Política

MARIELLE FRANCO

Você acredita em policiais para investigar o assassinato de Marielle?

André Acier

Natal | @AcierAndy

segunda-feira 19 de março| Edição do dia

Os debates que se cruzam a respeito da investigação do brutal crime que tirou a vida de Marielle se reduzem a saber se deve ser “federalizada” ou não. Em todos os cenários, para os golpistas, responsáveis por essa barbaridade, as forças repressivas, o Congresso, o Ministério Público e o Judiciário, a investigação deve ficar encarregada à polícia. Além disso, desde Rodrigo Maia, passando pela Globo até o general Villas Boas, a saída é intensificar a intervenção federal no RJ.

Um crime atroz contra uma vereadora de esquerda, mulher e negra, que tem todos os indícios de uma operação de execução após denúncia contra a brutalidade policial do 41º BPM do RJ (o “Batalhão da Morte”) na Favela do Acari, deveria ficar a cargo de...policiais.

Isso significa deixar nas mãos de uma corporação criminosa, assassina e corrupta o trabalho de indultar seus próprios crimes. Trata-se de preparar o terreno para um grande acordo que, em base a entrega de algum “bode expiatório”, preserve os agentes do “Estado profundo” (grupos de extermínio ligados à corporação policial) e o próprio governo golpista de Temer, que está desesperado por limpar a imagem devastada de sua intervenção federal, depois do assassinato da vereadora do PSOL.

Basta dizer que as munições encontradas no local do crime são do mesmo lote ao qual pertenciam as balas usadas na chacina policial que terminou com 17 mortos e sete feridos em 13 de agosto de 2015, em Osasco e Barueri, região metropolitana de São Paulo. Essa foi a maior chacina já registrada no Estado paulista. A descoberta foi divulgada nesta sexta-feira, 16, quando foi constatado que munições 9 milímetros do lote UZZ-18 da Companhia Brasileira de Cartuchos (CBC), originalmente encaminhado para a Polícia Federal em Brasília em 2006, foram usadas no assassinato brutal de Marielle.

O próprio Estado de S. Paulo revelou em 3 de setembro de 2015 que as munições usadas nas diferentes cenas dos assassinatos em Osasco e Barueri, na Grande São Paulo, pertenciam a cinco lotes (UZZ18, BNT84, BIZ91, AAY68 e BAY18) destinados a forças de segurança: PF, Polícia Militar e Exército. Para o professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV) Rafael Alcadipani, “Ter acesso à munição no Brasil é ilegal, então ela só pode ter vindo de um clube de tiro ou das polícias.”

O procurador José Maria Panoeiro, do Ministério Público Federal no Rio de Janeiro, disse à BBC Brasil que uma "a forma de organização do crime, o fato de a assessora não ter sido alvejada diretamente e o fato de o motorista ter levado um tiro por trás denota um certo grau de planejamento (da ação) que leva a colocar policiais como suspeitos da prática do delito."

Para o procurador, o crime teve motivação política. "O que ela fez que é diferente e poderia incomodar as atuações expostas? É a questão da violência policial. Dos elementos que se apresentam, tudo aponta para possível envolvimento de policiais ou milicianos no crime", reforçou.

Ver também: O que expressa a homenagem de um Coronel da PM assassina a Marielle Franco?

Nas mãos da polícia, não há possibilidade de haver justiça por Marielle. A comoção nacional e internacional, que levou centenas de milhares de pessoas às ruas em protesto contra a morte de Marielle, a brutalidade policial e a intervenção federal no RJ, não pode encontrar saída numa investigação conduzida pelas forças repressivas do Estado, que querem calar a voz daqueles que, como Marielle, se indignam diariamente com os crimes dos golpistas e do Estado capitalista.

Para obter a verdade por trás dessa barbaridade, é urgente uma investigação independente da interferência das forças policiais e do Estado, uma investigação conduzida pelos organismos de Direitos Humanos, pelos sindicatos e organizações de esquerda. Não podemos deixar que a polícia acoberte nem um centímetro deste crime.

É urgente que as centrais sindicais dirigidas pelo PT, como a CUT – que não está fazendo nada para massificar o ódio nas ruas contra esse crime – organize imediatamente uma campanha ativa pela investigação independente e convoque mobilizações que tenham esta entre suas consignas.

Em nota oficial, o PSOL exige apuração imediata e rigorosa desse crime hediondo contra Marielle. Uma investigação rigorosa não virá da polícia; por isso é preciso discutir quem fará essa investigação. Não podemos apostar na investigação por parte de uma suposta “polícia boa” (com faz abertamente Marcelo Freixo, pedindo que a Polícia Civil do RJ apure o crime, dizendo que “sempre trabalhamos em parceria com o [chefe da polícia civil] doutor Rivaldo”, ver aqui.

Os únicos interessados em chegar à verdade são os trabalhadores e suas organizações, de maneira independente dos órgãos repressivos do Estado. A política do PSOL, ao confiar descaradamente nas polícias, leva ao beco sem saída da impunidade e do fortalecimento das instituições repressivas do Estado.

Nem falar da política do PT, freando como pode as mobilizações por Marielle, e cujo senador Jorge Viana (PT-AC) defende uma “intervenção federal em todo o país” além de Rui Costa, governador do PT na Bahia, que prometeu implementar a “metodologia e filosofia” dos colégios militares nos municípios baianos. Os governos do PT deram mostras mais que suficientes de que sua política de militarizar o RJ com as UPPs preparou o terreno para os golpistas também, e hoje facilitam o trabalho da Globo e do governo em enfatizar a importância da brutal intervenção federal.

Diante deste crime do Estado, de responsabilidade dos golpistas, que querem calar as vozes críticas, dizemos: não nos calaremos! Marielle, presente! Exigimos investigação independente do Estado e suas polícias!




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