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Lunes 14 de Octubre de 2019
20:50 hs.

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CONFERÊNCIA NACIONAL DO PTS RUMO AO XVII CONGRESSO
PTS: Mudar a militância para preparar uma resposta revolucionária ao saque capitalista
Fredy Lizarrague
Dirigente Nacional do PTS da Argentina

Nos dias 8 e 9 de dezembro aconteceu uma Conferência Nacional do PTS (partido irmão do MRT na Argentina). Esta conferência foi preparatória ao XVII Congresso partidário que ocorrerá em abril de 2019. Aqui publicamos uma síntese das discussões sobre as tarefas e a orientação na próxima etapa.

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Nos dias 8 e 9 de dezembro realizamos uma Conferência Nacional do PTS, preparatória ao XVII Congresso partidário, que se reunirá em abril de 2019. Viemos de reunir, durante o ano, uma Conferência de Organização (9 e 10 de junho) e uma Conferência Programática (28 e 29 de julho). As três conferências funcionaram com delegados(as) eleitos (as) pelos núcleos de militantes plenos e militantes aspirantes (militantes novos), junto ao Comitê Central votado no último Congresso (Abril de 2017). Editamos 11 boletins internos de debate, contando com mais de uma centena de textos escritos por militantes com críticas, aportes e polêmicas a respeitos dos documentos apresentados à Conferência. Como pode-se notar, temos um vivo debate interno que dá luz à formação teórico-política sobre vários temas, ao mesmo tempo que fomos parte das lutas da classe trabalhadora, do movimento de mulheres, do movimento estudantil, lutando também no Congresso e nas legislaturas locais com nossos deputados e deputadas.

Na última Conferência os temas foram a situação internacional e nacional (que desenvolvemos em nota à parte), e quais são nossos desafios como organização frente à etapa que se abre na “Argentina do FMI”. A preocupação central que recorreu a Conferência é a mesma que colocamos à toda esquerda, às lutadoras e lutadores: “seremos capazes de construir um grande partido da esquerda revolucionária e socialista que se proponha revolucionar as organizações da classe trabalhadora e da juventude para coloca-las a serviço de impor nossa própria saída?”

A Conferência completa foi transmitida por sistema fechado de vídeo para toda a militância.

O desafio do PTS à luz da história do trotskismo

No documento de convocatória da Conferência partíamos de uma reflexão de “longo prazo”:

Na história do movimento trotskista, existiram várias organizações que chegaram a reunir alguns milhares de militantes, mas em todos casos fracassaram em responder de forma revolucionária a processos que lhes tocou viver, e não puderam, deste modo, resolver a difícil transição à conquista de influência em setores das massas, ou seja, a se converter em verdadeiros partidos leninistas. Como está resumido no artigo “Nos limites da ‘restauração burguesa’” (Parte II: “O legado de Trotsky e a Quarta Internacional”), isto implica encontrar as respostas teóricas, políticas, estratégicas e táticas à realidade da luta de classes de cada país e no nível internacional, que guiem à ação e à construção de partido. Nenhuma das correntes do trotskismo do pós-guerra conseguiu evitar respostas centristas aos graves problemas políticos que enfrentam, e assim elas tiveram algum desenvolvimento (o WRP de Gerry Healy na Grã Bretanha ou a LCR na França) mas não conseguiram encontrar uma relação honesta e revolucionária entre a vanguarda e o movimento de massas.

Se analisamos brevemente as correntes trotskistas argentinas, a etapa que se inicia em 1969 encontrou o PST com certo desenvolvimento, com a debilidade relativa produzida pela adaptação às correntes guerrilheiristas, em particular à de Santucho com quem tinham construído o PRT entre ’65 e ’68. Neste ano se dividiram no “PRT-El Combatiente” que logo dará origem ao PRT-ERP e o “PRT-La Verdad” que logo dará origem ao PST. O PRT-ERP adotou uma estratégia abertamente guerrilheirista, colocando no centro a luta armada a partir da fundação do ERP (1970). Isso significou uma catástrofe para milhares de heroicos combatentes provenientes da vanguarda operária e do movimento estudantil que teriam fundamentais para a construção de um verdadeiro partido revolucionário à luz do processo dos ’70.

