SEMANÁRIO

Vladimir Safatle e o interessante paradoxo do “dividir para crescer”

André Acier

Vladimir Safatle e o interessante paradoxo do “dividir para crescer”

André Acier

Fazemos aqui um debate com as definições interessantes que Vladimir Safatle, professor da Universidade de São Paulo, aventou em seu artigo para o periódico espanhol El País, intitulado "Não houve eleição e não há presidente". Há caminhos profícuos a trilhar na esteira da continuidade desse debate, que toca os incansáveis trabalhos da estratégia no Brasil.

O filósofo e professor da Universidade de São Paulo, Vladimir Safatle, escreveu recentemente, na tribuna aberta do periódico espanhol El País, um importante artigo sobre a caracterização da política nacional, que oferece uma visão sobre a natureza do processo eleitoral que conduziu Bolsonaro à presidência em 2018, apontando quais seriam os dilemas da esquerda para organizar o enfrentamento ao governo. Trata-se de um convite a um diálogo mais do que necessário, cujo caráter instigante nos levou a buscar contribuir com algumas reflexões.

Em seu artigo, Safatle começa assinalando uma série de pontos com os quais compartilhamos, acerca do caráter fraudulento das eleições de 2018. Gostaria de iniciar por essas coincidências teórico-políticas para ressaltar a importância de uma visão correta sobre o curso dos acontecimentos que conduziram ao triunfo de Bolsonaro.

Safatle diz que “Desde que a opinião pública brasileira descobriu a natureza das mensagens trocadas entre o então juiz Sergio Moro e o procurador Deltan Dallagnol ficou claro que não houve nada parecido a eleições minimamente legítimas no ano de 2018. O que vimos foi simplesmente um processo sem condição alguma de preencher critérios básicos de legitimidade. Ou seja, uma farsa, mesmo para os padrões elásticos da democracia liberal”.

Tal qual. Em inúmeros artigos do Esquerda Diário, e nas contribuições que compõem o livro “Brasil: Ponto de Mutação”, publicação teórica do Ideias de Esquerda lançada este ano, buscamos mostrar como este processo eleitoral foi o mais manipulado da história recente do país, distorcido e eivado de violações aos direitos democráticos mais elementares – mesmo levando em consideração a natureza degradada das democracias capitalistas ocidentais – chegando a impedir que a população votasse em quem quisesse. O “princípio ativo” dessa manipulação eleitoral teve seu centro de gravidade na Lava Jato de Sérgio Moro e no autoritarismo judiciário de todas as instâncias, das pequenas cortes ao Supremo Tribunal Federal, com a chancela das Forças Armadas. As eleições de 2018 representaram a continuidade, para não dizer a culminação, dos mesmos métodos que compuseram o golpe institucional de 2016, que levaram Michel Temer ao poder para que encontrasse desimpedido o caminho da aplicação de ajustes econômicos neoliberais, de natureza mais dura e com ritmos mais acelerados do que os ajustes que vinham sendo aplicados por Dilma Rousseff e o PT.

O triunfo eleitoral de Bolsonaro constituiu o coroamento destas violações democráticas elementares com o golpe institucional. Estas violações, historicamente, tem nexos internos inseparáveis com a interferência das principais potências imperialistas, em especial dos Estados Unidos, nos países oprimidos. Na América Latina, teríamos vários exemplos recentes a dar (o golpe em Honduras em 2009, o golpe parlamentar no Paraguai em 2012, a intentona destituinte de Trump na Venezuela, para citar alguns mais recentes), mas no Brasil reside talvez o mais notório: a Lava Jato opera como um agente direto dos interesses de Washington, com a pressão pela privatização da rede de infraestrutura nacional – em especial nos ramos do petróleo e da construção civil – e a campanha pela aprovação das mais duras contrarreformas neoliberais, como a reforma trabalhista e da previdência.

Trata-se de um modus operandi com ares canônicos, depois do desprestígio que o imperialismo norte-americano obteve com o patrocínio de ditaduras militares em todo o Cone Sul na década de 1970: agora, lança mão de sua influência sobre o poder judiciário em vários países para, por trás de um suposto “combate à corrupção”, aumentar a exploração e destruir os direitos dos trabalhadores e do povo pobre, e ganhar com a privatização de estatais e recursos naturais. As revelações feitas pelo site The Intercept e a chamada “VazaJato” confirmam a conduta artificiosa do ex-juiz de Curitiba, com laços comprovados com o Departamento de Estado dos Estados Unidos, e sua tropa de procuradores do Ministério Público Federal, capitaneados por Dallagnol.

