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Sábado 15 de Diciembre de 2018
08:49 hs.

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INÉDITO
Reunião do Exército com juízes italianos: lições para um plano “mãos limpas” no golpismo
Leandro Lanfredi
São Paulo | @leandrolanfrdi

Exército se reúne com judiciário italiano: planos para aprofundar golpismo com os mestres intelectuais da Lava Jato e para mostrar serviço na intervenção federal no Rio.

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No mesmo dia em que Moro determinava a arbitrária prisão de Lula, o comandante máximo das Forças Armadas brasileiras, o General Villas Boas se reunia com o embaixador da Itália e dois destacados membros do judiciário italiano. Depois de atuar abertamente para fortalecer o golpismo e pressionar o judiciário chantageando com intervenção armada, o comandante dá um claro sinal, internacional, de seus próximos passos.

Trata-se de algo completamente fora do padrão e de obscura legalidade, o Exército se reúne com o judiciário de outro país. Isso é algo nada normal? Onde estava o Itamaraty nesta reunião? Ou o STF, ou Ministério da Justiça, ou algum poder constitucional da República segundo os ditames de 1988?

O exército agora está se permitindo (com devida aceitação de Temer e silêncio da mídia) não somente imiscuir-se na política em declarações, ameaças e chantagens, como também utilizar seu crescente papel de árbitro para fortalecer suas [dezenas de candidatos das mais altas patentes–>http://www.esquerdadiario.com.br/Cupula-das-Forcas-Armadas-lanca-varios-pre-candidatos-para-defender-sua-agenda-reacionaria] e na sexta passada permitiu-se um salto de qualidade: uma política externa própria para ganhar mais know-how em dois aspectos cruciais de seus planos reacionários. Primeiro, aprofundar um plano “mãos limpas”, ou seja, mudar o regime político-partidário substituindo velhos esquemas de corrupção por novos e dando uma nova cara para o regime que seja mais funcional ao imperialismo e; em segundo lugar, utilizar a experiência italiana de suposto combate às máfias siciliana e napolitana na intervenção no Rio.

Saiba mais sobre como a operação Mãos Limpas inspirou a Lava Jato

Com os dois objetivos em tela, o Exército se prepara para colocar em prática uma máxima italiana imortalizada no romance Il Gattopardo: “tudo deve mudar para que tudo fique como está”.

No que consistiram os planos italianos e como esses planos seriam em terras tupiniquins?

A operação Mãos Limpas italiana trucidou vários dos maiores partidos do regime partidário vigente desde a segunda guerra, especialmente a Democracia Cristã e o Partido Socialista. De quebra ajudou a destruir estatais (especialmente a ENI de petróleo) e mudar a localização geopolítica italiana, de algum jogo geopolítico próprio no Mediterrâneo, para tornar-se um ator subordinado nos marcos da nascente União Europeia. Uma mudança profunda que pode ocorrer sem grandes saltos da luta de classes graças ao peso do stalinismo italiano nos sindicatos que pode conter a emergência da classe trabalhadora em meio a tremenda crise, renovando seu papel contra-revolucionário já cumprido para impedir a vitória revolucionária depois da Segunda Guerra, e seu papel no ascenso dos anos 70.

A Mãos Limpas dizia que o grande problema italiano era a corrupção estatal, vencida começaria um período de prosperidade. Agindo assim quebrou partidos e oligarquias, deixando intactos outros esquemas de corrupção que logo se apoderaram do poder, especialmente Berlusconi, mafioso magnata da mídia, expoente da de uma direita conservadora e que dá cordas à xenófobia e violência contra imigrantes. Garantiu-se depois um acordão de impunidade e desde então persiste uma combinação de estagnação econômica, crise de representatividade e a velha corrupção com novas caras.

Já o combate às máfias desenvolveu-se em paralelo a esta operação, e segue em curso com frequentes operações midiáticas com prisões, arresto de fortunas, no entanto uma parte do esquema, suas relações políticas, empresariais e judiciárias permanece fundamentalmente intacta.

