Teoria

WILHELM REICH

Wilhelm Reich ontem e hoje: contradições e avanços do reichianismo

Wilhelm Reich importante pensador do século XX, ainda não foi devidamente e criticamente resgatado pela esquerda. Seu livro O combate sexual da juventude vem precisamente a ser um das mais importantes e, ao mesmo tempo dos menos conhecidos de Reich

Gilson Dantas

Brasília

sexta-feira 24 de abril de 2015| Edição do dia

Wilhelm Reich importante pensador do século XX, ainda não foi devidamente e criticamente resgatado pela esquerda. Seu livro O combate sexual da juventude vem precisamente a ser um das mais importantes e, ao mesmo tempo dos menos conhecidos de Reich[1].
Apesar dos avanços técnicos da medicina e da sexologia em relação à época de Reich, nos métodos anticoncepcionais (pílula, camisinha mais moderna, pílula do dia seguinte etc) por exemplo, chega a ser chocante o quanto nos soam familiares e cotidianas, nos dias atuais, as denúncias e o diagnóstico desenvolvidos por Reich no seu tempo sobre a vida sexual na juventude e suas perturbações.

A permanência, em todos os níveis da população, do modelo de família tipicamente pequeno-burguesa, machista, patriarcal, heteronormativa (e sempre funcional para a reprodução da exploração, da submissão e de uma psicologia de massas dependente do macho, da cultura dominante ou do sacerdote) é chave para a compreensão da esfera da miséria sexual dos jovens.

Reich aparece - especialmente no O combate sexual – como defensor apaixonado de que a juventude mais inquieta leve um combate pelo seu direito ao prazer, pela sua afirmação como sujeito social em todas as esferas. Ele critica a separação formal da esfera sexual da social, assim como a ideologização da ideia de família.

Ele defende o sexo fundamentalmente como fonte de prazer; polemizando com os defensores da relação estrita sexo e reprodução ou que secundarize o prazer erótico.

Reich vai se perguntar: que instituições inibem o prazer e por quê. Quê instituições recalcam o prazer sexual combatendo a masturbação, o homoerotismo, o ato sexual entre os jovens desde a puberdade e terminam sendo responsáveis pelas perturbações que atingem a juventude em massa, afetando sua capacidade da troca prazerosa e da capacidade de dispor de uma sexualidade saudável, natural. Quê instituições promovem a moral sexual hipócrita que conduz, de um lado às diferentes formas de violência, degeneração e de recalques sexuais e de outro, a falsa solução da “castidade”.

Como combater tais perturbações e trazer de volta o direito à auto-regulação da vida sexual para a satisfação, para o prazer e a camaradagem?

Esse é um pouco o conteúdo daquele seu livro O combate sexual... Sua leitura não deixa dúvida sobre a atualidade do seu pensamento crítico, das suas respostas contundentes e, em boa medida, atuais. O que mostra o quanto o capitalismo se atualiza mas sempre preservando suas típicas formas de opressão, como sistema fundado na exploração do trabalho humano, na reprodução das classes sociais que é.
O Reich que merece ser política e sexualmente resgatado vem a ser precisamente o de seu momento revolucionário. Isto é, o W Reich que ao mesmo tempo em que estava convicto da importância das descobertas de Freud, também se deu conta de que a miséria sexual e emocional das massas não teria solução por fora da revolução socialista.

Seu próximo passo foi o de impulsionar centros de educação sexual e desenvolver todo um movimento no seio da juventude revolucionária, proletária, que chegou a abarcar 40 mil jovens e um grande número de folhetos, panfletos e livros tudo isso na perspectiva de levantar, por métodos revolucionários, um governo dos trabalhadores que implantasse o que ele chamava de sexpol (política sexual). Isto é, libertar as novas gerações da educação deformadora e castradora da escola e da família tradicional, burguesa.

Não se pode jamais, portanto, perder de vista o Reich do tempo em que jovens se inscreviam em massa, às dezenas de milhares, no movimento sexpol de Reich. A burocracia dos PCs não podia permitir esse projeto e se lançou a abortá-lo, trabalho consolidado em seguida, em 1933, pelas hordas nazistas agora no poder de Estado.

Aquele Reich revolucionário continuará sempre atual, enquanto exista capitalismo e também diante de qualquer movimento autoproclamado comunista ou socialista apenas de palavra, e que, na prática, seja contrário à democracia operária e à plena intervenção da juventude como sujeito revolucionário em todas as esferas, inclusive na sexual.

No entanto, Reich como também a escola de Frankfurt, carentes de uma análise politicamente mais profunda sobre as derrotas do proletariado europeu, particularmente na Alemanha, tenderão a dar uma explicação fundamentalmente nos marcos da psicologia (caso da “psicologia analítica social” de Fromm), como ocorrerá com Reich com suas categorias cada vez mais psicologizantes.