A arte de operações como a Lava Jato, que busca arregimentar para si um componente hegemônico de “luta contra a corrupção”, consistiu em direcionar a legítima raiva das massas com a corrupção capitalista para determinados atores do sistema político e econômico. Entretanto, esse acionamento se faz preservando a estrutura da corrupção (e replicado pelos próprios agentes judiciários), que é um elemento indispensável para o funcionamento “normal” do Estado burguês e da democracia capitalista. Como assinala Engels, em 1880:

“A forma mais elevada do Estado, a república democrática […] não reconhece oficialmente diferenças de fortuna. Nela, a riqueza exerce seu poder indiretamente, e por isso mesmo de um modo mais seguro. Por um lado, sob a forma de corrupção direta dos funcionários, da qual os Estados Unidos é um modelo clássico; por outro lado, sob a forma de uma aliança entre o governo e a Bolsa de Valores”

Ou seja, a corrupção é chave para preencher o hiato existente entre o discurso oficial do Estado como representante do “interesse geral”, e a realidade de seu ser, como “balcão dos negócios comuns de toda a classe burguesa”. O incremento que lhe dá a Lava Jato envolve os mecanismos mais duros do autoritarismo judiciário.

Com todos estes ingredientes na base do processo que impulsionou Bolsonaro à presidência, estamos em sintonia com a conclusão de Safatle, de que “o que vimos no ano passado foi uma eleição fraudada, viciada, montada em todas as peças para ter o resultado que teve”. E com razão nota a recompensa pelos serviços prestados:

Na verdade, o sr. Moro quebrou todas as regras possíveis para benefício próprio, ou seja, para prender o candidato à Presidência que impedia seu próprio projeto pessoal de se tornar presidente em 2022 […] Mas como ninguém parou o sr. Moro, ele pode ser agora catapultado para o centro da política brasileira pelas mãos de um político que ele, mais do que ninguém, elegeu ao tirar o primeiro colocado de circulação, ao alimentar o noticiário com notícias construídas tendo em vista o calendário eleitoral”.

As atuais intrigas palacianas entre Bolsonaro e Moro, fruto do enfraquecimento da Lava Jato e de seu condutor após as revelações das mensagens, não altera o fato de que Moro atuou em seu interesse ao projetar-se, através de Bolsonaro, para um possível postulante nas eleições presidenciais de 2022, com o recurso de escutas ilegais, prisões preventivas, delações premiadas e vazamentos para a imprensa, tentativas de apropriação de dinheiro público da Petrobrás e enriquecimento ilícito da força-tarefa com as delações – mecanismos que denunciamos desde o seu alvorecer neste portal.

É salutar aprofundar o debate de estratégias sobre a base desta compreensão correta dos acontecimentos e sobre nossos inimigos, algo que grande parte da esquerda brasileira renuncia a aceitar, mas que fica bem delineado no artigo de Safatle. O que nos permite adentrar num problema crucial: o Poder Judiciário.

O dilema maquiavélico: os “muitos juízes, ou os juízes para poucos”?

A problemática do judiciário merece atenção especial, levando em conta a relação com o imperialismo que suscitamos acima. Não é um problema com raízes recentes. Até mesmo uma figura tão importante para o pensamento político clássico como Nicolau Maquiavel, em seus Discursos sobre a Primeira Década de Tito Lívio, de 1517, sugere que “é preciso que os juízes sejam muitos, porque os poucos sempre agem em favor dos poucos”.

A tirania judicial brasileira (procuradores do Ministério Público Federal com sua Polícia Federal, ministros do Tribunal Superior Eleitoral, do Superior Tribunal de Justiça e do STF) mostrou que pode escolher a bel-prazer quem o povo pode ouvir e quem não, em quem pode votar e em quem não. Levando em conta as definições do chanceler florentino do século XVI, podemos concluir que a oligarquia de juízes no Brasil é mais autoritária que os magistrados da República Romana, que eram eleitos anualmente para executar as decisões dos jurisconsultos (“juízes” em tempos de paz, e “pretores” em tempos de guerra), e que não possuíam poder de veto nas eleições magistratoriais.

