Teoria

TEORIA

Walter Benjamin e Leon Trotsky: escrito de Terry Eagleton

Reproduzimos o brilhante texto publicado por Terry Eagleton em 1981 sobre Walter Benjamin e Leon Trotsky para o capítulo final de seu livro "Walter Benjamin - rumo a uma crítica revolucionária".

segunda-feira 29 de agosto| Edição do dia

[Muito do que aprendemos sobre Benjamin nas universidades hoje é sob o olhar de um certo academicismo que ignora suas intenções concretas de emancipação da humanidade do capitalismo. Apresenta-se, muitas vezes, um Benjamin sem aspirações reais, quase que uma visão boêmia desse célebre pensador que se enfrentou com o imperialismo, o fascismo e o stalinismo. O texto de Eagleton também é ponderado, e aponta os seus limites, mas nos traz uma visão afinada sobre as convergências entre o arquiteto do exército vermelho e dirigente da revolução de Outubro e um dos pensadores marxistas mais sui generis que até hoje se faz atual pela agudeza no trato de tantos temas como linguagem, história, arte, literatura, etc. A tradução é de Guilherme Kranz.]

No ano de morte de Walter Benjamin (1940), um outro intelectual judeu revolucionário e exilado encontrava seu destino nas mãos da reação política. Vítimas do fascismo e do stalinismo, respectivamente, e signos conjuntos de sua cumplicidade letal, Walter Benjamin e Leon Trotsky revelam uma série de paralelos que permanecem a ser seriamente estudados. Nós sabemos que Benjamin leu Trotsky com admiração: ele via com grande estima Para onde vai a Inglaterra? e devorou ansiosamente a sua autobiografia Minha Vida e A História da Revolução Russa, declarando sobre essas duas últimas obras que nunca havia assimilado nada com tanta intensidade durante anos. As visões políticas dos dois homens eram em muitos aspectos idênticas. Ambos se opuseram à insanidade ultra-esquerdista do Terceiro Período*, jogando a ameaça fascista para os dentes da complacência criminosa do Comintern; ambos igualmente rejeitaram as ilusões da social-democracia, como podemos ver nos comentários mordazes de Benjamin à capitulação ao fascismo por parte da social-democracia alemã. A concepção de Frente Popular de luta anti-fascista, com a qual Trotsky nunca deixou de polemizar é bem caracterizada pelo desprezo de Benjamin às ilusões de esquerda ao “progresso” e às alianças com a cultura tradicional. O conceito de história como uma progressão triunfal de tesouros culturais, abominável para Benjamin, é um traço típico da ideologia da Frente Popular. Escrevendo sobre a Frente Popular francesa em 1937, ele fala do “fetiche da maioria de esquerda”, que não se envergonha em defender uma política que causaria revoltas se fosse praticada pela direita. O seu “Conversas com Brecht” nos trazem o próprio interesse de Brecht nos escritos de Trotsky, sua reação cética ao dogma do “socialismo em um só país” e à degeneração do estado operário Soviético. No âmbito da revolução cultural, Trotsky e Benjamin igualmente concordam, apesar de o último estar à esquerda do primeiro. Ambos rejeitam o proletkult, buscando conservar aspectos da cultura tradicional e ao mesmo tempo se manter criticamente aberto às expressões de vanguarda (avant-guarde); ambos dão as boas vindas às descobertas de Freud e fazem alianças ativas com os surrealistas; ambos combinam a erudição e sensibilidade dos intelectuais “tradicionais” com uma insistência nas tarefas “orgânicas” da cultura socialista, sejam elas campanhas de alfabetização ou a proletarização essencial do artista.

Há um sentido em que seria degradante à memória de Leon Trotsky continuarmos esse paralelo por muito tempo. Pois Trotsky foi um dos maiores revolucionários marxistas do século XX, incomparavelmente mais significante para o curso e destino do socialismo do que um crítico de arte místico, politicamente estático e de temperamento letárgico da república de Weimar. Qualquer que seja a genialidade e agudeza, uma plena comparação entre ele e o arquiteto do Exército Vermelho e da Quarta Internacional será um erro de categoria. Porque os dois homens foram formados em distintos períodos do marxismo moderno: um durante a fase heróica da luta política que culminou na Revolução de Outubro; o outro na erma época do “Marxismo Ocidental”, onde aquelas lutas políticas haviam recebido seu golpe final pelas mãos conjuntas do stalinismo, da social democracia e da burguesia.