No Brasil um plano “mãos limpas” se fosse uma cópia italiana implicaria avançar de atacar o PT para atacar outros pilares do regime, como o PMDB e PSDB, e continuar fazendo o que já está sendo feito, destruir as estatais e tornar o país mais subserviente ao imperialismo. No entanto, o peso do PT para a conciliação de classes, superior ao do PS italiano que dividia tarefas com o PCI, em si constitui um imenso abalo no regime de 88, especialmente com a prisão arbitrária de Lula e já pode ser relevante de um plano como este, que poderia talvez se contentar em sangrar um pouco mais o PSDB e PMDB mas não destrui-los tanto como suas contrapartes no país de Berlusconi.

Já o combate às máfias e o know-how midiático parece particularmente útil para a intervenção federal no Rio e para tecer nacionalmente boas relações entre estes poderes bonapartistas sem voto, como o judiciário e as Forças Armadas. A relação com o juiz da Lava Jato no Rio, Marcelo Bretas, seria um modelo a generalizar. Como mostrar um combate à "casta política" deixando intacto um governador para que siga tocando os ajustes (Bretas sempre poupa Pezão) e ao mesmo tempo como propagandear um efetivo combate ao tráfico, e especialmente às milícias, sem destroçar o que não deve ser destroçado, prefeitos, juízes... Talvez seja sintomático dessa hipótese "italiana" a operação ocorrida no dia seguinte no Rio: prenderam 153 pessoas ligadas a milícia e deixaram o chefe que estava no mesmo local escapar.

Quem são os magistrados italianos que Villas Lobos tomou nota para seus planos?

Nicola Rosso era juiz das fases de inquérito e audiência em Nápoles desde 1997 até 2008, depois passou a ser chefe da “comissão científica” da Escola Superior de Magistratura Italiana (com imprecisões, digamos uma OAB de lá), coordenando especialmente a seção de direito penal, é consultor da Comissão Parlamentar Anti-mafia.

Sabe-se que o direito penal é a seara preferida para os campões do autoritarismo judiciário, onde crassam as teorias de domínio do fato, o uso de escutas ilegais, delações e outros métodos diletos de seriados ianques mas também de nossos curitibanos.

Já Giovanni Tartaglia Polcini é professor de direito “anti-mafia” e loquaz defensor decriar novas legislações mais autoritárias para supostamente combater o terrorismo. É atualmente funcionário do Ministério Exterior italiano, depois de ter atuado na OCDE e no G-20 em áreas de “combate ao crime internacional’, agora é um dos chefes do programa de “assistência” PacCto da União Europeia para combate ao crime organizado na América Latina.

Os dois magistrados em questão não estiveram diretamente envolvidos – com destaque – na Mãos Limpas mas guardam diversas relações com os atores centrais, reproduzem sua escola autoritária e são atores fundamentais de exportar seus métodos e lições.

Mas por que o Exército precisa aprender com o que o judiciário italiano fez

Com a crise política, econômica e social brasileira cada vez mais poderes sem voto, partidos não oficiais fazem às vezes dos partidos tradicionais que se debatem em crescente divisão interna e separação com seus representados. É assim como pode-se entender o crescente papel político do judiciário e das próprias Forças Armadas. Esse papel, particularmente no judiciário, contribuiu a rachá-lo ao meio do STF ao MPF, reproduzindo internamente as alas do regime político: “lava jato” e “casta política”.

Sem o peso das Forças Armadas nem mesmo a Globo em associação com a “fração Lava Jato” do judiciário, capitaneada por Janot naquele momento, teve força de concluir o “golpe dentro do golpe” contra Temer em maio-junho de 2017. Temendo que o objetivo central de continuidade do golpe estivesse em risco se Lula puder se candidatar, o Exército resolveu virar ele um ator para fortalecer a ala Lava Jato e a continuidade do golpe.

A fotografia lhes parece favorável até agora, mas os planos golpistas italianos do Exército Brasileiro envolvem duas dificuldades novas: serão necessários maiores conflitos, arriscando repetir no fracionamento do judiciário dentro de si, e como ficará a opinião pública que poupa as Forças Armadas do descrédito de outras instituições, quando ficar claro que tudo se trata do mais velho “gattopardismo”: “tudo deve mudar para que tudo fique como está”.

 
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