O poder Judiciário é conformado por uma casta vitalícia e privilegiada, com tribunais superiores designados a partir de negociações entre as forças políticas predominantes e sem intervenção do voto popular na designação do conjunto dos juízes e procuradores. Se originalmente este equilíbrio de poderes se fundamentou na oposição à tirania, como oposto ao absolutismo monárquico, o certo é que seu papel histórico foi limitar ao mínimo a incidência da soberania popular nas democracias burguesas, baseadas justamente em defender a legalidade da propriedade capitalista.

Todo o sistema legal se baseia em constituições que por vezes datam de dois ou três séculos (várias décadas no melhor dos casos) em muitos de seus núcleos fundamentais, que servem como sacralização do “poder constituído” e limitam todo “poder constituinte” do povo trabalhador. “Para o judiciário, até mesmo o fato de as massas serem dominadas, governadas, possuídas, elas têm de reconhecer e admitir como uma concessão do céu!” nas palavras picantes de Marx.

Essa casta de altos juízes e procuradores vive, sente e pensa como magnatas, e segundo Maquiavel, “atende aos interesses de poucos”. Uma democracia “radical” não implicaria que os juízes fossem eleitos pelo povo, revogáveis a qualquer momento, recebendo o mesmo salário de uma professora (com a abolição de todas as suas verbas auxiliares)? Não seria necessário que todos os julgamentos por corrupção, algo inerente no sistema capitalista, fossem ser realizados por júris populares? Estas medidas, que foram aplicadas na prática pela primeira vez durante a Comuna de Paris de 1871, seriam inovações que mereceriam uma atenção particular no Brasil do bonapartismo da toga.

Deixamos essa consideração como contribuição ao debate. E ademais cumpre dizer que um dos principais combates contra o autoritarismo judiciário é exigir a imediata libertação de Lula, mesmo sem ter qualquer acordo com a política do PT, que na “realidade efetiva das coisas” abriu caminho ao golpe institucional e alenta ilusões no poder Judiciário.

“Dividir para crescer”

Safatle articula a principal conclusão política do artigo com uma noção que instiga a pensar: o “dividir para crescer”. Em base à crítica ao governo Bolsonaro e suas diatribes de louvor à ditadura militar (e a personalidades nefastas que considera “heróis nacionais”, como o torturador Brilhante Ustra), pondera sobre o que permitiu que a reforma da previdência – que Safatle chama de “a maior derrota da história da classe trabalhadora” desde a ditadura militar – fosse aprovada sem grande batalha.

No momento em que foi necessário um processo comum (já que todos serão, de alguma forma, afetados), não havia nada capaz de produzi-lo. Onde estávamos e o que realmente nos mobiliza neste momento? Todos deveriam fazer uma autocrítica honesta, não apenas partidos e sindicatos, mas todos, isto se não quisermos ser tragados por movimentos desta natureza mais uma vez”.

Coincidimos com Safatle sobre a importância que tem para a relação de forças entre as classes a aprovação na Câmara da reforma da previdência (que agora se encaminha para o Senado). Ainda não sendo uma derrota física da classe trabalhadora, ou um revés “decisivo” – muito menos algo que ponha um ponto final na crise política brasileira, que vivenciará novos choques da luta de classes fruto desses mesmos ajustes, impotentes para recuperar a tração de uma economia em decadência – a sanção à reforma da previdência é um ataque em regra a milhões de pessoas que estarão impossibilitadas de se aposentar.

Certamente é objeto de exame dimensionar “aquilo que não se fez” para barrar a reforma da previdência. E quando adentramos esse terreno de balanço, o melhor critério é o de Balzac na composição d’A Comédia Humana: a cada um, a parte que lhe cabe na história. Ou seja, há hierarquia nas responsabilidades.

E nessa hierarquia de responsáveis pela desarticulação do combate à reforma da previdência, é inegável que o PT ocupa o primeiro lugar. Não podemos licitamente contornar o papel que cumprem as direções do movimento de massas. Este partido dirige a principal central sindical do país, a CUT, que representa milhões de trabalhadores, os principais afetados pela destruição do direito à aposentadoria. Via-se na população uma desconfiança salutar em relação à retórica burlesca de Bolsonaro e Paulo Guedes sobre a suposta “eliminação de privilégios” com a reforma. Havia vontade de lutar e frear as intenções do governo.

