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A 37 ANOS

Yolanda González, militante trotskista, assassinada pelos fascistas na Transição espanhola

Yolanda González era basca, de família operária, trabalhava na limpeza, estudava e militava ativamente nas fileiras do trotskista Partido Socialista dos Trabalhadores (PST).

Diego Lotito

Madri | @diegolotito

quinta-feira 2 de fevereiro de 2017| Edição do dia

Vivia em um andar humilde, como todos no bairro operário de Aluche (Madri). Na noite de 1º de Fevereiro de 1980, foi sequestrada por um bando fascista, para logo ser torturada e assassinada.

Yolanda González, mulher, basca, jovem e revolucionária

Yolanda González tinha 19 anos quando foi sequestrada por um comando da “Força Nova”, o partido do fascista espanhol Blas Piñar, uma das organizações ultradireitistas que atuavam com total impunidade durante a Transição espanhola. Na noite do 1º de Fevereiro de 1980, quatro de seus integrantes foram buscá-la em seu andar no bairro de Aluche, Madri. Yolanda foi sequestrada, torturada e assassinada com vários disparos na cabeça por Emílio Hellín, seu assassino confesso. Seu corpo foi abandonado em uma vala da estrada de San Martín de Valdeiglesias.

Yolanda era basca, de família operária. Vivia em Madri, trabalhava na limpeza, estudava em um centro de formação profissional e militava ativamente como Coordenadora de estudantes de Ensino Médio e formação profissional, assim como nas fileiras do trotskista Partido Socialista dos Trabalhadores (PST).

Seu brutal assassinato foi respondido de forma imediata com mobilização popular, realizando assembleias em todos os centros de estudos e uma greve geral do ensino no dia 5 de Fevereiro, convocada pela Coordenadora de Estudantes. Muitas foram as mobilizações que feitas por Yolanda, que não cessaram até conseguir a detenção, o processamento e a condenação dos autores e instigadores do crime. Mas a luta por justiça a Yolanda não terminou ali. Apenas começava.

A impunidade e a cumplicidade do Estado, ontem e hoje

No final de Fevereiro de 2013, em um artigo publicado pelo diário El País, veio à luz que Emilio Hellín Moro, o assassino confesso de Yolanda González em 1980, trabalha há anos “para os Corpos e Forças da Segurança do Estado espanhol em casos judicializados e forma seus agentes em técnicas forenses de espionagem e rastreamento informático”. Ele o faz sob o nome falso de Luis Enrique Helling.

Essa informação foi confirmada por fontes oficiais. A Direção Geral da Polícia e Guarda Civil contrataram os serviços de Emilio Hellín Moro e sua empresa, News Technology Forensics, entre 2006 e 2011 para cursos de especialização e investigações em casos de terrorismo e crime organizado. Ao tomar conhecimento da notícia, o Ministério do Interior do atual governo do PP deu a entender que sua colaboração terminou em 2011. Porém, não foi assim. Fontes não oficiais da Guarda Civil afirmam que o ultradireitista seguiu colaborando com o instituto armado.

A notícia comoveu familiares, amigos, antigos companheiros de militância de Yolanda e todos os que nos indignamos com que os assassinos do Franquismo e da Transição caminhem livremente pelas ruas. Seus crimes ainda gozam de absoluta impunidade. O caso de Emilio Hellín é apenas uma evidência a mais do círculo de cumplicidades e impunidade entre o regime surgido da Transição e os assassinos dos lutadores operários e populares.

A trama obscura de Força Nova, Emilio Hellín e o assassinato de Yolanda

No início dos anos ’70, o engenheiro de Telecomunicações Hellín começou a colaborar com o Serviço de Documentação da Presidência do Governo (SECED), serviço secreto criado pelo almirante Carrero Blanco, que seguiu trabalhando sob o primeiro governo da Monarquia, presidido por Carlos Arias Navarro. Graças à sua experiência nos esgotos, durante a transição democrática, Hellín, com 32 anos, foi chefe de segurança da Força Nova do distrito madrileno da Arganzuela, e chefe do denominado “Grupo 41”, do para-policial Batallón Basco-Espanhol (BVE), antecedente dos GAL (“Emilio Hellín e o crime de estado durante a transição”, Mariano Sánchez Soler).

As conexões de Hellín com os serviços de segurança do Estado eram amplamente comprováveis. Foi assim que no assassinato de Yolanda se pôs em movimento uma trama obscura organizada em cada detalhe, que dispunha de armamento, inteligência, documentação e apoio logístico. O crime de Yolanda não foi obra de alguns ultra violentos, mas resultado de um grupo para-policial dedicado à guerra suja, organizado e apoiado diretamente desde instituições do Estado.

Poucos dias depois do assassinato de Yolanda, foram detidos vários integrantes da “Força Nova”, porém foi a mobilização popular a qual impediu as tentativas de encerrar o caso sem condenações. Emilio Hellín e Ignacio Abad, um de seus cúmplices, foram condenados como autores materiais do assassinato, enquanto outro grupo recebeu condenações menores. Contudo, o que nunca se investigou foi a rede de relações entre esses assassinos e as forças repressoras do Estado.