O PST colocou como centro de sua orientação as lutas operárias e estudantis, e o enfrentamento político ao governo de Perón, se apresentando de forma independente nas eleições de ’73, mas chegou debilitado ao começo do processo pela adaptação prévia ao ecletismo de Santucho e as consequências de sua ruptura (por exemplo, ficaram sem militância em Córdoba um ano antes do Cordobazo). O PO (Partido Obrero, que integra hoje em dia a FIT – Frente de Esquerda e dos Trabalhadores, com o PTS) era uma corrente muito mais fraca e testemunhal. Não queremos aqui escrever toda a história, que está muito mais desenvolvida em “Insurgencia Obrera” (livro de Ruth Werner e Facundo Aguirre, militantes do PTS), mas fundamentalmente assinalar que, apesar de que cometeram erros políticos importantes nesse período (ceder às correntes democrático-burguesas e não lutar consequentemente pela auto-organização, incluindo as organizações de auto-defesa para enfrentar a Triple A [organização proto-fascista que organizava atentados contra a esquerda e movimento operário – nota da Tradução], o que os localiza como uma corrente centrista (que oscila entre o reformismo e a perspectiva revolucionária), de conjunto, a corrente dirigida por Nahuel Moreno, o morenismo, naqueles anos foi mais de esquerda que nas conclusões teóricas e práticas em que se basearam a partir dos anos ’80.”

Nosso balanço crítico do fracasso do “velho” MAS, partido do qual viemos os fundadores do PTS, está resumido no artigo de Matias Maiello “A crise do Movimento ao Socialismo, lições para o presente”. O PO não foi uma alternativa: honrando sua origem na tendência fundada pelo francês Pierre Lambert, se manteve como uma corrente mais “ortodoxa” no discurso mas oportunista em sua prática política, desde acordo com caudilhos do interior (aliança com um candidato burguês como Parajón em Tucumán) nos anos ’90 e participação no Foro de São Paulo (com Lula, Fidel Castro, Daniel Ortega, etc) até a adaptação à assistência social do estado via colaterais piqueteiras a partir dos anos 2000. Por isso compartilham com o morenismo o incrível “recorde” (para uma corrente que se diz revolucionária) de nunca ter feito nenhum balanço do ascenso revolucionário mais importante das últimas décadas (’69-’76).

Mas, longe de se contentar com qualquer conformismo ou auto-proclamação, colocamos:

Nosso lugar na história do trotskismo será definido se conseguimos ser mais um avatar da longa história de fracassos, impotência e adaptação daquelas organizações chegaram a reunir milhares de militantes e conseguiram presença política em cada país, mas foram incapazes de encontrar um caminho revolucionário às massas. Para chegar em condições de conquistar influência em camadas das massas ao calor das grandes batalhas de classes que viram, não se trata somente de acertar a linha política quando estes fatos ocorram, mas também definir e realizar corretamente as tarefas preparatórias necessárias (em todos os níveis) antes que estes acontecimentos estourem. Estas tarefas consistem em formular corretamente a teoria revolucionária que atue como “guia para a ação”, ou seja, que permita definir o programa, a estratégia e as táticas, e conquistar dirigentes e quadros leninistas treinados em sua aplicação (na medida que seja permitida a luta de classes direta e a luta política mais geral, contra o governo, o regime e os partidos patronais – também na super-estrutura). Estes quadros, para atuar como quadros, não podem ser gente “solta” (como ocorre em partidos organizados territorialmente para as eleições) mas enraizados como correntes militantes e influência no movimento operário (nos sindicatos e comissões internas) e no movimento estudantil.

