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Yzalú, bossa treta, preta e de resistência

Acompanhada de seu violão em seu novo disco, desde a capa até as músicas, Yzalú invade a cena do rap com suas rimas. Seu primeiro disco “Minha bossa é treta” é antes de tudo o disco de uma mulher negra, não por acaso o lançamento foi feito no dia da mulher. É o disco da voz da belíssima canção “Mulheres negras”, composição de Eduardo, ex-Facção Central.

Gabriela Farrabrás

São Paulo | @gabriela_eagle

terça-feira 22 de março de 2016| Edição do dia

Yzalú nasceu na periferia de São Paulo no dia 8 de setembro de 1982. Traz em suas músicas aquilo que cresceu ouvindo, rap, reggae, samba de raiz e mpb – seu violão sendo a base pras suas rimas. Fez parte do primeiro grupo de rap feminino de São Bernardo do Campo, o Essência Black. Anos depois sozinha ganhou atenção por tratar o rap de uma maneira intimista ao som do violão sem deixar as palavras perderem sua força.

Minha bossa é treta

01. Alma Negra
O disco abre com as batidas do violão de Yzalú e sua voz anunciando “Alma Negra”, cantando a luta dos negros que crescem ouvindo que “preto não tem vez” e ainda assim resistem, “pura e verdadeira luta guerrilheira”. Em pouco mais de um minuto a rapper já anuncia que esse é um disco de resistência.

02. Minha Bossa é Treta
A música que dá título ao disco vai vir falar do que não é fácil de digerir, o cheiro de pólvora da favela, a palavra revolução, que vai ser dita mais de uma vez nesse disco. A plena noção do sistema que nos construiu e que temos que combater. Yzalú chama a conferirem que a bossa dela não é aquela bossa boazinha e elitista, o violão dela traz a bossa treta de seu sangue quente.

03. Arrumei o Barraco
Em cima dos sopros essa canção de amor se constrói numa levada deliciosa e canta uma relação real com seus momentos difíceis e bons vivida no barraco em que o companheirismo vem pra somar e construir junto sem a fantasia de eterna completude ou qualquer outro interesse.

04. Teu Sorriso
Tem mais amor nesse disco, e “Teu sorriso” vem falar da saudade do amado que esta pra voltar. E fala do que é amar, de desejar o bem pro outro, fazer quem amamos acreditar que ele é forte e grande, que não é menor que ninguém. Yzalú tem essa imagem do amor ser algo pra construir algo junto, pra se crescer.

05. Deixa Pra Lá
Yzalú se dirige a favela, ao morro diretamente, dizendo para que deixem para lá o que disseram para diminuírem eles, e chamando-os a voar, para não desanimar. Chama teus irmãos a se levantarem.

06. Figura Difícil
Essa composição escrita pelo rapper do canão, zona sul, Sabotage vem denunciando uma situação cotidiana já em sua época e que continua atual. A chacina em Diadema é ainda a mesma chacina em Osasco, o risco do vicio nas drogas buscando o alívio da realidade, o medo constante de ser enquadrado simplesmente por ser negro, “overdose, desespero, menor, droga, putero, governo, fuzil, dinheiro, pesadelo, barraca, família (...), do ABC à zona sul a noite é uma polêmica, tiros nas espraiadas, morte em Diadema”; tudo isso era e ainda é a realidade da periferia – e ler essas palavras escritas pela letra de Sabotage no vídeo que Yzalú disponibilizou arrepia. O rap é posto aqui como o único estilo musical produzido na favela e que por isso compreende a realidade dela, “só o rap pra entender o ladrão”.

07. #ÉoRapTio
“É o rap, tio, que me tirou do mundo frio”. É lema do mundo do rap dizer que o rap salva vidas e essa composição de duas divas do hip hop, Yzalú e Amanda NegraSim, vem pra reforçar essa ideia. O gueto, a periferia canta isso porque o rap, as batalhas de MCs, os slam, o grafite, a cultura hip hop é o que chega na favela e é a arte da favela, é o suspiro, a saída, o lugar de se colocar como sujeito em meio a todo o peso de ser marginalizado e de estar a margem da sociedade e da alta cultura. O verso “é o rap, tio, que me tirou do mundo frio” é o verso de Amanda NegraSim na sua música “Amor ao rap”. Em meio a violência, a opressão, a exploração diária ter a rima pra colocar suas ideias e seus sentimentos, ter o grafite na parede do morro salva e faz valer mais um dia vivo nessa sociedade opressora e exploradora.
Para além disso Yzalú vem falar da importância da periferia valorizar aquilo que ela produz, da periferia se valorizar contra a ideia que foi vendida de que eles são menores.
08. Deixo Ir
Essa canção sobre partida, sobre deixar ir mesmo com a dor, mas com a certeza de que quando voltar a cantora ainda estará ali.
09. Camin
O caminho da revolução não se caminha sozinho, é ao lado dos irmãos, é essa união que assusta o outro lado dessa luta.

10. Rua 4
Sabotage está em Yzalú e “Um bom lugar” vai aparecer entre as ruas tensas que a rapper corre indo atrás do que quer através das dificuldades procurando sua essência, do seu caminho, buscando o “bom lugar” e querendo alguém ao seu lado nessa caminhada.

11. Lamentos de Um Poeta
Composição de Mariel Reis, a música vem com metais trazendo os lamentos de um poeta que não quer ser mais um na multidão, que quer ser notado, lido, ouvido, e ter sua canção “no coração de uma mulher”. Uma letra delicada e forte narrando o desejo do poeta se realizar como poeta.

Depois de chamar a atenção Yzalú entrega um disco para mostrar quem é. “Minha bossa é treta” não é mais um disco de rap pura e simplesmente para se perder entre tantos; a bossa que traz seu violão é treta porque ao contrário da bossa nova não vai cantar questões praianas e burguesas, Yzalú veio com seu violão, sim, mas para cantar a favela com suas rimas, é a mulher negra falando sobre amor, sua luta diária, seu caminho a trilhar, seu desejo por luta e revolução.




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