A suspeita mais que fundada de que o grupo paramilitar atuava sob o amparo das forças repressoras do Estado nunca se investigou, quando existiam provas evidentes. Apenas um dia depois de assassinar Yolanda, o assassino Hellín dormiu na casa de um policial de Vitoria que, interrogado posteriormente, declarou “que Hellín tem contato com importantes peixes gordos dos corpos de Segurança e o Exército”.

Tampouco se deu importância ao fato de que do grupo de sequestradores tomavam parte um Policial Nacional e um integrante da Guarda Civil (irmão de Hellín), e quem deu a ordem do sequestro e assassinato foi outro Guarda Civil, David Martínez Loza, chefe de Segurança da Força Nova. Nem tampouco se investigou que os assassinos contavam com armamento do exército, além de uma equipe de comunicação sofisticada para a época a que apenas tinham acesso forças armadas do Estado. Nada disso teve importância, e apesar das denúncias de familiares e companheiros de militância, as cumplicidades no Estado resultaram em completa impunidade.

Emilio Hellín foi detido em 7 de Fevereiro de 1980 e condenado a 43 anos de prisão por seu crime brutal, mas desses apenas cumpriria 14. Em agosto do mesmo ano protagonizou sua primeira tentativa de fuga, ajudado por presos comuns da prisão de Alcalá de Henares. Apesar disso, em 20 de Fevereiro de 1987, o juiz José Donato Andrés deu permissão a Hellín para sair da prisão de Zamora com uma premissa de seis dias. De nada serviram os recursos apresentados pela família de Yolanda e seus companheiros do PST. Com a ajuda da “justiça”, Emilio Hellín fugiu novamente, saindo da Espanha com um DNI legal e com toda sua família para o Paraguai, onde encontraria “trabalho” nos serviços de inteligência do genocida Alfredo Stroessner.

Após dois anos de fuga, foi descoberto por um jornalista e posteriormente extraditado e devolvido à prisão. No entanto, até julho de 1995 foi premiado com um regime de semiliberdade e em 1996 é liberado impunemente, havendo cumprido apenas 14 anos em prisão.

Passariam poucos anos até que o Estado contratasse os serviços do “experimentado” Emilio Hellín. Sob diretivas do Ministério do interior, desde o ano de 2006 até 2011, ou seja, durante os governos do PSOE e do PP, Hellín e sua empresa gozaram de vários contratos como “assessores” das forças repressoras do Estado espanhol. Esse lugar é designado para o assassino de Yolanda pelo regime. Embora seja indignante, não é estranho... O fascista Hellín sempre foi “um dos seus”.

A Transição, “modelo” de repressão e impunidade

Se toda essa trama de impunidade foi possível, é porque a Transição espanhola “modelo”, que quis se mostrar ao mundo como exemplo a seguir, foi baseada na repressão aos lutadores operários e populares e na mais escandalosa impunidade.

Distante da grande quimera de uma “Transição modelo”, essa foi uma etapa de repressão cruel. Como exemplo, recordemos os sucessos de Vitoria de 1976 (a repressão e o assassinato dos operários em greve), os crimes de Atocha, a repressão às greves operárias e estudantis todos esses anos. Como demonstra Mariano Sánchez Soler em seu livro “A Transição Sangrenta”, o trânsito à “democracia” nascido do acordo entre o Rei, a direita, o PSOE, o PCE e os sindicatos majoritários, foi imposto com a mais cruel violência.

A impunidade foi “pilar” da transição, começando pela Lei de Anistia, que garantiu aos franquistas seguirem livres após 40 anos de repressão e centenas de milhares de assassinatos, que nem sequer puderam se reivindicar enquanto perseguidos políticos. Esse pacto de impunidade e silêncio, acatado por todos os partidos do regime (inclusive o PSOE e o Partido Comunista da Espanha), foi a base da democracia pactuada de ’78, essa “democracia para ricos” que manteve intacto o aparato das forças de segurança, dos que transformados de “cinza” a “azul” seguiram atuando durante a Transição e em diante contra os trabalhadores e o povo.

Centenas de mulheres e homens lutadores foram vítimas dos bandos de ultradireita e das “tramas obscuras” orquestradas desde o Estado. Emilio Hellín Moro e a escória da “Força Nova” estavam unidos por milhares de laços com as mais altas esferas do Estado e as forças de repressão. As mesmas que hoje seguem utilizando os serviços de cachorros assassinos como Hellín para formar novos repressores. Yolanda foi mais uma das vítimas dessa violência e seu crime foi um verdadeiro “crime de Estado”.

A luta pelo castigo aos responsáveis políticos e uma investigação independente das responsabilidades políticas desse caso segue ainda pendente.

“Yolanda no país dxs estudantes”

O diário basco Naiz emitiu o documentário “Yolanda no país dxs estudantes”, que estreou em 2013 e foi realizado para difundir a memória de Yolanda González e os crimes da transição.

O documentário foi dirigido e produzido por Isabel Rodríguez, companheira de infância de Yolanda González. Em uma recente entrevista concedida a GARA dizia que “o carinho por Yolanda foi o motor para fazer o documentário” e que pretende ser “uma homenagem aos que foram assassinados por lutar por um mundo melhor durante a chamada transição e um instrumento para difundir sua memória”.

O documentário pode ser assistido na íntegra neste link.

Yolanda González, presente! Agora e sempre!

Tradução: Vitória Camargo




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