Como enfrentar as tendências dos “movimentos” (sindical, de mulheres ou estudantil) à adaptação ao regime

Para tornar mais concretas as “tarefas preparatórias” a Conferência debateu as fortes pressões à adaptação ao regime nos “movimentos” que se desenvolvem na realidade:

a) As lutas da classe trabalhadora, algumas relativamente potentes, mas esporádicas (sobretudo as jornadas de 14 e 18 de dezembro de 2017 contra a Reforma da Previdência e o mais importante conflito de fábrica foi o do Estaleiro Rio Santiago), além de conflitos em Posadas, Turbio, INTI, diversos setores estatais e empresas em luta contra as demissões, como o conflito de SIAM (que conseguiu 7 reincorporações), paralizações para acordos coletivos como em bancários, professores (universitários e de ensino primário e secundário), etc. Estes processos não conseguiram romper a dinâmica de trégua da direção da CGT, da qual foram cúmplices as direções kirchneristas, ainda que, mesmo assim, foram processos que destacaram setores que fizeram experiência com estas direções e se aproximaram das correntes da esquerda que intervimos nestas lutas e processos. Novas crises e processos de luta podem aprofundar esta experiência e o desenvolvimento de setores anti-burocráticos, combativos e classistas, como se propõe o Movimento de Agrupações Classistas.

b) A “maré verde” que teve como principal motor as “meninas” [“pibas no original – nota da tradução] (ou “filhas”, estudantes secundaristas) e se ampliou às estudantes universitárias, trabalhadoras (docentes e estatais) e às mulheres em geral, junto com muitos homens, enfrentando às igrejas e sua reação azul [utilizavam lenços azuis para se contrapor aos verdes]. Depois da derrota [no Senado que votou contra a legalização do aborto que tinha sido aprovada na Câmara – nota da tradução], foi freado seu desenvolvimento. Depois da Conferência se viu este processo canalizado contra a violência machista após a denúncia de Thelma Fardin. A partir desta denúncia se desenvolveram tendências a transformar o “punitivismo” (“dormir com um advogado no travesseiro”) e ao “escracho” em estratégias tendentes à “luta de gêneros” contraposta à luta “de classes”. Somente com a condição de uma dura disputa contra estas tendências que é possível “empoderar” no desenvolvimento de um feminismo da classe trabalhadora e socialista que agrupação Pão e Rosas constitui às milhares e mais milhares de mulheres estudantes e trabalhadoras, assim como os homens, que foram parte deste processo, e que fizeram de luta contra o Senado, a Igreja e os partidos do regime.

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c) O curto renascimento do movimento estudantil universitário que se estendeu em nível nacional, junto com outros conflitos pontuais como o de terciários [um setor “pre-universitário” que existe na argentina – nota da tradução] da cidade de Buenos Aires, ou dos técnicos da Província de Buenos Aires. Conflitos que não chegaram a constituir um movimento estudantil que “virasse a mesa” dos centros estudantis burocráticos. Entretanto, houve centenas de estudantes que fizeram experiência com a capitulação das direções kirchneristas nos sindicatos docentes e no movimento estudantil, assim como também fizeram experiência com a inconsequência das correntes de esquerda. Ali está a base para estender o desenvolvimento de correntes estudantis que busquem se unir com os setores classistas da classe trabalhadora, que defendam o marxismo contra todas ideologias que só buscam reformar o capitalismo, e que proponham revolucionar os centros acadêmicos. Esta é batalha que é dada pela rede de agrupações integradas pela Juventude do PTS e independentes, como a corrente universitária Em Clave Roja, No Pasarán em secundaristas e a Corrente “9 de Abril” em Terciários.

Ao caráter limitado de cada processo também contou com a contribuição das direções burocráticas, especialmente as kirchneristas, inimigas de qualquer tendência à espontaneidade e à luta “desde baixo”, porque toda sua estratégia é “de cima” e evitar que se abra uma situação revolucionária, apostando tudo que o peronismo, em alguma de suas tendências, volte ao Governo para gerir o decadente capitalismo argentino, sem romper com o FMI.

