Gênero e sexualidade

SEXUALIDADE E REVOLUÇÃO/W. REICH

Wilhelm Reich, sexualidade e juventude: um pensamento atual? [Parte I]

Gilson Dantas

Brasília

domingo 10 de setembro| Edição do dia

O objetivo desta breve nota é o de retomar o “debate W. Reich” sob determinado ângulo e procurando situá-lo em perspectiva histórica, na linha de resgate crítico do seu pensamento, com destaque para seu livro O combate sexual da juventude.

Em obras do primeiro W. Reich, como, A irrupção da moral sexual repressiva, A revolução sexual e O combate sexual da juventude, são numerosas as indicações de como a permanência, mesmo em crise, da família tipicamente burguesa, sempre é funcional para a reprodução da exploração, da submissão e de uma psicologia de massas dependente do chefe, do mandachuva, do doutor ou do sacerdote (do opressor e seus ideólogos); e que essa é a chave para a compreensão da miséria sexual dos jovens.

Em vez de separar – como fazem comumente os seus seguidores modernos, os psicólogos neo-reichianos – a sexualidade das relações sociais e da dominação de classe, Reich demonstra, com todas as letras, como não existe uma “solução psicológica” e nem “corporal” para o problema social e sexual da juventude no capitalismo (e nem nas sociedades burocráticas pós-capitalistas, é preciso acrescentar). E defende veementemente o sexo como fonte de prazer e apenas ocasionalmente para a reprodução.

Ele vai se perguntar: que instituições inibem o prazer e por que? Que instituições recalcam o prazer sexual combatendo a masturbação, o homoerotismo, o ato sexual entre os jovens desde a puberdade e terminam sendo responsáveis pelas perturbações que atingem a juventude em massa, afetando sua capacidade de ter prazer e de dispor de uma sexualidade saudável, natural?

Que instituições pregam a abstinência sexual e promovem a moral sexual hipócrita que conduz, de um lado às diferentes formas de violência, degeneração e de recalques sexuais e de outro, em uma minoria, à falsa solução da “castidade”?

Como combater tais perturbações e trazer de volta o direito à autorregulação da vida sexual para a satisfação, para o prazer e a camaradagem?

O combate sexual da juventude, de Reich, se desenvolve nestas duas esferas e das duas se sai muito bem tanto para seu tempo (a Alemanha de pouco antes da ascensão do nazismo) quanto para o nosso onde tais mazelas são preponderantes por mais que o sexo e a sensualidade tenham ganho visibilidade e chegado ao ponto de serem tratados, pelo capitalismo, como mercadorias e verdadeiras indústrias de enorme impacto.

As últimas três décadas, conservadoras por excelência, onde predominou a ausência de revoluções proletárias e a restauração burguesa (sobretudo nos países do mal chamado socialismo real), impactou negativamente a vida cultural e sexual.

Mesmo com o capitalismo desenfreadamente transformando sexualidade em mercadoria, é fato que, simultaneamente, também ganhou peso a influência restauracionista moral e religiosa da virgindade, castidade e casamento compulsório. E outras formas de reação nos costumes. Afora processos como o do boom pentecostal em países como o nosso, por exemplo.

Reich apostava na luta anticapitalista e no engajamento político-sexual da juventude trabalhadora – e seus partidos revolucionários – na perspectiva de revolucionar os costumes e as relações sociais opressivas. E inspirava-se explicitamente e diretamente no exemplo da jovem União Soviética, bolchevique, na condição de referência do que ele sonhava para a juventude alemã e mundial.

Ele se dava conta de que lá se planejava atenção médica e contraceptiva pública, gratuita e accessível a todos, centros de orientação sexual de qualidade em todos os níveis e igualmente públicos e gratuitos, aborto livre e de qualidade para quem dele necessitasse, alojamentos juvenis em massa (abertos a qualquer jovem que quisesse se desprender da opressão familiar), creches e lavanderias públicas e gratuitas que permitissem à mulher total independência seja também para ter filhos se fosse seu desejo, seja para simplesmente ter direito à vida sexual satisfatória. E isso em meio a dificuldades econômicas inauditas e cerco imperialista.

Este era o processo que estava em marcha na URSS de Lenin e Trotski e este era o processo que Reich lutava para desenvolver na Alemanha desde o terreno do partido comunista e suas lutas.

Em 1929 ele chega a ir a Moscou para conhecer a experiência soviética de perto, e durante vários anos organizou, mobilizou e esclareceu a juventude sobre o tema da emancipação sexual e política.

As condições históricas, no entanto, não irão favorecer o sonho libertário de Reich.
Sufocada por todas as pressões e privações provocadas pela invasão militar das maiores potências industriais do mundo capitalista, isolada e com o maior partido revolucionário da história sofrendo degeneração interna, a Rússia bolchevique irá afundar, retrocedendo em todas as conquistas desde a esfera política à da sexualidade.

Na verdade, historicamente, a degeneração stalinista da Revolução Russa começou em torno de 1924 (Termidor), sendo coroada com a Constituição de 1936, de Stalin. Esta fez retroceder todos os avanços democráticos para as mulheres e para a juventude, assim como recolocou como modelo social a família, ou seja, a fonte primeira da repressão sexual. [Sobre esse processo de degeneração política da URSS pode-se ler, de Trotski, Bolchevismo e stalinismo [existe edição de 2010, ISKRA/Centelha Cultural].