Entretanto existe um contraste possível entre Benjamin e Trotsky que resultaria em favor do primeiro. Apesar de seu interesse pela arte moderna, Trotsky era como Marx, Engels, Lenin e Lukács, fundamentalmente um herdeiro do Iluminismo [ou Esclarecimento]. O Marxismo Clássico compartilha amplamente aquela racionalidade do Iluminismo - uma teia de premissas históricas acerca do que se deve considerar sobre a verdade, a razão, o significado, o valor e a identidade, questões que hoje fluem tão profundamente entre nós a tal ponto de serem completamente inextirpáveis de nossos mais simples gestos. Seria muito suspeito a simples “erradicação” de uma problemática como essa; e que foi - e ainda é - historicamente necessário para o marxismo lutar neste terreno é muito claro. Muitas das alternativas até agora propostas tem sido, para dizer o mínimo, primitivas e intragáveis. Entretanto alguém pode certamente questionar as graves restrições dessa problemática, até onde pudermos identificá-las, sem ceder ao suicídio intelectual. Benjamin e seu amigo Adorno são “marxistas modernos”, situados no limiar do significado onde talvez seja possível pensar o marxismo novamente em termos frequentemente e estranhamente distantes das premissas dominantes do Esclarecimento.** Os resultados, como era de se esperar, são parciais e variados; mas eles traçam um assustador e entusiasmante projeto cujo formato nós estamos apenas vagamente começando a discernir. É um projeto que pode se provar viável apenas do outro lado da transformação revolucionária. Se a maior parte das teorias modernas de hoje acabaram abandonando toda a esperança de transformação, isso se dá menos por uma incompatibilidade com o marxismo do que o fato de que não haja condições materiais para que uma transformação dessas ocorra. Pode ser que apenas no terreno da liberdade que a Razão terá tempo livre o suficiente para transformar a si mesma, de forma que sem dúvida carregará ao menos uma referência à racionalidade “alienígena” de outras civilizações do mundo.

Eu venho argumentando que o maior sintoma do Marxismo Ocidental presente na “estética Marxista” é a curiosa hibridez entre materialismo e idealismo, e que nenhuma figura dentro da linhagem estética pode ser mais exemplar dessa ligação do que Benjamin. O idealismo de Benjamin assume múltiplas formas, mas uma em especial requer uma breve discussão aqui. Uma tendência em direção ao tecnologismo - atribuir a determinação histórica à forças técnicas abstraídas de seu contexto social - frequentemente surge em sua obra; mas talvez não tenha sido suficientemente enfatizado que esse é um termo de um casal antitético, cujo outro é o “culturalismo”. Em resumo, Benjamin tende ao mesmo tempo a objetivizar a base econômica e subjetivizar a superestrutura, oscilando com um mínimo de mediação entre as “forças materiais” e a “experiência”. As vezes se idealizam as forças técnicas, da mesma forma que a materialidade da superestrutura ameaça as vezes em dissolver-se na “imediatez” da própria “experiência”, seja como Erlebnis ou como Erfahrung. A relação entre base e superestrutura se torna essencialmente em uma relação de “expressão” - de uma “correspondência” ou mimesis sensitiva, como nas teorias de Benjamin sobre linguagem. Ironicamente, essa doutrina é, frequentemente, um aspecto do velho historicismo com o qual ele lutou incansavelmente: se ele rejeitou o eixo diacrônico do historicismo - sua determinação teleológica - ele chegou perto de reproduzir muitas vezes a visão sincrônica da história como uma homogeneidade de “níveis”. Base e superestrutura unidos na realidade da história que os engloba, na qual modos de produção estão de um lado e a “experiência” de outro. De fato, Benjamin adota um ponto de vista historicista de seu próprio marxismo, o qual é, ele remarca, “nada, absolutamente nada, senão a expressão de certas experiências ao longo da minha vida e pensamento”. Teoria não é nada senão a auto consciência da “experiência” ou prática.

