Cultura

LITERATURA

Zé Lins é o nosso Balzac

Afonso Machado

Campinas

quinta-feira 25 de maio| Edição do dia

Tratar de questões literárias num momento em que o Brasil vive uma tempestade política, pode parecer algo fora de propósito. Mas longe de ser um assunto colocado no fim da lista das preocupações da esquerda, a literatura deve receber atenção devido a uma questão política elementar: perante uma série de fatos sociais(os ataques que as reformas representam para os trabalhadores, práticas de corrupção, escândalos políticos e por aí vai) apresentados de acordo com as lentes ideológicas da classe dominante, a representação da realidade e a capacidade de narrar o que realmente se passa no Brasil, são desafios colocados para os trabalhadores. Pois bem, quem quiser saber com quantos paus se faz a canoa da narrativa num romance, precisa mergulhar na obra do escritor brasileiro José Lins do Rego.

José Lins do Rego é um escritor que sabe prender o leitor com uma história. Este torcedor apaixonado do Flamengo foi um dos pilares da Literatura de 30, ou seja o momento em que o romance torna-se um instrumento privilegiado para decifrar as realidades do Brasil( regiões do país que até então tinham recebido pouca atenção entre os escritores brasileiros: é a denúncia da miséria do nordeste o foco do Romance de 30). Apoiados nas as liberdades estéticas conquistadas pelo modernismo dos anos 20, os ficcionistas do nordeste escreveram histórias sobre um Brasil que até hoje a canalha conservadora não quer encarar. Zé Lins foi um sujeito que já no seu romance de estreia Menino de Engenho, transborda os problemas sociais na região da Zona da Mata. Este romance inaugura junto a Doidinho, Banguê e O Moleque Ricardo, o chamado ciclo da cana de açúcar. Zé Lins tece com uma escrita precisa a decadência da chamada civilização do açúcar.

O crítico Tristão de Athayde comparou Zé Lins com Balzac. A comparação é pertinente: se Balzac nos mostra a formação da burguesia francesa do século XIX, produzindo através da sua estética realista impecáveis retratos históricos, Zé Lins exerce uma missão semelhante ao refletir em suas obras engenhos moribundos , a mecanização da usina e a miséria de um povo. Porém, é preciso compreender que o realismo de Zé Lins não é o mesmo de Balzac: o autor nordestino soube servir-se tanto das contribuições naturalistas para descrever com objetividade a realidade, quanto da liberdade formal trazida pelo modernismo. Que dizer, não é o reflexo passivo apregoado pela estética de Lukács, mas sim um realismo que se beneficia esteticamente de diversos elementos literários. Sem contar que Zé Lins estava longe de ser politicamente reacionário como Balzac. Certo, o realismo pode retratar objetivamente a sociedade independentemente da posição política do escritor. Mas no século XX, em especial nos anos 30, o realismo já não é o mesmo do século XIX: o escritor contemporâneo não apenas retrata mas intervém na realidade, assumindo uma posição política.

Balzac apresentou uma perspectiva realista em que o romancista e o historiador se encontram: Marx, Engels e Trotski eram fãs de carteirinha do autor. Num papo com seu genro Karl Marx, o autor socialista Paul Lafargue ouviu do autor do Manifesto Comunista: (...) “Balzac não foi somente o historiador do seu tempo, mas também o criador de tipos proféticos que não existiam na época de Luís Felipe, mas que, estando(nesta época) em estágio embrionário, desenvolveram-se apenas depois de sua morte(a de Balzac), durante o período de Napoleão III“(...). Marx nos mostra que captar objetivamente a realidade, inclusive nos seus aspectos sociais embrionários(ou seja, o esforço criativo do escritor possibilita a elaboração de tipos sociais ainda em fase de gestação histórica) seria o objetivo de uma escrita que funciona como um espelho quando alguém abre um romance. Pode-se dizer que José Lins do Rego realiza esta façanha mas num outro degrau da estética realista: os romances de Zé Lins pertencem a um momento histórico em que a capacidade do romance documentar a realidade, liga-se a uma postura literária na qual a narrativa convencional é subvertida pela fala coloquial, pela escrita sem amarras, pela liberdade em fazer do texto literário memória pessoal e denúncia social.

José Lins do Rego arquitetou seus romances num ambiente de extrema efervescência cultural. Intelectuais do Recife e de Maceió discutiam, ao longo dos anos 30, a necessidade de um projeto estético que mostrasse as realidades regionais. É comum ouvirmos que Zé Lins foi muito influenciado pelo seu amigo Gilberto Freyre. De fato o autor de Casa Grande e Senzala, nome seminal da sociologia no Brasil, é uma das grandes cabeças do movimento cultural regionalista e grande influência na obra de José Lins do Rego. Entretanto, Zé Lins foi mais longe que Freyre na reflexão sobre os problemas sociais: não são apenas fatores culturais específicos que conferem identidade ao nordeste, mas sim um quadro econômico desesperador no qual camponeses morrem de fome. A literatura de Zé Lins traz as marcas das lutas sociais: basta lembrarmos da abordagem dos temas do cangaço e do beatismo, em obras como Pedra Bonita; cabe lembrar que o filme deus e o diabo na terra do sol, de Glauber Rocha, é inspirado neste romance. Aliás, o projeto estético do Cinema Novo dos anos 60, deita suas raízes no Romance de 30: Glauber teorizou sobre as relações entre a Literatura de 30 e o cinema político dos anos 60, para a realização de uma arte revolucionária no Brasil.

A literatura de José Lins do Rego expõe o caráter trágico da cultura brasileira. São romances autênticos, em que lembranças e denúncias geram uma beleza triste. São sentimentos derramados com maestria sobre a realidade histórica. Toda esta obra nos ensina como narrar os problemas do nosso país. Este modelo de romance é politicamente urgente: vivemos um momento em que os fatos sociais confundem-se com a ideologia da mídia capitalista. A obra de Zé Lins aponta para a seguinte evidência: não é no jornalismo burguês que encontraremos a realidade/os fatos sociais, mas sim na ficção dos escritores comprometidos com a verdade! Se alguém deseja entender os problemas sociais do Brasil durante os anos da ditadura do Estado Novo(1937-45), não deve recorrer à produção jornalística e publicitária do DIP(Departamento de Imprensa e Propaganda). Esta pessoa deverá consultar os romances de autores como Zé Lins.




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