É importante ter claro aqui, que a degeneração stalinista do partido foi o processo fundamental em tudo isso. Aquela reação política e nos costumes se explica não pelas pressões sociais e econômicas existentes na URSS, mas principal e fundamentalmente pelo caráter da sociedade que começava a ser alterado pelo stalinismo. Degenerada a direção política da URSS, a sociedade ganhava formas burocráticas, opressivas, dominada por uma casta parasitária – ainda que não fosse uma classe –, autoritária, que só podia sobreviver regulando e controlando a miséria e a escassez em todos os planos, inclusive a miséria sexual.

A verdade é que uma sociedade autoritária, independente da casta ou classe social no comando, não pode conviver com a liberdade sexual e de costumes.

No seu A revolução traída, Trotski irá explicar porque os avanços da revolução de Outubro na esfera da sexualidade e da mulher (aborto, homossexualidade, divórcio, controle da natalidade etc) foram liquidados na era do Termidor stalinista e houve o retorno ao que Trotski chama de “culto à família” ou “Termidor no seio da família”.

Por razões semelhantes, o stalinismo precisava repelir a psicanálise. E tornar “malditos” autores como Reich. Tudo isso se dá em um mesmo processo onde a própria psicanálise – incluindo Freud – mergulhava, por sua vez, em um processo de elitização e acomodação.

O partido ao qual Reich era filiado (Partido Comunista), na Alemanha, ao adotar uma estratégia não-revolucionária e submetida ao emergente stalinismo da URSS, irá na verdade tornar-se cúmplice da ida ao poder de Hitler, facilitando o trabalho da contrarrevolução na Alemanha.

Como a Alemanha era a chave da situação internacional, o resto da história é conhecido: instala-se todo um período de retrocesso político na Europa e a marcha da contrarrevolução na própria URSS.

Reich é arrastado sob o peso reacionário desse processo.

Decepcionado e sem compreender a degradação política da URSS e dos partidos comunistas por todo lado, impressionado pelo caráter de massa do nazismo e do fascismo (que, em todo caso, só pôde levantar a cabeça depois de esmagar a revolução proletária), Reich será uma das vítimas daquela etapa.

***

Perseguido pelos psicanalistas conservadores (Freud à cabeça) por tratar de fazer a ponte entre marxismo e psicanálise e expulso do partido pelos stalinistas (falsos comu¬nistas), Reich – do ponto de vista teórico e político – jamais compreenderá o que estava acontecendo na Alemanha e na URSS.

Ele imaginará, no entanto, para o processo, uma explicação falsa já que, como tantos intelectuais do seu tempo, não se dá conta de que o comunismo não era comunismo e o partido bolchevique há muito não mais existia, apesar de formalmente continuar usando o mesmo nome e continuarem ocorrendo determinados rituais agora com conteúdo puramente burocrático (stalinista).

A sociedade russa era propagandeada como o socialismo já implantado e resolvido, quando não passava de uma sociedade em transição do capitalismo ao socialismo, carregando todos os defeitos da herança capitalista – aí incluídas as pressões econômicas, sociais e morais. E não tendo ainda encontrado as melhores condições para fazer valer o novo das relações realmente socialistas. Na verdade, a URSS degenerava.

Era um equívoco pensar na URSS como “sociedade socialista”, muito menos comunismo; era uma sociedade de transição, ou para a era da revolução socialista mundial ou para o retrocesso, a restauração.

O processo histórico não ajudou na reflexão de W. Reich e começou a pesar, muito mais forte agora, a falta de formação marxista mais sólida por parte do nosso autor.

[Não esqueçamos que antes de estudar medicina ele tinha sido, por três anos, oficial do exército imperialista da Áustria, na I Guerra mundial e que jamais, por exemplo, levou a sério a obra de Trotski ou mesmo chegou a estudar detidamente Lenin e sua estratégia de poder operário; por isso mesmo, Reich chegou ao extremo de defender, nos primeiros anos da década de 30, a figura de Stalin, como representante do comunismo e coisas do gênero].

Dessa maneira, o Reich que proclamava o trabalho o amor e o conhecimento como bases da vida social e da emancipação dos homens e das mulheres, não consegue enxergar que, na base de tudo, na base de toda preocupação e todo programa libertário está a classe trabalhadora, em sua condição de sujeito. O amor, o conhecimento e a vida social não podem encontrar base para sua reprodução humana e saudável sem que aqueles que criam a riqueza e a produção material, os trabalhadores, se imponham como gestores da sociedade, contra a burguesia e contra toda forma de burocracia.

E esse foi o problema da URSS, onde a classe trabalhadora foi expropriada politicamente, assim como, de diferentes formas, foi o impasse de toda a experiência chamada socialista do século XX.

Jamais será esta a compreensão de Reich: ele mergulha pura e simplesmente na decepção política e histórica.

Pouco a pouco os elementos menos dialéticos do seu pensamento vão se impondo, paulatinamente ele vai cristalizando seu pessimismo, absolutizando e finalmente mistificando um aspecto do seu pensamento (a sexualidade) posto acima dos demais.

Também vai se fechando como intelectual, em uma forma de loucura e delírio que marcarão todas as obras das suas últimas décadas de vida (anos 40 e 50; nesses marcos, ele será perseguido e preso pelo imperialismo norte-americano a quem ele, de toda forma, já dedicava grande admiração e morrerá, em novembro de 1957, na prisão).

Uma vez nos Estados Unidos, ele mesmo tratará de reformatar grande parte da sua obra, alterando seus textos antigos e revolucionários para adequá-los ao novo Reich, às suas novas formulações, agora política e socialmente conservadoras.
[crédito da primeira imagem: site orgonomia.com.br] [crédito da segunda imagem: site ifp-reich.com.br]

[Continua na parte II]




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