Acabar com o assunto aqui seria uma séria injúria contra Benjamin. Pois se ele de vez em quando vê a “experiência” como uma espécie de impressão direta ou destilação de forças físicas ou tecnológicas, continua sendo verdade que ele invoca, a partir dessa reflexão, uma sutil percepção que excede maravilhosamente a grosseria própria do modelo. Ademais, sua insistência na natureza de experiência pessoal de seu próprio compromisso comunista é deliberadamente apontado contra a “esterilidade de um ‘credo’” que é o stalinismo. Para ser “verdadeiro” com o marxismo nessas condições, significava ser em certa medida “necessariamente, sintomaticamente, produtivamente falso”. Nem é verdade que o trabalho de Benjamin peca pela falta de mediação entre tecnologia e experiência: o que é o conceito de luta de classes senão isso? Entretanto até essa mediação é frequentemente atenuada. As Teses sobre o conceito de história é um magnífico documento revolucionário; mas elas evocam sistematicamente a luta de classes em termos de consciência, imagem, memória e experiência, e são praticamente mudas com relação às suas formas políticas. Entre base e superestrutura, a instância política é elidida de forma silenciosa; Habermas não fica longe da marca quando comenta que “Benjamin concebia a filosofia da história também como uma teoria da experiência”. Os surrealistas, Benjamin escreve, compreendiam um componente de êxtase ou anarquia em cada ato revolucionário; mas, ele rapidamente acrescenta, “acentuar isso seria subordinar a preparação metódica e disciplinar para a revolução totalmente a uma práxis que oscila entre o exercício físico e a celebração antecipada”. Precisamente essa subordinação marca o trabalho de Benjamin, desde a convulsiva violência Soreliana presente em suas concepção apocalíptica ultra-esquerdista de jovem, até o messianismo revolucionário e a poesia política das próprias Teses.

Isso, claramente, é mais do que um lapso teórico. Possui suas raízes nas características políticas da época de Benjamin. Encalhado entre a social democracia e o stalinismo, suas opções políticas eram de fato estreitas. Sobrava pouca coisa para ele a não ser a “experiência”, e mesmo isso era assustadoramente frágil. O anti-historicismo de Benjamin, portanto, é conivente com seu idealismo: o Jetztzeit deixa de figurar simplesmente como um elemento simbólico dentro do materialismo histórico, e passa a substituir o rigor da prática revolucionária. Entre a chegada das massas e a chegada do messias, nenhum terceiro termo é capaz de se cristalizar. O profeta revolucionário é substituído pelo partido revolucionário, apto a realizar suas tarefas mnemônicas, mas não as tarefas organizacionais e teóricas, rico em sabedoria em parte porque é pobre em experiência. Se Trotsky possui o Programa de Transição, a Benjamin resta o “tempo do agora”. Nenhum movimento revolucionário pode se permitir a ignorar signos de progresso estável, ritmos de desenvolvimento gradual, ou (em um não metafísico sentido do termo) questões de teleologia; o “tempo homogêneo” de Benjamin, pensado sob o ponto de vista do bolchevismo, parece de certa forma algo menos repulsivo. Se nem mesmo os mortos estão a salvo do fascismo, nem mesmo o messias está a salvo do socialismo. O messias é a última instância que nunca chega, mas mesmo se viesse não seria um evento dentro do materialismo histórico.

William Blake, escrevendo antes do materialismo histórico emergir, lança sua crítica ao capitalismo industrial em termos teológicos. Apesar de suas limitações, nenhum produto materialista excedeu sua força. Benjamin, como já vimos, pode avançar a partir de seu lado idealista: como seu mentor em marxismo, Georg Lukács, ele evoca recursos ambivalentes do idealismo para travar uma batalha contra o, consideravelmente mais nocivo, positivismo. A medida dessa conquista pode ser feita por um simples paralelo. O marxismo do século XX contém uma teoria anti-historicista que, assim como Benjamin, fala de amalgamar formas mais arcaicas com formas contemporâneas, e que compreende o desenvolvimento histórico não como uma evolução linear, mas como uma constelação de distintas épocas que se chocam. Foi essa hipótese - a hipótese do Balanços e Perspectivas de Trotsky - que esboçou o destino da Revolução Russa, e que, generalizada como teoria da revolução permanente, conserva sua máxima importância para a estratégia socialista até hoje. Se tivesse sido ignorado por um marxismo hipnotizado pela teoria “etapista” da história, Walter Benjamin possivelmente não teria morrido quando morreu. A teoria da revolução permanente corta na lateral da homogeneidade histórica, encontrando, na era da luta democrático burguesa, o “fraco impulso messiânico” que gira heliotropicamente em direção ao sol nascente do socialismo no futuro. O que se mantém como uma imagem em Benjamin, se torna uma estratégia política com Trotsky: o proletariado, assumindo a liderança na revolução democrático-burguesa em aliança hegemônica com outros grupos e classes subalternos, libera a dinâmica que vai carregar a revolução para além de si mesma rumo ao poder dos trabalhadores. Os estratos de época, que numa imaginação marxista oficial dispõem claramente os seus extremos, são apreendidos e empilhados grosseiramente um em cima do outro, transfigurando a geologia da revolução por uma violenta insurreição. As hierarquias reconhecidas são subvertidas de maneira desavergonhada: o link mais frágil da cadeia imperialista, sob o ponto de vista da ironia revolucionária, agora vira o mais forte, o chip heterogêneo da história que talvez desestabilize o topo da estrutura capitalista. Com seus olhos voltados ao futuro, a revolução dá um grande salto ao passado - o feudalismo arcaico da Rússia Czarista - em função de assimilá-lo violentamente ao presente. O resultado, como Benjamin aponta em seu ensaio sobre Moscou, “é uma completa interpenetração de modos de vida tecnológicos e primitivos”. Um momento maduro do tempo homogêneo da revolução burguesa se transforma no portal pelo qual o proletariado vai entrar, o Jetztzeit no qual diferentes histórias - feudalista, democrático-burguesa, proletária - são dramaticamente impelidas à correspondência contraditória.

