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¿Volver al Siglo Diecinueve? Ou o "Horrível Velho Mundo" desde Amazon, Zara, Uber e Ryanair

Pietro Basso

¿Volver al Siglo Diecinueve? Ou o "Horrível Velho Mundo" desde Amazon, Zara, Uber e Ryanair

Pietro Basso

Tempos Modernos, Jornadas Antigas: corporações como a Ryanair reconstituem o velho labor à moda antiga do século XIX. O especialista em trabalho, Pietro Basso, explica a contradição.

Tengo miedo del encuentro/
Con el pasado que vuelve/
A enfrentarse con mi vida/
Tengo miedo de las noches
Y aunque el olvido, que todo destruye/
Haya ya matado a mi vieja ilusión/
Guardo escondida esperanza humilde/
Que es toda la fortuna de mi corazón

Volver, de Carlos Gardel y Alfredo Le Pera

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Algumas megaempresas – como Walmart, Amazon, Zara, Ryanair e Uber – alcançaram um aumento retumbante no mercado global em algumas décadas e até menos. Além disso, o que eles têm em comum? Primeiro, a imposição de condições de trabalho e relações laborais do século XIX no século XXI. Nos gigantes empresariais em que supostamente tratar-se-ia de fornecer produtos e serviços low cost, a primeira coisa que é de custo muitíssimo baixo, e com zero direitos é, como é claro desde o princípio, o próprio trabalho ali realizado. ¿Volver?

Primeira Cena: Walmart

Na história do capitalismo, Walmart é a primeira empresa importante a alertar seus funcionários, quase sempre mulheres, jovens, imigrantes e/ou deficientes, de que o salário que eles receberão é tão baixo que não será suficiente para viver e que eles devem, por isso mesmo, buscar um segundo emprego. Os gerentes desta empresa global por excelência recebem instruções, com base em guias específicos, para evitar a criação de sindicatos na empresa. Somente na China, Walmart esteve inclinada a aceitar greves trabalhistas e admitiu em suas lojas a presença de sindicato oficial. A Walmart utiliza um verdadeiro arquipélago-gulag de dezenas de milhares de micro, médias e pequenas unidades de produção localizadas em todo o Sul global (muitas na China) que trabalham em contrato e subcontrato, obrigadas a se submeter ao princípio mais um (“plus one principle”). O que vem a ser este tão aclamado princípio gerencial? Nós explicamos.

Cada ano deve praticar-se uma redução, ainda que pequena, no custo unitário dos bens fornecidos para garantir a multinacional americana de comércio um aumento constante em seus lucros. Nessas dezenas de milhares de unidades de produção, durante períodos de pico, trabalhando de 18 a 20 horas por dia, a semana de trabalho geralmente é de 7 dias, o cronograma semanal também dura 100 horas, com apenas um dia de descanso por mês e no máximo 15 dias de férias por ano; os salários estão quase em todo lugar abaixo do mínimo legal, em qualquer caso, inferior a 1 euro por hora; não há medidas de segurança, pois, obviamente, não existem sindicatos; o castigo corporal e a violência sexual são frequentes; muitos menores de 18 anos são empregados. Muitas vezes, as moradias estão localizadas dentro das mesmas fábricas. É fácil de perceber porque o economista laboral Richard Freeman chama essa rede mundial de produtores da Walmart como uma espécie de “campo de concentração [globalizado] para o trabalho escravo [moderno]”.

Segunda Cena: Amazon

Mas a Amazon não está longe disso, embora a sua presença seja essencialmente sita nos países ricos ao Norte do mundo. Uma investigação apareceu no jornal New York Times, em 15 de Agosto de 2015, rasgando o véu dessa famosa história de sucesso, documentando condições de trabalho cruéis, com semanas de trabalho de até 80 horas, mudanças exaustivas devido à intensidade e velocidades das operações necessárias, trabalhadores que gerenciam e constantemente assediam por produzir mais, funcionários obrigados a enviar e-mails mesmo à noite ou forçados a espionar colegas, mulheres pressionadas a melhorar o seu desempenho, mesmo se sofrendo de cancro. Depois dessa investigação sensacional, as coisas não mudaram muito, mas é verdade que em julho deste ano, 13 membros do Congresso, incluindo Bernie Sanders, denunciaram “violações crônicas dos regulamentos de segurança em todas as lojas da Amazon”, de acordo com “crescentes divulgações públicas sobre condições de trabalho brutais e arriscadas” presentes nesses mesmos armazéns.

