Opinião

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Volkswagen propõe ataque a direitos trabalhistas em troca de estabilidade

Nesta terça (15) às 14h, no pátio da fábrica da Anchieta, situada em São Bernardo do Campo, o Sindicato dos Metalúrgicos do ABC realizou assembleia para comunicar a negociação com a montadora, que durou cerca de três semanas. A negociação pautada visou encontrar alternativa à manutenção do emprego em meio à crise que atingiu consideravelmente todo o setor automotivo no ABC devido a pandemia do novo coronavírus.

quarta-feira 16 de setembro| Edição do dia

A Volkswagen avisou mês passado, que diante ao cenário atual, com a queda nas vendas e na produção, seria necessário cortar 35% dos trabalhadores efetivos das plantas do Brasil, plantas essas que empregam cerca de 15 mil trabalhadores, ou seja, 5.250 trabalhadores poderiam ser desligados. Contando somente a planta situada na Anchieta, em São Bernardo, são 8.600 trabalhadores, considerando o percentual de redução frente ao número de trabalhadores, seria na prática, 3.010 operários que poderiam ser demitidos; 3.010 trabalhadores que teriam que lidar com desemprego e escassez com um discurso patronal de crise, quando na verdade, só no terceiro trimestre de 2019 a empresa teve m aumento de 42% em seu lucro líquido, chegando a 3,79 bilhões de euros em comparação ao mesmo período em 2018, no acumulado do ano até setembro, obtendo avanço de 17%, sendo no Brasil um dos melhores desempenho de vendas, o que expressa que cada linha do aviso dado pela patronal mês passado, não passa de sede de lucro capitalista do que verdadeiramente a crise.

O PDV, que ainda não tem uma data para ser iniciado, oferece 20 salários adicionais à tabela base para horistas diretos e indiretos. O acordo também possibilita que a empresa utilize mecanismos de lay-off até o limite de dez meses, neste caso, a remuneração dos trabalhadores será de 82,5% de seu salário líquido. Quanto ao reajuste salarial, a proposta para este ano é a de não aplicar o INPC (Indice Nacional de Preços ao Consumidor) se a variação for de até 5%, sendo este convertido em abono de R$ 6.000 a ser pago junto com a segunda parcela da PLR (Participação de Lucros e Resultados) de 2020, até agosto, o índice acumula valorização de 1,16% e, em 12 meses, de 2,94%.

Em 2021, a regra segue sendo a mesma, com percentual de inflação limitado a 3,5%, se o INPC (Índice de preços no consumidor) for superior, haverá aplicação da diferença nos salários, já em 2022 não haverá aumento real e, de 2023 a 2025 será feita aplicação integral do INPC.

Na PLR, o valor em si, será fixado em R$ 12.800 neste ano, sendo em 2021 o mesmo valor com acréscimo da inflação de 2020.

Caso o número de veículos produzidos nas quatro plantas durante o ano exceda o limite de 580 mil, as partes se comprometem, reavaliar as condições estabelecidas para o referido ano”, informa presidente do sindicato, Wagner Santana, mas conhecido como Wagnão.

Ficou assegurado também, a possibilidade do compartilhamento de um modelo da Planta Anchieta, sem a necessidade da produção estar utilizando capacidade máxima.

Durante o compartilhamento, está garantida a produção em dois turnos na Anchieta. Havendo aumento de volume, este acarretará o retorno do terceiro turno na fábrica. O acordo garante a exclusividade na unidade da região da produção da Saveiro e de seu sucessor, quando confirmado”, explica Wagner.

A tabela salarial terá implementação, redução de 17,05% do teto das tabelas salariais vigentes aos horistas, sendo aplicada essa condição aos trabalhadores admitidos a partir de janeiro de 2021.

A Volkswagen por sua vez, informou que não vai se posicionar sobre o assunto no momento. Na região, somente a GM (General Motors), até então havia proposto PDV na unidade de São Caetano do Sul, já aprovado em assembleia, para lidar com o cenário de queda nas vendas e na produção.