Uma vez instalados no poder, o estado operário continua escovando a história a contrapelo. A calma narrativa da história homogênea se transforma num texto emaranhado: “irrupções de guerras civis e guerras internacionais se alternam com períodos de “pacíficas” reformas. Revoluções na economia, técnica, ciência, na família, moral e na vida cotidiana se desenvolvem em complexas ações recíprocas e não permitem à sociedade atingir o equilíbrio.” A prática da revolução socialista demonstra, ao mesmo tempo, os deslocamentos e condensações “sincrônicos” e “diacrônicos” da história: “dentro de uma ruptura revolucionária da vida”, escreve Trotsky, “não há simultaneidade nem simetria dentro do processo, seja na ideologia da sociedade, seja na estrutura econômica”. O tempo revolucionário não é idêntico a si nem puramente difuso; o mesmo ocorre com o espaço revolucionário. A revolução socialista se inicia sobre bases nacionais, mas não pode ser concluída nelas; na mais mortal de todas as constelações para a burguesia internacional, os poderes liberados pela revolução nacional começam a ter efeitos em outros lugares, a deformar o espaço global do capitalismo e a condensar suas aparentemente discretas áreas nacionais na paisagem da revolução socialista internacional. Apenas quando a totalidade desse “texto” for escrito, poderão ser contados apropriadamente os relatos nacionais que o compõem; apenas quando a revolução nacional for projetada para além do continuum de seu próprio tempo e terreno em termos globais nós teremos certeza de que não está irrevogavelmente perdida para a história. Pois cada imagem da revolução que não for reconhecida pelo proletariado internacional como um de seus interesses ameaça desaparecer de maneira irreparável.

À luz da teoria da revolução permanente, o anti-historicismo de Benjamin se torna mais do que uma noção atraente. Pelo contrário, reativá-lo em nossa época pode ser literalmente a garantia de nossa sobrevivência. Desde a derrota dos norte-americanos no Vietnã, o imperialismo mundial sofreu uma série de penosos revezes nas mãos do nacionalismo revolucionário. Mas sem a liderança revolucionária, que poderia por ela mesma garantir a transformação dessas insurreições nas bases do socialismo, essas sociedades vão continuar sendo aprisionadas pelos becos sem saídas do stalinismo e do imperialismo. Em terras imperialistas, as condições contra as quais Benjamin alertou, estão novamente oscilando: uma mitologia reformista continua contendo setores inteiros da classe trabalhadora, numa crise global do capitalismo que situa novamente a ameaça do fascismo na agenda. Em tal situação, se torna mais do que nunca necessário expulsar o trabalho de Benjamin do continuum da história, para que ele possa fecundar o presente.

*N.T.: período conhecido pelo slogan “classe contra classe”, que se caracterizou pela aprovação, no VI Congresso da Internacional Comunista, a irreconciliação total entre comunistas e sociais-democratas, o que levou ao assenso fascista na Europa e a consequente derrota da revolução em vários países.

**N.A.: pois a crítica de Benjamin ao Esclarecimento - em especial, kantiano - é pensado sob as bases das formas de pensamento “pré-racional” que o suprime.




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