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Lunes 23 de Septiembre de 2019
11:57 hs.

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PASSAGEM
Depois de extinguir cobradores, Campinas não aceitará dinheiro por passagem à R$ 4,70
Isadora de Lima Romera
estudante de artes visuais no IA-Unicamp

A partir do dia 19 de Janeiro, os ônibus de Campinas não aceitarão mais pagamento em dinheiro dificultando a locomoção dos usuários, enquanto os motoristas seguem sua precária dupla função.

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O transporte público de Campinas com uma das passagens mais caras do país (com a tarifa comum de 4,70, só perdendo para Brasília aonde a tarifa chega a cinco reais) vem há anos submetendo motoristas a uma dupla função de trabalho e colocando passageiros em risco. E agora partir do dia 19 de Janeiro não aceitará mais pagamento em dinheiro dificultando a locomoção dos usuários.

Em 2014 houve demissão de cerca de 1,2 mil cobradores em Campinas. Na época, a Transurc (Associação das Empresas de Transporte Coletivo Urbano de Campinas) afirmou que não haveriam demissões, mas o remanejamento através do Programa de Aperfeiçoamento Profissional (PAP), que previa que os profissionais fossem capacitados para atuar em outras funções dentro da empresa. Mais da metade dos trabalhadores não entraram no programa. Consultada em janeiro de 2019, a Emdec (Empresa Municipal de Desenvolvimento de Campinas) informou que a opção por aderir ao programa era totalmente dos cobradores, e que aqueles que não fizeram os cursos foram desligados. A empresa foi procurada, mas não quis se posicionar a respeito de como os desligamentos foram feitos por demissão voluntária ou não.

Depois da demissão dos cobradores o serviço de transporte público da cidade ficou ainda pior do que já era. Os motoristas passaram a desempenhar dupla função dando o troco da passagem enquanto dirigiam, além de muitas vezes não conseguirem ver os passageiros desembarcando por não terem mais o auxilio dos cobradores no abrir e fechar das portas. A partir de 2013 (já na gestão do atual prefeito Jonas Donizette do PSB) o Ministério Público do Trabalho passa a investigar o transporte público de Campinas que acumula denúncias. Desde a ilegalidade do aumento da tarifa (na ocasião, de R$3 para R$3,30), a retirada dos cobradores, até a discrepância de 40% no valor dos pneus apresentados na planilha de custos em relação ao preço de mercado.

Na época, o Conselho Municipal de Trânsito e Transporte se posicionou dizendo que os últimos dois aumentos de tarifa são ilegais, pois não passaram pelo conselho e também relacionou a morte de duas idosas em 2014 à saída dos cobradores. Uma enquanto desembarcava de um ônibus no Jardim Santa Terezinha.

Agora os empresários da Transurc e Emdec decidem "resolver" o problema retirando o pagamento em dinheiro. Em 2014 um teste desse novo sistema foi implantado por alguns meses e gerou transtorno para a população que por diversos motivos não possuísse o Bilhete Único. Campinas é uma cidade de passagem, onde muitas pessoas de fora da cidade vêm a trabalho ou para o Hospital das Clínicas da Unicamp (uma referência internacional na área). Essas pessoas utilizam as linhas de ônibus mas na maioria das vezes não possuem o Bilhete Único. Os usuários que vêm de fora ou mesmo os moradores da cidade que usam o transporte público esporadicamente ou tiverem alguma emergência terão mais dificuldade de se locomover sem o pagamento em dinheiro.

O novo sistema de QR code promete ser tecnológico e prático, porém seu funcionamento envolve diversos fatores. Pelo aplicativo do QR code o usuário precisa ter um celular com sinal, bateria e capacidade de rodar o aplicativo para só então poder se locomover. Para comprar os bilhetes de QR code o usuário precisa estar próximo de um ponto de venda e em horário comercial. Além de todos esses empecilhos o sistema QR code ainda não cobre outras funções que os cobradores desempenhavam como auxiliar no abrir e fechar das portas, dar informações aos passageiros e ajudar na locomoção de cadeirantes nos ônibus, o que sobrecarrega os motoristas e coloca a vida dos passageiros em risco.

Os empresários do transporte escolhem proteger seus lucros com demissões em massa e superexploração dos trabalhadores do transporte. A parceria público-privada continua oferecendo um serviço horrível para os usuários do transporte público de Campinas que seguem pagando a segunda passagem mais cara do país.

Por isso, o rechaço ao preço abusivo das passagens precisa estar ligada à necessidade de estatização do transporte público, de modo que ele seja controlado não por políticos corruptos ligados à mafia, mas pelos motoristas, trabalhadores e usuários dos transportes.

Somente assim teremos em Campinas um transporte público que atenda às necessidades da população, impeça a trágica morte de idosos, mulheres e trabalhadores em acidentes promovidos pela precarização do trabalho dos motoristas, mecânicos e dos pontos de ônibus. Só assim é possível garantir que esse direito não seja uma fonte de lucro dos capitalistas, mas possa garantir o passe livre para estudantes e desempregados, e a redução radical da tarifa.

 
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