A denúncia coloca a Amazon na “dúzia suja” dos locais de trabalho mais perigosos dos Estados Unidos: entre 2013 e 2018, 7 trabalhadores morreram lá. No mesmo período, houve 189 situações de emergência em 46 locais diferentes, devido a graves crises nervosas ou riscos de suicídio reportados desde diferentes localidades.

Fora dos Estados Unidos, os métodos da Amazon não são menos brutais: em Swansea, no País de Gales, os trabalhadores da Amazon são categoricamente proibidos de conversar entre si. Em Piacenza, Itália, a tensão de produção é tão alta que os banheiros estão sempre perfeitamente limpos, já que ninguém tem tempo para ir até lá. Sobre as intenções da Amazon na Itália (e não apenas), diz-se que há a recente decisão corporativa de procurar novos gerentes de armazém como uma prioridade entre oficiais militares que exerceram o comando sobre unidades de nada menos que 100 indivíduos. Antes das reclamações do sindicato, a empresa declarou: não há nada de novo, porque “a Amazon emprega centenas de veteranos e reservistas em seus escritórios e armazéns em toda a Europa, número que continua a crescer. Eles são bons líderes”. Então digam lá: querem locais de trabalho ou quartéis militares? Além disso, tanto para a Amazon quanto para Walmart, a empresa ideal é aquela sem sindicato, ou melhor, sem qualquer forma de organização dos trabalhadores.

Terceira Cena: Zara

O nada maravilhoso “Mundo de Zara” é muito semelhante ao Walmart. Com 7.490 pontos de venda (incluindo os de cem empresas subsidiárias), 175.000 funcionários, o grupo Ortega & Mera foi designado várias vezes como o terminal de formas bestiais de exploração por super-exploração do trabalho. Por exemplo, no Brasil, onde foram descobertas oficinas de clandestinas de produção da Zara em São Paulo, em que imigrantes bolivianos e peruanos, mesmo com menos de 14 anos, eram obrigados a trabalhar 12 horas por dia, sem férias ou sequer folgas de domingo, por 100 euros por mês, menos da metade do salário mínimo legal. Por exemplo, em Bangladesh, onde uma investigação na televisão italiana de 12 de novembro de 2017 dirigida por Le Iene escrutinou uma fábrica de suprimentos da Zara na qual a força de trabalho consistia principalmente de crianças “que trabalham horas e horas por dia, sempre repetindo as mesmas ações repetidas vezes contra máquinas velhas e perigosas, sem proteção e máscaras, para ganhar no máximo um euro por dia”.
Ou mesmo na Turquia, onde nos mesmos dias os clientes das lojas de Istambul encontravam nos bolsos das roupas compradas pela Zara os pedidos de ajuda dos funcionários da empresa que não recebiam o salário. Tampouco é melhor nos países da Europa Ocidental. Nas lojas de Milão, Veneza e Florença vendedores e guarda-costas relataram horas cansativas, turnos inimagináveis, salários de fome, condições que trazem consigo grandes problemas familiares. Chegou-se a relatar: “Zara esgotou minha vida, sinto que tenho um nó atado ao redor de meu pescoço”.

