Witzel: entre indas e vindas, sem garantir água para as favelas e acenando aos empresários

Após reunião entre governadores e o governo federal, Wilson Witzel abaixa tom da polêmica com Bolsonaro, pedindo calma aos empresários. Mas no dia seguinte contraria Bolsonaro e Crivella, que não hesitou em atender ao chamado do presidente, e mantém a quarentena. Mas segue com um tom de lamento diga que não conseguirá seguir “as medidas protetivas” sem a ajuda de Bolsonaro.

quinta-feira 26 de março| Edição do dia

Entrevistado logo após a reunião com o presidente Bolsonaro, que o havia alfinetado em sua infame declaração em cadeia nacional na véspera com a expressão “política de terra arrasada” ao se referir as políticas de isolamento da quarentena fluminense, Witzel, que já havia respondido em uma nota individual as críticas. Nela tratou de abaixar o tom da polêmica e adotou um discurso mais conciliador com o empresariado:

Apenas depois de 4 de abril poderemos fazer uma avaliação mais precisa sobre o achatamento da nossa curva, e sobre a possibilidade de hospitalizar todos. (...) teremos condições de avaliar melhor e fazer ajustes na nossa atividade produtiva. Não queremos quebrar o Brasil ou exterminar empregos, mas preservar vidas.

Se na véspera, a resposta de Witzel havia ido ao sentido de reafirmar a quarentena , inclusive apontando que o discurso de Bolsonaro contraria as recomendações da OMS, após a reunião ele falou até em “rever a quarentena”. Para o empresariado, ensaiou inclusive se apropriar do discurso do presidente, fazendo uma crítica de que Bolsonaro não estaria sendo suficientemente contra a quarentena: “Politicamente é possível falar qualquer coisa. A política permite o diálogo das ideias. Mas só pode ser cumprido quando se assume a responsabilidade e se coloca no papel” O que explica essa mudança repentina?

Uma primeira pista para entender esses reveses é observar as falas do empresariado brasileiro na última semana, minimizando o impacto da tragédia de perder milhares de vidas simplesmente por falta de estrutura médica e hospitalar, para ficar claro que o principal interesse destes capitalistas é o lucro, passando por cima até mesmo das vidas humanas. Para esta classe, pouco importa se milhares de trabalhadores, pobres, negros e mais velhos em sua maioria vão morrer. O que importa é “não quebrar a economia”, que na prática tampouco se orienta pela preocupação em manter os empregos, mas visa em primeiro lugar garantir o lucro dos capitalistas. Prova disso é a “MP da Morte” anunciada dias antes por Bolsonaro, que previa que os trabalhadores passariam 4 meses sem salário, para “impedir que as empresas quebrassem”. Assim se vê que a “economia” que Bolsonaro e Paulo Guedes querem preservar é essa que retira recursos do SUS para manter o pagamento da dívida pública, no melhor interesse dos acionistas do mercado financeiro.

Witzel, assim como Bolsonaro, defende a classe capitalista, e daí temos como resultado um dos aspectos mais decadentes do capitalismo: como o direito de milhões de trabalhadores de fazer quarentena choca-se com os milhões de reais que estes empresários terão que perder para que isto aconteça, a saída mais radical possível no discurso da direita é buscar negar a quarentena a todos. Assim, numa tacada só defendem que os trabalhadores se exponham, ao mesmo tempo que não apresentam nenhum plano emergencial para os que são obrigados a seguir atuando, como os trabalhadores da Saúde. Legitima-se então as mortes por um darwinismo social: para Bolsonaro apenas os fracos morrem pelo Corona...

É entre esses polos que Witzel tenta se equilibrar, tentando mostrar a população que está usando a máquina estatal para enfrentar o Corona, ao mesmo tempo que apazigua os setores mais desesperados com prejuízos da burguesia. O problema é que esta contradição é insustentável: faltam materiais básicos para proteção dos profissionais de saúde, não há testes em número suficiente para um isolamento eficaz dos contaminados, que aumentam de número a cada dia. A verdade é que sem tocar no lucro dos empresários, não há forma possível de combater essa pandemia.

Enquanto isso Witzel agita aqui e ali medidas que na prática não irão resolver muita coisa, apenas para mostrar serviço: após a reunião anunciou um pacote de “ajuda” para 1 milhão de famílias da baixada fluminense. O valor da ajuda? 100 milhões, o que na prática dá um total de 100 reais para cada família. Agora ele anuncia que irar fichar os banhistas que desrespeitarem a quarentena, intensificando mais ainda a presença ostensiva da PM nas ruas, principalmente em áreas turísticas. Isso enquanto o povo pobre nas favelas sequer tem água para lavar as mãos, como foi relatado no Complexo do Alemão em 23 de março ou enquanto a merenda estocada nas escolas e que poderia ser distribuída em cestas básicas permanece trancada.

Não podemos esperar que dessa irracionalidade que se tornou o sistema capitalista em sua decadência possa oferecer alguma saída para esta crise que não implique em grande dor e sofrimento para os trabalhadores. É preciso mais do que nunca que a classe trabalhadora se una para conduzir estas medidas de emergência, com um plano de luta contra estes governos, e para fazer com que os capitalistas, que produziram esta crise, paguem por ela!




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