Mesmo assim, a estratégia levada adiante pelo PT e pela CUT (auxiliados pelo PcdoB e a central sindical que dirige, a CTB) foi a mera organização da derrota. Com exceção de jornadas de manifestação isoladas, não se preparou nenhum plano de luta sério, com jornadas massivas que concentrassem poderosas demonstrações de força que paralisassem o país, e opusessem uma ameaça aos planos do governo, abalado então com as disputas intitucionais que estouravam com o Legislativo e com o Judiciário (instituições que, a despeito das desavenças táticas, convergiam com Bolsonaro no objetivo estratégico de aplicar a reforma da previdência). Desmoralizadas, amplas camadas da classe trabalhadora, vendo bloqueadas por suas próprias direções as formas de canalizar sua raiva contra o ataque às aposentadorias, recuaram, mesmo nutrindo a desconfiança contra a reforma.

Já se podia sentir no ar como o PT justificaria os acontecimentos. Rui Falcão, ex-presidente do PT e atualmente deputado federal por São Paulo, lamentou em entrevista: “a falta de mobilização da sociedade contra a reforma da Previdência (...) se refletiu no dia da votação da matéria na Câmara, em primeiro turno. Era um negócio desolador, não tinha nem 20 pessoas nas galerias do plenário”. Longe de ser algum tipo de auto-crítica petista, aqui se expressa o mais profundo da estratégia parlamentar do PT: lamentar o fato consumado, que ajudou a preparar com sua política, culpando “a falta de mobilização dos trabalhadores”.

As lamúrias por parte do PT ganham contornos ainda mais esdrúxulos quando levamos em conta que todos os seus governadores (Wellington Dias, do Piauí; Camilo Santana, do Ceará; Rui Costa, da Bahia; Fátima Bezerra, do Rio Grande do Norte) apoiaram a implementação de uma reforma da previdência, que no início buscava remover alguns itens impopulares da proposta do governo, mas que ao final se converteu na exigência de que a reforma federal valesse para seus Estados.

O PT tem responsabilidade fundamental sobre o resultado desse conflito. Mas não apenas dele. Estamos tratando de uma estratégia de conciliação de classes que impregna o caminho de derrotas no último período. Quando era governo federal estimulou a desorganização e desmobilização da classe trabalhadora; ao repetir os métodos dos partidos tradicionais da burguesia no poder, desmoralizando a classe trabalhadora com as alianças com a direita e os ataques que fazia (especialmente com os ajustes de Dilma), foi abrindo espaço para o golpe institucional, a prisão arbitrária de Lula e as eleições manipuladas, tornando o PT uma engrenagem crucial na construção da passividade no terreno da luta de classes. Não utilizou a influência de massas que possui através da CUT e dos movimentos sociais para organizar assembleias nos locais de trabalho ou uma paralisação séria no 14J, e nessa “loucura havia método”: impedir a auto-organização dos trabalhadores, separar a mobilização contra a reforma da previdência da luta massiva dos estudantes e usar a aprovação da reforma da previdência, junto com todas as outras centrais, como moeda de troca para impedir a retirada do imposto sindical.

Seria impossível estabelecer um curso estratégico correto sem deixar claro os obstáculos subjetivos com os quais nos deparamos. Em termos clausewitzianos, o PT constitui uma “falsa direção da guerra” - ou seja, não tem intenção de levar os interesses das massas ao triunfo, e sim renunciar a esses interesses para alcançar um novo equilíbrio com o regime burguês. Para direções assim, a estratégia não tem nada a recomendar.

Esse aspecto da reflexão, embora não esteja desenvolvido dessa maneira no artigo, parece ser uma das bases sobre as quais Safatle se apoia ao apresentar a ideia chave do artigo:

Por mais paradoxal que isto possa parecer, talvez precisemos agora de divisão para unir, e não de união. É claro que essa operação parece um contrassenso para os que acham que a política anda na mesma via dos sinais matemáticos. Mas, a despeito de seu estranhamento, ela faz todo sentido. Há certas situações nas quais é necessário dividir para crescer. A oposição brasileira até agora sonhou com uma união em cima do nada”.

De fato, trata-se de um conceito muito importante para a política saber que as regras da aritmética não são suficientes. Como diz Trotsky, é preciso utilizar as leis da mecânica: a lei do paralelogramo de forças se verifica, mesmo em política. A resultante é tanto mais curta quanto mais divergente são as forças. Quando os aliados atiram em direções opostas, a resultante é igual a zero. Subordinar-se à política e à estratégia do PT, nas inúmeras “frentes amplas parlamentares” ou “frentes amplas progressistas”, não nos deixa mais fortes. Pelo contrário, nos enfraquece: essas “unidades por cima” se estabelecem sob a condição de que os trabalhadores, as mulheres, os negros, a juventude, sejam divididos por baixo.