O caráter parcial dos movimentos fez que, no nível das massas, termine, por enquanto tendo primazia a rotina nos sindicatos e nos centros acadêmicos, impondo os ritmos e conteúdos conservadores do regime (defensivo de “manter o que for possível” no movimento operário, pressão para se formar e “defender a educação pública” tal como ela é hoje, no movimento estudantil). Isso reduz toda a estratégia de mudança de conjunto às eleições de 2019. No plano de nossa própria organização travamos batalhas junto e ganhamos o respeito de milhares de companheiros e companheiras por nossa consequência e determinação nas lutas e na defesa de um programa para que a crise seja paga pelos capitalistas, nos enfrentando às diferentes burocracias. Isso levou centenas de companheiros e companheiras estejam avançando a se integrar na militância revolucionária no PTS. Entretanto, pela situação de conjunto onde, não é fácil convencer para a militância partidária, apesar da raiva generalizada, todo o regime conseguiu impor a perspectiva de “derrotar Macri nas eleições” com a consequente passividade (que pode se ver alterada por novos saltos na crise, nos ataques do governo ou das patronais, por fora da correlação de forças, etc.) e a nefasta ilusão de que é possível uma renegociação com o FMI que impeça o saque (como o kirchnerismo e o conjunto da oposição peronista prometem).

Na Conferência aprofundamos os fundamentos (expressos no artigo relacionado à situação internacional e nacional) para debater com companheiras e companheiros que acreditam que nosso programa é “máximo demais”, que subestima a profundidade da crise e a brutalidade do plano que o FMI impulsiona (com ou sem “renegociação”, como mostram todos países que tiveram que enfrentar acordos similares), e também debatemos com os que dizem concordar com nossa perspectiva mas seu desacordo real se expressa em não querer dedicar tempo à militância. A construção da organização partidária é, assim, “contra a corrente”, o contrário do que acontece quando há luta de classes aguda. Entretanto, quando esta chegue se não conseguimos previamente uma grande acumulação e extensão partidária será muito mais difícil erguer uma organização revolucionária com quadros, dirigentes e correntes nas organizações de massa que possam mobilizar forças suficientes para nos propor a vencer.

Ser parte destes processos que vem ocorrendo se adaptando a seus limites leva à degradação do caráter revolucionário de nossa militância. É o contrário de dar passos “para revolucionar os sindicatos e os centros acadêmicos” (o que significa não somente romper com sua rotina burocrática e esvaziada de participação mas também gerar instâncias de coordenação que tendam a criar organizações na perspectiva dos históricos “conselhos” ou “sovietes”) e nos preparar para atuar “à altura das circunstâncias” frente aos grandes combates que o saque que as classes dominantes estão fazendo antecipa.

O grande debate da Conferência foi definir que há dois planos inseparáveis nos terrenos que temos que responder: por um lado colocar iniciativas políticas (com programa e táticas para realiza-las) frente a cada processo, incluindo as críticas, também teóricas, às tendências à integração ao regime de cada movimento, aproveitando também as campanhas eleitorais quer virão em 2019 tanto no nível nacional como em cada província, levarmos nosso programa e perspectiva a milhões; por outro lado, desenvolver uma militância em comum (“cruzada”) que permita que os setores mais dinâmicos (provenientes da juventude combativa, da ala esquerda do movimento de mulheres) impactem, deem fôlego e ao mesmo tempo aprendam dos setores operários de mais experiência e tradição que estão vivendo por enquanto uma situação profundamente conservadora. Em todos setores onde atuamos se trata de combater o “corporativismo” de ter como único fim a defesa das demandas de cada “movimento” (sindical, da mulher, estudantil), tarefa que é inclusive utópica nos marcos do ataque de conjunto que estamos vivendo.

Definimos que as pressões que enfrentamos são muito fortes já que se apoiam em tendências históricas e internacionais.

Como lembraram vários delegados na Conferência e assinalamos na carta antes citada, no caso do movimento sindical Lênin já definia, há mais de 100 anos que a política meramente “sindical” que se limita a buscar melhorar as condições de exploração mas não aboli-las, é burguesa e não conduz automaticamente a uma consciência socialista. Ao contrário, termina sendo funcional para que a decadência capitalista prepare novas catástrofes para a humanidade, como são as crises e as guerras. Por isso Lênin defendia que os militantes de um partido socialista e revolucionário deveriam atuar como “tribunos do povo” levantando um programa de conjunto, que tome as demandas de todos os oprimidos (não somente os trabalhadores) como parte do que hoje chamamos de “política hegemônica”, revolucionária e socialista.

