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Zuckerberg: o novo messias?

domingo 15 de outubro| Edição do dia

O famoso CEO do Facebook, Mark Zuckerberg, parece ter gostado muito da viagem que fez ao Alasca, no mês de Julho, deste ano de 2017. Voltou de lá tão empolgado com as experiências econômicas do estado americano que começou a sonhar com um futuro em que houvesse uma renda social básica para todos os americanos e, talvez, até para o mundo inteiro, tal como o Alasca parece estar fazendo com os que agüentam o frio de lá.

O acesso a pelo menos um pouquinho de dinheiro, mesmo sem que trabalhássemos, permitiria, segundo as palavras de Zuckerberg, um salto qualitativo no número de pequenas empresas pretensamente inovadoras em tecnologia (as startups) e, portanto, um maior número de oportunidades de crescimento financeiro para todos, sem que barrássemos, de antemão, àqueles que não teriam condições de empreender sem tal renda mínima. Com um discurso inflamado, Zuckerberg diz ser um imperativo de nosso tempo a criação de um novo contrato social, em defesa da renda mínima! Antes de declararmos, no entanto, que ele virou um cybersocialista ou amigo do Lula (1), devemos pensar um pouco.

Poderíamos dizer que pelo menos desde o surgimento das relações econômicas e políticas capitalistas, inaugurou-se uma série de utopias tecnológicas que se articulavam, e continuam se articulando, pelas mesmas engrenagens discursivas, não importando qual técnica é a metáfora do dia. As máquinas a vapor, o desenvolvimento dos transportes, as técnicas de cultivo agrícola da “revolução verde”, os transgênicos, a energia solar, os robôs, a física quântica, aquilo que chamam de técnicas de “melhoramento humano” (neurológico, genético, cognitivo, etc...) e toda técnica ou conjunto de técnicas imagináveis, futuras ou passadas, se já não foram, poderiam vir um dia a alimentar a promessa por um futuro imaginário de prosperidade ou de um novo contrato social, como disse Zuckerberg, no mais alto estilo jacobino.

A metáfora subliminar privilegiada do CEO do facebook, aliada ao seu plano de dinheiro para todos, é a da informática e do processamento de dados, já que, só em uma sociedade com amplo desenvolvimento tecnológico da informação seria possível a administração de um sistema de redistribuição financeira nacional ou mundial. Mas, esse tipo de subterfúgio não é em nada novo e já encantou até mesmo aqueles que se identificam com os ideais de esquerda.

Vejamos um exemplo de otimismo exacerbado perante a tecnologia, do final do séc. XIX, proveniente de alguém que estava do lado de cá de nossa trincheira. Em “Direito a preguiça” (1880), Paul Lafargue (2), em grande medida seguindo uma tendência otimista de seu século perante a maquinaria, reconhecia no desenvolvimento tecnológico uma espécie de escala para medirmos o quão perto estaríamos da abolição inevitável e completa da exploração capitalista através do trabalho. A reflexão é bem intuitiva: a pressão resultante da combinação entre o emprego cada vez maior de máquinas e um número cada vez maior de desempregados faria com que todos tivessem, mais dia menos dia, de virar consumidores do excesso de produtividade econômica, algo que antes cabia tão somente a classe burguesa (3).

Em outras palavras, não haveria estômago de burguês grande o suficiente para consumir tudo que a sociedade tecnologicamente desenvolvida produzisse e, portanto, numa matemática fatal, os explorados alcançariam inevitavelmente uma sociedade futura sem escassez de recursos, na qual o direito ao ócio seria um dos mais fundamentais. As reivindicações por cada vez menos horas de trabalho do movimento operário seriam, também, mais um índice do ideal de Lafarge.

Podemos também notar o mesmo tipo de otimismo, agora, tomando como exemplo um exímio defensor do capitalismo e do desenvolvimento tecnológico, o economista, matemático e engenheiro inglês, Charles Babbage (4).

Refletindo sobre o emprego de máquinas e as barreiras para o desenvolvimento tecnológico de seu tempo, Babbage reconhece nos movimentos operários (tal como os movimentos luditas de quebra de máquinas) um grande problema da primeira metade do século XIX. Segundo sua opinião, os protestos poderiam ser contidos a partir do convencimento dos trabalhadores de que todos, não importando a formação educacional, poderiam ser inventores, bastando tão somente que se esforçassem e se concentrassem para tanto (5). De modo complementar, ainda segundo Babbage, a educação básica da população deveria prever matérias introdutórias às ciências e novidades tecnológicas, a fim de promover no imaginário coletivo os efeitos benéficos do desenvolvimento tecnológico. Os efeitos ruins, como o desemprego, insalubridade e acidentes, estes, segundo sua visão, podiam ficar de lado em prol do progresso.

Voltando para o presente, podemos ainda apreciar o peculiar otimismo tecnológico de Paco Ragageles, um dos organizadores do evento “Campus Party”.

Ragageles declarou, na abertura da Campus Party-Brasil de 2016, que dentro de 50 anos nós estaríamos vivendo numa sociedade sem empregos, tendo apenas robôs operando todas atividades econômicas (6). Apesar de pequenas convulsões sociais momentâneas, ele acredita que nós terminaríamos por viver em um mundo de abundância socializada, tal como na última fase do comunismo, o que nos faria mudar a noção mesma de desemprego como algo ruim. Em sua perspectiva, todos passaremos a ter como tarefa descobrir como ser mais felizes, buscando o melhoramento individual e coletivo, digamos, mais ou menos, como no universo da série americana Star-Trek (7).