Entretanto, o artigo é revelador de como Safatle não estabelece uma relação de concretização de conceitos com a esquerda, quando a crítica teórico-estratégico tem muito a dizer sobre a política de organizações como o PSOL.

Esta organização rege sua política de acordo com as leis mais rudimentares da aritmética: basta observar sua participação em “frentes amplas” no parlamento não apenas com partidos de conciliação de classes como o PT e o PCdoB, mas inclusive com partidos burgueses, como a Rede, o PSB e o PDT, como na “Frente Parlamentar Progressista”, ou mesmo em acordos como o “Manifesto Unidade para Reconstruir o Brasil” prévio às eleições de 2018, que no caso era mais do que uma aliança eleitoral, tendo então como tarefa proposta a “construção de uma nova maioria”.

Uma aritmética política que chega às raias do surreal: o que dizer dos “diálogos de afinidades” Marcelo Freixo com ninguém menos que Janaína Paschoal, figura da extrema direita?...

As “unidades em cima do nada” (para usar o terminologia sugestiva de Safatle) que realiza o PSOL terminam se revelando como unidades sobre um programa de conciliação com nossos inimigos (ou até mesmo programas francamente burgueses). Excluem a mobilização real das bases nos locais de trabalho e estudo, e constituem um freio para a massificação da luta de classes contra os ataques de Bolsonaro. O complemento a esta “frente ampla” é a política de contenção e divisão dos trabalhadores pelas centrais sindicais, como a CUT e a CTB, para que nada saia do controle.

Seguindo as marcas da hegemonia operária

Um combate sério significa unificar, em função de objetivos práticos da luta de classes, toda a classe trabalhadora e os setores populares contra o bloco unificado dos capitalistas, a extrema direita e o autoritarismo judiciário. Para isso, ao contrário de “frentes amplas” com partidos burgueses ou de conciliação de classes, a frente única operária para a luta de classes encerra uma grande potência.

Trata-se de um enorme ativo na tradição do marxismo revolucionário, inspirado nos debates do III Congresso da Internacional Comunista, sobre a qual Lênin e Trotsky costumavam elucidar com a frase “golpear juntos, e marchar separados”. “Golpear juntos” com as direções reformistas e burocráticas que ainda possuem peso de direção sobre a classe trabalhadora (como as direções sindicais), porque os trabalhadores tem a necessidade e o direito de se enfrentar como um só punho contra o capital, para além de suas divisões sociais, organizativas e políticas, e porque é através desta ação que as massas podem fazer sua experiência com suas direções oficiais. “Marchar separados” porque não confundimos nossos objetivos estratégicos com os destas direções, apontando nossa independência política a respeito das mesmas, para conquistar a maioria dos trabalhadores para uma estratégia revolucionária capaz de ter hegemonia sobre seus aliados explorados e oprimidos.

A batalha pela hegemonia da classe trabalhadora, com um programa anticapitalista e revolucionário, sobre seus aliados nas camadas mais pauperizadas nos movimentos sociais é o polo oposto pelo vértice à estratégia de construção de derrotas por batalhas não dadas, por parte das direções burocráticas como as do PT.

Essa compreensão é fundamental, e se baseia em que, do ponto de vista teórico, mesmo quando não há uma saída revolucionária imediata, nem por isso ocorre uma recomposição do “sistema hegemônico” burguês sob novas formas. Isso porque, se é verdade que não há “vazios” de hegemonia, esta última depende de um forte correlato econômico, como precisava Gramsci. A crise histórica que atravessa o capitalismo mundial torna cada vez mais estreitas as bases da hegemonia burguesa e, portanto, mais frágeis as novas hegemonias. Vemos isso no mundo todo, com processos – para usar novamente dos conceitos de Gramsci – de “crise orgânica”, ou crises de autoridade estatal e dos partidos tradicionais da classe dominante, que polarizam a situação política e dão origem a novas formas de pensar e sentir. Um dos exemplos mais emblemáticos desse fenômeno ocorre nos Estados Unidos de Trump, em que a maioria da juventude entre 18 e 29 anos preferiria viver num país socialista do que num país capitalista (por mais vago que seja por ora a ideia de socialismo, identificado com democratas reformistas como Bernie Sanders). Não necessariamente abrem processos de luta de classes, mas temos o exemplo dos Coletes Amarelos na França para acrescentar ao rol de possibilidades.