As diferentes alas do “sindicalismo”, que tem muito peso em nosso país (considerado um dos países com maior nível de sindicalização no mundo, alcançando 36% dos trabalhadores registrados, e se são considerados os “informais” a cifra cai para 28%), hoje tem sua expressão política na estratégia que compartilham com o kirchnerismo, com Massa [peronista mais de centro-direita – nota da tradução] e os governadores: “unir toda a oposição para tirar Macri” nas eleições presidenciais.

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O debate na Conferência (e posteriormente a ela) surgiu porque havia companheiros que consideravam que até o momento em que o movimento operário não romper com sua passividade e desate processos mais generalizados de luta não podíamos nos propor criar “forças materiais” (de trabalhadores, mulheres e jovens) que deem passos em “revolucionar” os sindicatos e centros de estudantes, assim como nossa própria organização partidária. Polemizamos com esta posição assinalando que, se por um lado mudar pela raiz os sindicatos e centros acadêmicos depende do surgimento de setores dos próprios trabalhadores e estudantes que se proponham junto a nossa organização essa tarefa, o que sim podemos agora é reunir em lutas, em atividades comuns e dentro da própria organização partidária setores de trabalhadores, mulheres e jovens, fomentando a influência mútua, o aprendizado revolucionário e o espírito de luta comum. Fazer isso seriamente, e até o final, já é “revolucionário”.

No caso do movimento de mulheres foi exposto na Conferência o exemplo de que, enquanto estava se desenvolvendo a mobilização de mais de 10mil mulheres repudiando a absolvição dos acusados pelo feminicídio de Lucia Perez (marchando do Tribunal à Praça de Maio), na região de Constitución a Polícia armou um enorme aparato para impedir a marcha de organizações piqueteiras, em sua maioria mulheres. Autocriticamente, assinalamos que teria sido uma iniciativa necessária impulsionar que todas mulheres que quisessem ir da primeira marcha e se dirigir a Constitución para repudiar o aparato policial e apoiar as mulheres desempregadas ou cooperativistas do movimento piqueteiro. Isto teria tornado muito difícil para o governo manter o aparato repressivo, teria formado um exemplo de unidade que as organizações feministas “populistas”, “radicais” e inclusive da esquerda, nunca impulsionam, ajudando a que o movimento de mulheres fique limitado a lutar por demandas parciais e não se desenvolva em uma perspectiva de unidade com a classe trabalhadora, de enfrentamento com o estado e o sistema capitalista, única maneira de começar a – seriamente – debilitar o patriarcado e tender a sua destruição.

Dando um exemplo, pela positiva, do mesmo, como resultado dos debates da Conferência, o corte do acesso à Ponte Pueyrredón pela re-incorporação das trabalhadores e trabalhadores de SIAM no dia 20/12, reuniu comissões de mulheres desta fábrica com as da Coca-Cola, de MadyGraf (ex-Donnelley), do Hospital Posadas, de funcionários estatais, docentes e estudantes. Uma grande bandeira dizia: “SIAM, olha como ficamos se nos despidem e nos discriminam”. [Fazendo referência a frase que tomou as redes sociais depois da denúncia de Thelma Fardin – Nota da tradução].

