru Olavo de Carvalho.

Diante do fato da China ser o maior comprador de ferro e soja do país, o ministro declarou: “Nós queremos vender mais soja e minério de ferro, mas não queremos vender nossa alma. Querem reduzir nossa política externa, simplesmente a uma questão comercial, isso não vai acontecer”.

Não deixou dúvidas de que se referia ao comércio com os chineses: “De fato, a China passou a ser o grande parceiro comercial do Brasil e, coincidência ou não, tem sido um período de estagnação do Brasil.”

Em 2017, o setor agropecuário contribuiu com crescimento de 13% no valor adicionado daquele ano, graças às safras recordes, em particular da soja. Em 2018, os chineses compraram 69 milhões de toneladas da soja vendida pelo Brasil, cujas receitas somam US$ 28 bilhões. No total, o país exportou 84 milhões de toneladas. Cerca de 84% do produto é vendido à China. Os ruralistas não deixarão de se valer destes números para impor pressão ao governo, especialmente quando os ideólogos do governo parecem pesar contra os seus interesses.

Após as declarações de Araújo, surgiram reclamações de diversos setores. O vice-presidente da Sociedade Rural Brasileira e o líder da Frente Parlamentar Agrícola, o gaúcho Alceu Moreira (MDB), exigiram uma reunião de emergência com Araújo e Bolsonaro. “Uma afirmação infeliz”, declarou o presidente da Aprosoja/MT (Associação dos Produtores de Soja e de Milho do Estado de Mato Grosso), Antônio Galvan, que rebateu defendendo a necessidade de mudanças para o setor. A China tem aberto mercado para o grão de soja nacional, mas derivados como farelo e óleo de soja sofrem perdas no mercado chinês.

Para tentar desfazer os nós da fala do chanceler nos ouvidos dos latifundiários, não bastaram as retratações contraditórias de Araújo. Bolsonaro teve que intervir: “Nosso grande parceiro é a China, em 2º lugar os EUA”. De “os chineses estão comprando o Brasil”, Bolsonaro se viu obrigado a corrigir seu discurso eleitoral, às vésperas da sua ida aos EUA, encontrar com Trump, neste domingo.

Agronegócio "reza em mandarim" e amaldiçoa discurso anti-China dos ideólogos do governo

Até o próximo dia 20 de março deverá ser concluído um acordo decisivo entre EUA e China, em que o país asiático se propõe a reduzir tarifas e restrições a produtos agrícolas, químicos, veículos e outros itens americanos, em troca do fim de parte das sanções americanas a produtos chineses levantadas no último ano.

Desde o ano passado, os EUA, sob liderança de Trump, quiseram enfrentar uma situação de US$ 420 bilhões de déficit comercial impondo tarifas sobre US$250 bilhões de importações chinesas. Estes responderam com tarifas sobre US$ 110 bilhões de produtos americanos, atingindo principalmente a soja, sendo os EUA líder mundial na produção da oleaginosa.

Foi um marco da agudização das crescentes tensões comerciais entre os dois países, em meio a um cenário econômico internacional que não soube trazer um novo ciclo de crescimento e acumulação capitalista após a quebradeira de 2008.

A China é o principal importador de produtos do agronegócio brasileiro, comendo 36.6% das vendas. Em seguida vem o bloco de países da União Europeia (17,4%) e os EUA (6,1%). Com a briga comprada pelos EUA, sojeiros brasileiros conseguiram exportar US$ 8 bilhões extras aos asiáticos, que celebravam a escalada das tensões comerciais. Porém, a alegria dos escravistas de Goiás e do Mato Grosso não poderia ser mais inocente.

Nas últimas semanas, Trump se mostrou disposto a uma trégua comercial, pressionado pela burguesia sojeira ianque, que acumulou cerca de 25 milhões de toneladas de soja em seus armazéns. O acordo promete ampliar impressionantes US$ 30 bilhões em compras chinesas de produtos agrícolas americanos, que devem incluir entrada privilegiada dos EUA em outros produtos: carne, milho, algodão e etanol. Todos produtos que o mercado brasileiro tem na China seus principais compradores.

As “forças do interior” do país se chocam com o avanço das “forças obscurantistas” no governo

Desenvolvemos neste artigo do Ideias de Esquerda sobre as mudanças de classe no Brasil durante as décadas petistas, especialmente diante do avanço do agronegócio em estados como Paraná, Rio Grande do Sul e da região Centro-Oeste. Ficou gráfico o peso do escoamento da soja na economia nacional no contexto da paralisação dos caminhoneiros (apoiado pela Aprosoja e pela ascendente patronal logística nessas regiões).

O desenvolvimento destas tendências foi direcionado pelo PT quando Lula, Dilma e os governadores petistas tiveram como projeto econômico e político fortalecer o agronegócio, a mineração predatória da Vale e Samarco, a bancada evangélica e da bala. Carregam muita da responsabilidade pela crescente reprimarização da economia e maior dependência do capital imperialista, que hoje se volta contra ele alçando lucros ainda maiores com o golpismo, e agora com o bolsonarismo.

O episódio envolvendo Ernesto Araújo diz que Bolsonaro não consegue emplacar livremente a sua submissão ao trumpismo mais grosseiro, e se vê obrigado a pisar no freio, “reorganizar o pessoal” nos ministérios (como fez no MEC), comprar briga com os olavistas e o próprio Olavo, que hoje xinga seu vice Mourão e a “turma da China” no governo.

Foi assim quando Bolsonaro decidiu impor um recuo a sua proposta de abandonar o Acordo de Paris, imitando o seu mestre imperialista Donald Trump, sem se dar conta do que isso poderia significar de prejuízos nas exportações agrárias para países como os da União Europeia.

Bolsonaro por vezes se vê obrigado a aproximar o discurso a do seu vice general Mourão, que tem bom trânsito entre os ruralistas e pecuaristas do Sul e Centro-Oeste, inclusive os recebeu em durante a campanha eleitoral para firmar o apoio à candidatura de Jair, invocando a “vocação” colonial do país à “celeiro do mundo”.

O acordo firmado nesse encontro incluía flexibilizar o porte de arma para fazendeiros aprofundarem o sequestro de terras ceifando vidas indígenas. Mas não basta chumbo, devastação na Amazônia, licenças ambientais para autorizar novos Brumadinho, se a política internacional do governo põe incertezas para o escoamento da plantação, da cabeça de gado e dos minérios.

O condomínio bolsonarista parece arder com contradições que se agudizam entre os blocos de poder, seja pela questão chinesa, seja por outras, como a transferência da embaixada brasileira de Israel para Jerusalém, que poderia prejudicar as exportações nacionais de carne para o mundo árabe (que passou o recado quando impôs tarifas contra o frango brasileiro).

São disputas que se dão em meio a um crescimento econômico frágil, de “pibinho”, desemprego em alta, que frente às tendências internacionais recessivas, num mundo em desaceleração sincronizada, tem dificuldade de abrir novos mercados ao agronegócio e consolidar a promessa do novo governo de retomada da economia.

A Reforma da Previdência, atroz aos trabalhadores, é o que dá otimismo aos investidores, mas também será um campo de batalha definidor dos distintos rumos desenhados para o país e da localização de cada bloco burguês em disputa. O que também coloca em jogo a possibilidade dos trabalhadores imporem o seu rumo ao futuro, em detrimento das forças do atraso e do obscurantismo anti-socialista, em que ambas apontam a volta da escravidão, em especial no campo, e a acelerada “comoditização” da economia.

 
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