Quarta Cena: Uber

A Uber é outro tipo de empresa desenfreada de última geração que baseou toda a sua fortuna na superexploração brutal da força de trabalho. Neste caso, seus funcionários (os motoristas) não são ainda empregados formais. Eles são tratados como freelancers e, portanto, devem fornecer seus carros e pagar todos os custos, incluindo os custos de reparo, manutenção e seguro de seus carros. O aplicativo Uber, de fato, é uma empresa privada global que utiliza trabalho assalariado disfarçado de atividade “independente” e/ou “comercial” para se apropriar da maior parte da mais-valia gerada pelos serviços de seus motoristas. Esta empresa tem gerado um novo modelo de super-exploração do trabalho, chamado de “Uberização” – um implacável e empresarial modus operandi projetado para gerar lucros, tanto quanto possível, e aumentar o valor do capital através de precariedade estrutural do trabalho. Além disso, como observado pelo sociólogo Ricardo Antunes, em Adeus ao Trabalho?, cada vez mais espera-se que os funcionários estejam disponíveis para o trabalho a qualquer momento: sem dias de trabalho estabelecidos, sem locais de trabalho claramente definidos, sem salários fixos, sem ativos padrão, sem direitos de trabalho (é claro), sem a proteção social e/ou mesmo representação sindical de qualquer espécie.

Quinta Cena: Ryanair

Até o crescimento irresistível da Ryanair está ligado ao triplo de 1) salários baixos, 2) longas horas e 3) à proibição da sindicalização, como sabem seus funcionários. Mas existem algumas características específicas: a principal é que o tempo de trabalho pago para a equipe representa tão-somente o tempo de voo real, todo o resto deve ser dado de mão beijada à companhia, que não é a Ryanair, mas agências de trabalho como a Crewlink. Em particular, e, geralmente, muito pior do que a média em comparação com as low cost – as regras da empresa sobre formação (custeada pelo empregado), a duração do período probatório, aviso prévio, por doença e acidente (não remunerado), pressão (obsessiva) para vender produtos no avião, indenização (que não há), obrigação de devolver qualquer bônus recebido em caso de renúncia e, como é claro, zero sindicatos!

O Ato Final: «bem unidos, façamos»

No entanto, no entanto… nos últimos anos têm aumentado as denúncias públicas e as reclamações, ações judiciais, protestos sociais e greves contra esses campeões da verdadeira escravidão salarial pós-moderna. O ponto de viragem na Europa Ocidental, especialmente para os funcionários da Amazon e da Ryanair, foi o ano de 2017.

A greve dos funcionários da Amazon começou em 17 de julho sob convocatória de trabalhadores e sindicatos espanhóis, coincidindo com o primeiro dia, as 36 horas de promoções e descontos oferecidos pela empresa de comércio eletrônico dos EUA. Eles entraram em greve na Alemanha, Espanha e Polônia ao mesmo tempo. O pedido comum foi a melhoria das condições de trabalho, que ainda hoje pressionam muito os trabalhadores, a ponto de comprometer a sua saúde física.

Não foi fácil chegar a essa greve devido a divergências entre os principais sindicatos europeus, todos infectados pelo vírus do nacionalismo, e a reivindicação do empregador de aplicar (ou não aplicar) contratos diferentes, dependendo dos locais e de suas estruturas. Apesar disso, o esforço dos trabalhadores levou a uma primeira greve transnacional. Uma demonstração de que, embora essa dimensão da luta seja difícil de alcançar, não é algo propriamente extraterrestre. O globo terrestre, esse é o plano da realidade, é a estrutura atual (e de poder) de grandes empresas que são transnacionais; contra isto, não existe outra alternativa senão soerguer uma organização de luta de trabalho igualmente transnacional e/ou globalizada.

A confirmação plena de que isso não é impossível de implementar foi a greve transnacional, disposta e adequadamente organizada para este fim, que realizou-se nos dias 25 e 26 de julho de 2017 com uma verdadeira “premiére historique”: a primeira greve simultânea de pessoal de voo da Ryanair Bélgica (o sucesso em Bruxelas foi espetacular, com 90% dos funcionários, também forte em Charleroi , com 60%), na Espanha (1.800 trabalhadores envolvidos), em Portugal e Itália (onde 132 vôos foram cancelados). No total, 600 vôos cancelados e mais de 100.000 passageiros ficaram em terra.