Vale ressaltar que mesmo que a Volks em conjunto com o sindicato coloque tal acordo nas mídias como uma escolha unanime dos trabalhadores, na prática, sabe-se que o acordo chegou aos trabalhadores sem que os mesmos pudessem opinar ativamente nas tais propostas.

Volkswagen se apoia na crise e potencializa os ataques da MP936 de Bolsonaro

Segundo o indicador de julho, desde março a indústria do ABC submergiu com a pandemia do novo coronavírus. Colocando em escala, de 0 a 100, a população do setor fabril da região marcou 50 pontos em julho (índice em equilíbrio), após “afundar” para 20 pontos em abril e 21 em maio. A utilização da capacidade instalada ficou em 52% ou 11 pontos percentuais abaixo de julho de 2019. No auge da pandemia, em abril, o uso da capacidade instalada pela indústria do grande ABC foi de 39%, isto é, o parque local ficou 61% cercado de ociosidade. A intenção de investimentos, que reduziu apenas 21,4 pontos em março, subiu para 42,3 pontos em julho.

Segundo a Sondagem Industrial, o ABC é o mais lento na retomada da atividade econômica em relação ao restante do país. Em julho, o grau da capacidade instalada pela indústria brasileira foi de 67%, aproximando-se dos índices observados entre o segundo semestre do ano passado e o início da pandemia, em Abril, registrou o menor grau de utilização do potencial produtivo nacional, com apenas 49%.

Frente a todos os dados com relação a retração na cadeia fabril do ABC em conjunto com as medidas que a patronal oferece aos trabalhadores, faz o trabalhador de fábrica pensar que, todas as mazelas provenientes da pandemia, estejam atacando diretamente as montadoras do ABC, quando na verdade, argumentos como esse ecoam todo apoio que as patronais encontram no governo Bolsonaro, que por sua vez o que faz de melhor é beneficiar os empresários enquanto os trabalhadores padecem. Exemplo dessa contradição, é o discurso da patronal para os trabalhadores por intermédio do sindicato, comparado ao discurso da mesma em fevereiro deste ano, onde o presidente da Volkswagen, Pablo Di Si, alegou que a empresa importa diversos componentes da china e que os estoques atuais “são suficientes para algumas semanas”. Segundo o presidente da patronal, como os navios com carregamentos de peças levam de quatro a seis semanas para chegar ao Brasil, é possível que logo haja mais peças à disposição, o que deixa claro ao leitor que a pandemia do novo coronavírus, não ameaçou o estoque da multinacional. Não podemos deixar de frisar que a patronal foi singela em colocar nas mídias “algumas semanas” como se após algumas semanas estivesse dado um declínio na patronal devido ao novo coronavírus.

No dia 28 de maio, foi aprovada na câmara dos deputados a MP936, medida provisória que foi editada por Jair Bolsonaro em primeiro de abril, que visa nada menos que, inúmeros ataques a classe trabalhadora, como redução de salários e jornada de trabalho, assim como ataques a direitos e benefícios.

E por que trazer ao debate a MP936 de Bolsonaro?

Frente a crise sanitária, social e econômica é praticamente impossível visualizar qualquer medida que venha das patronais, principalmente as que atuam no polo fabril do ABC durante anos, sem associa-las ao aval que o governo Bolsonaro forneceu aos empresários de descarregar em nossas costas toda a crise que os capitalistas criaram, empresários estes, que mesmo alegando estar em crise, na somática dos lucros líquidos, deixa claro que crise quem está passando são os trabalhadores e não o empresariado, que seguem por sua vez, sendo beneficiados com o desenvolver da crise.

Orlando Silva do PC do B, comemorou como uma grande vitória dos trabalhadores assim como as principais centrais sindicais do Brasil, os golpistas da UGT e Força Sindical, até às que se reivindicam oposição ao governo, como a CUT e CTB a aprovação da MP936.

Como centrais sindicais conseguem considerar vitória uma série de ataques que implicam diretamente na qualidade de vida do trabalhador? Como as patronais em conjunto com os sindicatos se reúnem a portas fechadas e dali saem com medidas que no discurso visam a manutenção do emprego, quando na verdade estão até o pescoço de más intenções e sede de seguir lucrando?