Por fim, mesmo no Brasil de Bolsonaro a situação não permite hegemonias estáveis, num cenário sumamente volúvel e que não exclui processos de luta de classes como componentes inflamáveis das convulsões políticas cotidianas (basta ver a efervescência do movimento estudantil contra os ataques do governo em maio).

As convergências entre a classe trabalhadora e os distintos setores sociais oprimidos ganharam novo relevo também. Se é verdade que os trabalhadores foram objetivamente divididos pelo neoliberalismo, também fica evidente que seus interesses se superpõem aos dos movimentos sociais mais variados, o que lhe permite um poder de influência maior, desde que esteja dotado de uma estratégia independente.

Na atualidade, para além da aliança com os camponeses pobres, que conserva um peso determinante em vários países (como a China e a Índia), os potenciais aliados da classe trabalhadora se multiplicaram no âmbito urbano. O desenvolvimento de movimentos sociais como o de mulheres, o movimento estudantil, por direitos civis – especialmente no regime bolsonarista – são alguns exemplos. Na maioria dos casos, estes movimentos, ainda que policlassistas, não são externos à classe trabalhadora. O movimento de mulheres se superpõe amplamente com um movimento operário que se “feminizou” exponencialmente, o que abre enormes possibilidades no quesito da unidade dos direitos das mulheres e dos direitos trabalhistas. O mesmo poderíamos dizer sobre o movimento negro e de imigrantes (não apenas no Brasil, mas em países como os Estados Unidos, em que ambos os temas tem relevância política ímpar, exacerbadas pelas ameaças de Trump). A problemática da moradia e do transporte, que toca a juventude, abrange temáticas que atravessam os interesses imediatos da classe trabalhadora. A ampliação das demandas democráticas tanto nos países centrais como periféricos se choca abertamente com a imbricação entre exploração e opressão que caracteriza o capitalismo atual.

Essa complexa configuração sócio-estrutural no século XXI – não é diferente no Brasil – apresenta a possibilidade de construir alas revolucionárias em seu interior, com a dupla tarefa de impulsioná-los na medida em que tenham um conteúdo progressista, e ao mesmo tempo lutar por sua independência do Estado burguês (combatendo suas burocracias particulares) para atrair ao campo da classe trabalhadora a parte mais significativa desses movimentos.

Essa é a única união que não divide; mais que isso, é a articulação de volumes de força que prepara um instrumento político independente de toda variante patronal ou burocrática, para dar uma saída distinta do “eterno retorno” da administração do neoliberalismo decadente.

Em nossa interpretação própria, o “dividir para crescer” tem esse sentido: apartar-se de uma vez por todas da senda inúmeras vezes já trilhada por essa estratégia reformista de “humanizar” o capitalismo – fracassados a nível internacional, como evidenciam as experiências catastróficas do Syriza na Grécia e do Podemos no Estado espanhol – e unificar as forças ao redor de um programa anticapitalista e uma estratégia de independência de classe.

Safatle afirma que “a oposição ainda não definiu as rupturas que quer tomar para si, o horizonte de suas novas lutas”. Faz algumas indagações sugestivas a modo de conclusão:

“Tentará ela ser, mais uma vez, o ’good cop’ do capitalismo brasileiro ou estará enfim disposta a vocalizar rupturas até agora não tentadas? Será ela o arauto do retorno a uma democracia que nunca existiu entre nós ou assumirá enfim o desafio de romper e criar o que até agora não existiu? Pregará ela o evangelho da ’integração para todos’ e do respeito a uma emancipação de indivíduos proprietários ou estará disposta a ser a força de desintegração que nos levará para fora do universo de propriedades?”.

São perguntas instigantes, e que se traduzem nesta outra: seremos capazes de construir uma força política que levante um programa de independência de classe que busque ir além dos limites permitidos pelo regime burguês degradado, por uma saída anticapitalista e revolucionária? Para abrir essa possibilidade, os trabalhos da estratégia são indispensáveis no exame crítico das direções, especialmente quando esta buscam ocultar-se nas brumas das dificuldades objetivas, e na preparação de uma organização que esteja à altura das possibilidades abertas.

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André Acier

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