O PTS conta com uma tradição não somente teórico-programática mas de sua prática na luta de classes, onde demonstramos ser audazes, decididos e perseverantes em cada ponto de nosso programa: defendendo os contratados e terceirizados (no Estaleiro Rio Santiago nos anos ’90, IVECO, ferroviários, no metrô, telefônicos, aeronáuticos, Kraft, Casino, FATE, petroleiros, águas gasosas, etc.); não cedendo às pressões da burocracia sindical e às patronais para entregar conquistas operárias ou postos de trabalho (ex: Jabon federal, Mafissa, Kraft, metrô, Lear, Pepsico) sendo protagonistas centrais das lutas operárias reprimidas pelos governos kirchneristas; mantendo uma fábrica como Zanon sob gestão operária há mais de 17 anos, em que pese o isolamento econômico e as pressões de capitulação dos “independentes”, e 4 anos de gestão operária na Ex-Donnelley, enfrentando um mercado gráfico em crise; impulsionando a auto-organização do movimento estudantil com um programa para uni-lo com a classe trabalhadora, contra o Governo do FMI, Macri e os governadores peronistas, contra as capitulações das direções kirchneristas (docentes e estudantis) e a política conciliadora do PO com a corrente defensora de Cristina Kirchner, a Mella; lutando no movimento de mulheres contra as igrejas e por um feminismo socialista e das trabalhadores e dos trabalhadores. Mostramos ser “os últimos a nos retirar do campo de batalha” em cada briga. Produto desta tradição contamos em nossas fileiras com dezenas de dirigentes operários(as) trotskistas que foram protagonistas destas grandes façanhas operários, sendo Raul Godoy o mais destacado, assim como dirigentes estudantis e personalidades do movimento de mulheres, assim como uma militância forjada nestas batalhas. Queremos revalorizar esta tradição sendo criativos na hora de articular os distintos processos que ocorram em cada cidade ou região, assim como na construção de nosso partido.

Mas não se trata somente de lutas: é necessário gerar o espírito de batalha e a organização por uma perspectiva revolucionária em comum entre trabalhadores, trabalhadoras e estudantes aproveitando toda instância que permita. Não pode acontecer nenhuma reunião de agrupação, comissão interna ou centro de estudantes, incluindo as festas, campeonatos de futebol ou atividade social ou recreativa que seja, que não com ao menos delegações de outros setores, para intercambiar opiniões (tanto críticas como aportes), experiências e debater objetivos políticos comuns que transcendem às reivindicações parciais de cada luta.

Estas instâncias de intercâmbio também queremos que se expressem na organização militante, com reuniões em comum entre os núcleos de trabalhadores(as) de diferentes sindicatos e estudantes, onde se discutam junto não somente discussões políticas ou teóricas mas também atividades que permitam ganhar novos companheiros e companheiras para a militância. Na própria Conferência houve exemplos de experiências que vinham concretizando esta perspectiva, onde os e as estudantes mostravam que podiam desenvolver críticas construtivas com o objetivo de tocar a rotina sindicalista, e por outro lado, aprender com a longa tradição de luta que tem cada núcleo operário do PTS. Se destacaram nisso tanto estudantes universitários (as) como, o novo, companheiras e companheiros secundaristas.

Este método de conjunto, que na Conferência se desenvolveu sobretudo a respeito do combate ao sindicalismo é o mesmo que permite combater as pressões à adaptação ao feminismo, ao estudantilismo ou ao eleitoralismo/parlamentarismo, de acordo com os processos que nos toque viver em cada momento.

Hipóteses estratégicas

A Conferencia discutiu que rumo ao XVII Congresso é muito importante buscar nossa inserção na juventude trabalhadora, que é o setor mais explorado da classe trabalhadora (mais precarizado e com maior desemprego) e onde podem emergir novas forças para “revolucionar” os sindicatos e demais organizações de massas, enquanto muitos setores de trabalhadores registrados efetivos tem fortes pressões conservadores por seus melhores salários e condições de trabalho.

Ao mesmo tempo, cada regional do PTS deve estudar que “hipótese estratégica” pode desenvolver no sentido de pensar eventuais cenários mais agudos da luta de classes e que articulação entre a classe operária e os demais oprimidos podemos prever, ensaiando políticas que tendam à unidade das fileiras operárias (Frente Única Operária) e à aliança operária e popular (hegemonia). Por exemplo, na regional de La Plata, Berisso e Ensenada vem se desenvolvendo a discussão do papel que desempenharão os operárias e operários do Estaleiro nas futuras lutas da região, tanto por sua tradição combativa de década e porque contam com uma corrente orientada pelo PTS que, ainda que minoritária, é uma alternativa à direção da lista “branca”, isto articulado com uma forte presença militante do PTS na universidade, em estatais e no setor de saúde, e com um crescente desenvolvimento em secundaristas.