Reich estava carregado de razão com seu movimento pela revolução cultural e sexual como elemento inseparável da revolução social.

Mas ele não manterá aquela conexão. Esta vai desmoronando no pensamento de Reich a cada ano e sua teoria do orgasmo e mais tarde do ”orgone” conformam uma brutal despolitização da questão sexual e que vai sendo funcionalizada nos marcos do capitalismo, pelo próprio W Reich, que passa a incensar, por exemplo, a democracia norteamericana. Não estamos mais diante do mesmo autor de O combate sexual da juventude e ele mesmo, tratará de reescrever vários dos seus livros uma vez morando nos Estados Unidos. Seu livro A psicologia de massas do fascismo, lançado em 1933, será “reescrito” em cada nova edição através de novos Prefácios, que vão perdendo de vista a noção social e histórica do nazismo por exemplo.

Em suma, a própria crítica psicanalítica – que em Freud e no Reich dos primeiros tempos era uma crítica da pseudo-natureza do “homem burguês - vai sendo perdida por Reich, que passa a naturalizar o individuo desta sociedade.

E também tenderá a abraçar, em seus últimos anos, visões místico-biológicas sobre a vida. Muitos dos neo-reichianos atuais aderem a essa fase do Reich tardio que já nada tem a ver com um autor que se ocupava da miséria sexual do proletariado austríaco ainda quando era assistente de Freud na clínica psicanalítica gratuita de Viena. E mais ainda quando fundou em Viena uma Sociedade socialista para aconselhamento sexual, entidade que abrirá em 1929 vários centros de higiene sexual que lutam pela legalização do aborto.

Certamente o W Reich a ser reivindicado será aquele considerado ovelha negra pelos psicanalistas do seu tempo, expulso do PC alemão burocratizado pelo stalinismo e que dedicou vários anos da sua atividade profissional e revolucionária a formar milhares de operários em uma nova consciência que unia a luta pela revolução social à luta contra toda forma de conservadorismo sexual. E, portanto, pelo direito ao aborto livre e gratuito, aos métodos anticoncepcionais e alojamentos juvenis públicos e contra a família repressora, castradora e inibidora da sexualidade natural.

[1] O combate sexual da juventude-COMENTADO, publicado no Brasil anos atrás, pela ISKRA/Centelha Cultural, está disponível com Lúcia: centelhaculturallivros@gmail.com.

Sobre Wilhelm Reich

Reich (1897-1957), cursa medicina, em Viena, de 1918 a 1922. Conhece a obra de Freud e fascina-se com os estudos deste que mostram que a sexualidade começa na infância (sexualidade e procriação não se confundem). Em 1920 ele é aceito pelo grupo de Freud em Viena como psicanalista. Começa a preocupar-se com a condição social dos neuróticos, passa rapidamente à crítica radical das estruturas sociais e – influenciado pelos movimentos revolucionários e pelo seu próprio trabalho clínico com a juventude operária austríaca e depois alemã – passa para o terreno da prevenção da neurose no social e na sexualidade perturbada, portanto passando a articular cura psicanalítica com revolução social.

Percebe o raio de ação limitado da terapia individual. Nas jornadas operárias de julho de 1927, duramente reprimidas pela polícia austríaca, com cem mortos, Reich tem seu batismo de fogo político. Imediatamente ele ingressa no Partido Comunista da Áustria. De 1928 até início dos 30, teremos os anos de sua máxima atividade de massa, fundando centros de higiene sexual junto à juventude operária. Viaja à URSS em 1929, já na era Stálin e lá irá perceber a relação aguda entre retrocesso político e sexual, mas o fará desde um ponto de vista idealista e essencialmente anarquista. Em 1930, em discussão acalorada, rompe com Freud – entre outras coisas discute a necessidade da superação da família compulsória – e aquele declara que “seu ponto de vista – de W Reich - não está mais na esfera da psicanálise”. W Reich publica em 1932 O combate sexual da juventude. Em 1932 a direção burocrática do PC proíbe a divulgação da obra de Reich no seio da juventude do partido, mas tem que recuar, temporariamente, diante do protesto das organizações de base juvenis. No inicio de 1933, os nazistas tomam o governo. A essa altura W Reich já anda perdido, confuso e vai desembarcando de qualquer perspectiva revolucionária. Ao longo de 1934 começa suas investigações “biológicas”, define “vegetoterapia” e dá os primeiros passos fora da lucidez que o caracterizara antes. Morrerá na prisão, nos Estados Unidos, de ataque cardíaco em 1957. No entanto, seus escritos revolucionários, especialmente O combate sexual da juventude, já estavam definitivamente inscritos na história como referência a ser levada em conta em qualquer debate contemporâneo sério sobre a sexualidade, a família compulsória e o papel da repressão sexual nas sociedades capitalistas e burocráticas.




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