As respostas para tais interrogações estão na paralisia das centrais sindicais em soma com a ganância das patronais. Devemos analisar que, mesmo antes de toda crise pandêmica, em 2015, os trabalhadores da Volks passaram por um processo de luta que tinha como objetivo barrar 800 demissões anunciadas pela patronal, essa luta se somou com a da GM que também lutavam contra as demissões no mesmo período.

Em 2016, a patronal anunciou queda de 26,55% pela Fenabreve (Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores), em janeiro de 2016 as montadoras anunciam planos de ataque aos trabalhadores, com extensão de lay-offs e abertura de PDV (Plano de Demissão Voluntária). Com todo o aprofundamento da crise econômica na época, as empresas que não quiseram retroceder um milímetro de seus lucros descarregaram nas costas dos trabalhadores os efeitos da crise por meio de demissões. Em 2016 foram 1,7 mil trabalhadores que entraram em lay-off, 1,7 mil trabalhadores que em 2016 sentiram na pele o desejo insaciável dos capitalistas de lucrarem às custas das nossas vidas

Neste mesmo período, a direção do Sindicato dos Metalúrgicos sequer organizou assembleias e qualquer forma de resistência aos ataques colocados em 2016, nós do Esquerda Diário, acompanhamos esse processo ombro a ombro com os operários da Volks, assim como, o processo de fechamento da Ford, onde a mesma metodologia foi seguida: Reuniões a portas fechadas e resoluções ineficazes aos trabalhadores.

Frente a crise que assola a conjuntura atual, deve-se ter atenção ao que é dito como vitória da classe operária, porque em momento algum, a estabilidade que foi colocada pela patronal, inviabiliza a possibilidade que outros ataques venham a ocorrer, ou seja, o trabalhador que no desenvolver dessa crise teve que aprender a viver com o medo do desemprego e contaminação, subjetivamente abalado, acaba por achar vantajoso uma proposta de estabilidade tendo como troca abrir mão de outros direitos e benefícios, se encaixando perfeitamente com a celebre frase de Bolsonaro: “Emprego e menos direito ou mais direitos e desemprego”. Em um momento de auxilio emergencial ineficaz a determinados setores, trabalhos temporários, desemprego e pandemia, é uma covardia que a patronal coloque proposta em conjunto de negociatas com o sindicato, afim de “jogar confete” em uma proposta que excede a já brutal MP936, assim como colocar nas mídias que os trabalhadores aprovaram tal medida sendo que tal medida já veio aprovada pela patronal em conjunto com o Sindicato.

Não houve durante as negociatas, nenhum pensamento no sentido de organizar a categoria por parte do Sindicato, o que de fato, facilitou muito a aplicação desse golpe camuflado de manutenção de emprego. Por esses motivos e outros aqui já citados, é preciso romper com a paralisia que atrasa a classe trabalhadora, as patronais que massacram a classe trabalhadora, se utilizam da crise, que não criamos, para retirar nossos direitos e nos fazer pagar pelas suas ganancias.

Por fim, é importante deixar bem claro, que todas as medidas que as patronais de forma escancarada continuam colocando a força nos nossos dias, é totalmente amparada por essa política suja de Jair Bolsonaro, que deslegitima a crise sanitária, ataca os trabalhadores e segue privilegiando os empresários. A postura da Volks e a negociação com os sindicatos, entrega nossas vidas nas mãos dos grandes empresários, entre acordos e negociações com nossas vidas. As principais centrais sindicais precisam romper com essa tradição de se manter paraliticas, organizando efetivamente as categorias, reconvertendo a indústria para barrar as reformas e medidas de Bolsonaro, as demissões, o desemprego, assim como garantir as condições necessárias para o combate da crise sanitária, levantando a necessidade do não pagamento da dívida pública que segue por sua vez sendo ilegal e fraudulenta.

Só a organização da classe trabalhadora é capaz de impedir os ataques dos capitalistas e esse discurso de miséria que as patronais insistem em colocar. Que os capitalistas assim como o empresariado paguem pela crise.




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