Ainda que tenham um peso objetivo muito menor em suas respectivas cidades, tanto Zanon em Neuquén, como Madygraf (ex-Donnelley) em Pacheco-Escobar, apostamos que mantenham e desenvolvam sua tradição de “bastiões operários” que são ponto de apoio de cada setor anti-burocrático e combativo.

No metrô da cidade de Buenos Aires (SUBTE), nos ferroviários da Zona Sul e Oeste, nas grandes linhas de ônibus, assim como os aeronáuticos nos aeroportos de Ezeiza ou no Aeroparque, são também setores estratégicos que podem desempenhar um grande papel em eventuais ascensos de lutas, e sobre os quais nos propomos desenvolver junto com outros setores da classe trabalhadora e do movimento estudantil. Reafirmamos o papel de “dobradiça” entre a classe trabalhadora, os setores médios e os bairros pobres que podem desempenhar fortes correntes classistas e revolucionárias nos sindicatos docentes.

Clubes operários e novas camadas de militantes

Relacionado ao ponto anterior, a Conferência resolveu dar impulso a clubes operários durante o verão. Em particular a uma iniciativa muito importante de toda a regional Zona Norte de Grande Buenos Aires que é impulsionar o clube de Madygraf. Ele já conta com campos de futebol, vôlei, piscina e varanda.

A assembleia aberta com mais de 700 companheiros e companheiras desta regional que aconteceu no sábado 15/12 debateu as conclusões da Conferência e decidiu impulsionar a afiliação ao clube para ajudar a que se transforme em um lugar de reagrupamento dos trabalhadores, das mulheres e da juventude da região.

Em todas regionais do PTS vem sendo uma das prioridades a organização de uma nova camada de milhares de companheiros e companheiras militantes. Logo após os atos simultâneos que realizamos nos dias 06 de outubro no estádio de Argentinos Juniors e em 6 cidades do interior do país. É uma necessidade imperiosa para levar adiante o desafio que estamos nos propondo, multiplicar a força militante estruturada nos lugares de trabalho, estudo e nos bairros populares.

A conferência decidiu que a Campanha Financeira tenha o objetivo de conseguir que aportem todos os companheiros e companheiros que cada núcleo se propõe a organizar.

Lutas teórico-políticas

Tanto nos aportes de vários companheiros e companheiras (nos boletins internos) como na própria Conferência insistimos na importância da luta ideológica, o que é uma tradição do PTS, ainda que os problemas da militância nos “movimentos” que assinalamos acima (no marco de uma crise mais geral do marxismo em escala internacional) pressionam para não desenvolver o estudo, debate e elaboração teórico-políticas. A publicação dos livros do Instituto do Pensamento Socialista, assim como a revista Ideas de Izquierda e o suplemento de domingo do La IzquierdaDiario, são produções que estão à serviço desta luta. O último número impresso da Ideas de Izquierda acaba de sair, e contém importantes artigos muito úteis para as batalhas que nos colocamos na Conferência. Insistimos que é necessária a organização de cursos e seminários, mas que isso deve vir acompanhado de estudar os textos clássicos assim com as elaborações contemporâneas que podem enriquecer nossa visão da realidade e dos processos políticos em curso, sem por isso cair no ecletismo.

Na Conferência se expressaram debates teóricos que ficaram abertos para o Congresso, sobre: a) aspectos da “Teoria da Reprodução Social” que algumas autoras marxistas feministas defendem, várias das quais aderem ao chamado “feminismo dos 99%”; b) um debate sobre o conteúdo histórico da educação pública na Argentina e nosso programa transicional para a mesma.

Ainda que não desenvolvermos aqui, o que sim concordamos é que nosso critério de crítica às diversas correntes ideológicas não pode se limitar ao reconhecimento ou não da classe operária como sujeito, mas à necessidade de um programa e uma estratégia revolucionária, na luta contra as direções conciliadores e reformistas, para o qual é indispensável a construção de um partido revolucionário.

 
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