Nem em todos os lugares o resultado da greve foi idêntico. Desta vez, o pessoal de voo e os funcionários de terra foram mais ativos do que os pilotos, mas os primeiros protestos começaram (quase como um protesto carbonário) pelos mesmos pilotos, que na Irlanda em 3 de Agosto seguinte deram para iniciar sua quarta ofensiva no mesmo ano. Michael O’Leary, o CEO da Ryanair, que por determinação e brutal anti-trabalhismo não tem nada a invejar o proprietário da Amazon, Jeff Bezos, opôs um rotundo não a todas as demandas sindicais (aplicação das legislações nacionais e não irlandesa, que é muito penalizadora para os direitos dos trabalhadores, aumentos de salários, dias de cobertura de baixa , etc.), usou a equipe alemã e polaca para substituir (onde pode) grevistas, abalando assim espectro de centenas de demissões na Irlanda durante o outono.

Para O’Leary, as reivindicações dos trabalhadores em greve são “irracionais”. Razoável, racional e correto em todos os aspectos é apenas o aumento incessante e exponencial nos lucros da empresa, como reivindicações da Amazon, com ganhos de US $ 2,5 bilhões em um único trimestre (um recorde histórico). Ou seja, tudo o que dificulta de alguma forma o caminho triunfante de Deus Capital deve ser mitigado.

Em vez disso, o jogo na Ryanair, na Amazon, como nos outros casos mencionados aqui, está aberto e ainda por ser jogado. Não é por acaso que a Ryanair teve que enfrentar mais de 700 demissões de seus pilotos em 2017, e a decisão do Tribunal de Justiça das Comunidades Europeias que estabelece que o pessoal de voo (nesse caso, do aeroporto de Charleroi) tem o direito de apresentar e fazer valer o direito trabalhista do país em que “exercem regularmente sua atividade”. Até a Uber enfrenta cada vez mais a reivindicação de seus funcionários reais de reconhecê-los como tais. E, por mais que a empresa continue resistindo, agora também está sob pressão de estados como a Califórnia para fazer cumprir a lei. Na Itália, a imagem da Zara é comprometida por greves continuas nas grandes cidades, começando com o Milão: a palavra “máfia”, tão sintomática na formação social italiana, muitas vezes é utilizada vis-à-vis a Zara para denunciar o uso sistemático de cooperativas falsas organizadas por “capos” reais. Nos anos seguintes, tal como Amazon, a Ryanair enfrentou novas greves, geralmente construídas e organizadas sem recorrer a estruturas sindicais reconhecidas.

Epílogo

Em suma, e como demonstraram as greves nas megacorporações Walmart na China de há anos, as lutas dos trabalhadores da Amazon e da Ryanair no último período – ou mesmo dos funcionários da Google, por conta do assédio sexual em Novembro último – mesmo os mais poderosos conglomerados, entre os mais novos campeões do capitalismo global, podem ser combatidos de forma eficaz e derrotados no presente.

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Autor do recém-publicado Tempos Modernos, Jornadas Antigas: vidas de trabalho no início do Séc. XXI (Editora Unicamp, São Paulo / Brasil, 2018).
Professor de Teoria Social Crítica da Universidade Ca ‘Foscari em Veneza / Itália, fundador do Laboratório de Pesquisa sobre Imigração e autor de muitas dezenas de ensaios, intervenções e livros sobre mercado de trabalho, desemprego estrutural, organização social do trabalho, horário de trabalho, lutas sociais dos trabalhadores, raças/etnias e racismo, patologias sociais, envelhecimento ativo e, nos últimos anos, migração internacional de força de trabalho para / na Europa . Ele é um fellow scholar nas universidades de Barcelona, Bruxelas , Londres, Paris e Sofia – entre outros campi acadêmicos. O professor Basso será o key-note da abertura magna de seminário inspirado em seu livro recém-editado em língua portuguesa na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade NOVA de Lisboa em atividade aberta à população nos dias 15 e 16 de Nov.

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