Pelo exposto, é possível ter alguns dos exemplares da série de utopias e otimismos tecnológicos para o futuro que, se ainda não foram desmentidas em experiências passadas, ainda poderão ser desmentidas pela distopia constante, passada presente e futura, inerente à própria natureza do capitalismo.

Começamos este texto falando sobre Zuckerberg, mas não explicamos muito bem do que se tratava o projeto de renda básica mínima, baseada no Modelo do Alasca. A ideia é muito fácil de comprar, já que tem sido promovida pela mídia como a sendo simplesmente a doação de “dinheiro de graça”. Mas, estaríamos sendo desonestos com o CEO se o criticássemos por falar uma besteira dessas. Ele é minimamente informado para reconhecer que não se trata de “dinheiro de graça”, mas, sim, no caso do Alasca, de uma soma proveniente dos royalties da exploração de petróleo e gás.

Nas palavras de Zuckerberg: “Esse programa é uma abordagem nova da renda básica, pelos seguintes motivos: primeiro, é um programa financiado por recursos naturais ao invés de aumento de taxas. Segundo, é proveniente da adoção de princípios norteadores conservadores de um menor aparato governamental ao invés de princípios progressistas de uma ampla rede de serviços públicos.”

Este tipo de declaração permite-nos compreender porque Zuckerberg, apesar do emocionante discurso de enceramento das turmas de 2017 de Harvard, não é nenhum socialista e que seu discurso é plenamente compatível com as perspectivas mais neoliberais.

O que há de mais importante em suas palavras está, no entanto, nas entrelinhas. Zuckerberg e muitos dos “Sylicon Boys” sabem quão grande será o impacto da inteligência artificial no mercado de trabalho e o quanto muitos países precisarão de administrações massivas de tráfico de informação para criação de propostas, tais como a do Alasca, para remediar o desemprego igualmente massivo. Com certeza, mais do que qualquer propósito filantrópico ou reformista, o que está em jogo são oportunidades de negócios para os setores de alta tecnologia da informação…

Podemos concluir que, apesar de utilizar terminologias high-techs, essas novas versões de terras prometidas seguem a mesma receita das antigas promessas de um paraíso-futuro para os merecedores: primeiro, é preciso convencer as pessoas que todos os problemas sociais atuais não serão resolvidos coletivamente, na atualidade, através de protagonismo social, em greves, ocupações e conflitos com as classes dominantes. Em segundo lugar, mostra-se que o problema pode começar a ser resolvido por uma mudança de gestão ou de abordagem administrativa e é aqui onde as utopias tecnológicas aparecem para legitimar uma engenharia social, em busca de controle e substituição de todos os empecilhos sociais, mesmo que eles sejam a própria humanidade. É assim que a automação surge como um dos milagres para o desenvolvimento econômico.

Enquanto não conseguem alcançar suas utopias tecnologicamente descontextualizadas, toda sorte de entusiasta da alta tecnologia tentará promover a neutralidade da tecnologia, perante o mau uso que é feito dela pela sociedade. Tal tentativa de isolamento proposital dos resultados do desenvolvimento tecnológico blinda os mais abastados de qualquer crítica ou questionamento quanto à responsabilidade social por trás de cada novidade tecnológica.

Felizmente, mesmo dentro no mundo da ciência e das universidades, encontramos exceções louváveis, que podem colaborar para uma crítica de esquerda ao otimismo tecnológico a todo custo. Nos trabalhos de filósofos como o professor Hugh Lacey e o filósofo da ciência Pablo Rubén Mariconda, temos ótimas ferramentas para bombardear, com sérias críticas, os novos tecno-messias da sociedade (8).

Notas

1) Diferente de Lula, Zuckerberg foi mais honesto, pois deixou sempre claro que, com a renda mínima, quer promover a dinâmica do capitalismo neoliberal.

2) Paul Lafargue (1842-1911), jornalista franco-cubano e ativista socialista, foi casado com Laura Marx (filha de Karl Marx).

3) O livro encontra-se disponível em https://www.marxists.org/portugues/lafargue/1883/preg/index.htm

4) Charles Babbage (1791-1871) foi um economista cujos escritos em desenvolvimento tecnológico Marx estudou e se apropriou. Além disso, Babbage é reconhecido por ser o primeiro a projetar máquinas de computação que, em princípio, possuíam a mesma arquitetura das máquinas que utilizamos hoje.

5) A passagem sobre o tema se encontra em: Babbage, Charles. On the Economy of Machinery and Manufactures, p.231. Vale a pena ressaltar que, de fato, muitas inovações técnicas industriais foram feitas por operários que, enfadados com a repetição de um mesmo tipo de trabalho “mecânico”, acabavam criando dispositivos que “faziam o trabalho para eles”.

6) A íntegra do discurso proferido por Paco Ragagels pode ser visto aqui: https://www.youtube.com/watch?v=3JFT6hg5cKU

7) A série de ficção científica americana Star Trek mostra como a humanidade supera, no séc. 24, a escassez de recursos e todos os problemas relacionados à desigualdade social, através da inteligência artificial e de máquinas como as “máquinas Replicadoras”, tipos de máquina que, na série, podem materializar qualquer tipo de objeto ou alimento que se queira. O economista Manu Saadi escreveu, recentemente, “Trekonomics: The Economics of Star Trek”, um livro inteiro considerando como seria a economia se, de fato, a ficção de Star Trek se confirmasse no futuro.

8) Bons exemplos deste esforço em pensar o desenvolvimento tecnológico e as falácias por trás dos discursos de neutralidade da ciência podem ser vista em diversos artigos da revista Scientiae Studia, na qual os dois professores colaboram enquanto editores. Todos os artigos encontram-se disponíveis online.




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