Cultura

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Viva a III Feira Antropofágica de Opinião!

Fernando Pardal

@fepardal

segunda-feira 4 de junho| Edição do dia

Foto: Cia. Antropofágica

"É um tempo de guerra, é um tempo sem sol", dizia a letra da canção "Eu Vivo Num Tempo de Guerra", de Edu Lobo e Gianfrancesco Guarnieri, composta em 1965 para o espetáculo "Arena Conta Zumbi", três anos antes da realização da I Feira Paulista de Opinião idealizada por Augusto Boal. Esse refrão, que a Cia. Antropofágica trouxe diversas vezes ao palco na sua obra, sintetiza bastante do espírito das respostas apresentadas pelos grupos convidados para a III Feira Antropofágica de Opinião, que devorou a feira de 50 anos atrás e hoje convida diversos artistas a refletir sobre o Brasil de hoje.

Ninguém certamente ousaria dizer a pergunta que é o mote da Feira, "O que pensa você do Brasil de hoje?", pode ser facilmente respondida. Ainda mais se isso deve ser feito em apresentações de cerca de 20 minutos, espaço concedido a cada grupo na Feira para apresentar sua reflexão. Assim, é mais atual do que nunca o que disse Boal na Feira de 1968 ao afirmar que "Nenhum de nós, como artista, reúne condições de, sozinho, interpretar nosso movimento social." Frase que a Antropofágica incluiu em uma espécie de manifesto dessa III Feira, juntando-a com outros manifestos devorados, como o Manifesto Comunista (de Marx e Engels, que completa 170 anos), o Manifesto da FIARI (Federação Internacional de Artistas por uma Arte Revolucionária e Independente, escrito por Andre Breton e Leon Trotski há 80 anos), e o Manifesto Antropófago de Oswald de Andrade (que completa 90 anos) - além de um texto de Pagu.

Por isso, o já habitualmente imenso trabalho da Cia. Antropofágica em colocar de pé essa feira - tornado ainda mais difícil nos tempos atuais - recobra uma importância ainda maior do que nas suas duas primeiras edições. Refletir o Brasil é urgente, imprescindível e muito difícil.

Essa dificuldade se expressou nas respostas apresentadas, e talvez a apresentação que melhor sintetize a perplexidade da dificuldade em responder a essa questão seja a da Cia. Teatro Documentário.

Sem pretensão de apresentar uma resposta à questão, o grupo optou por apresentar ao público seu próprio processo de debate sobre o tema, mostrando suas propostas e suas divergências, explicitando tanto as visões de seus membros como a complexidade do tema. A apresentação problematizou seu próprio processo criativo, a relação com o público, a visão política do atual momento e historicamente (já que a proposta da Antropofágica também colocava como mote aos grupos o debate sobre os 90 anos do Manifesto Antropofágico). E, por fim, corajosamente afirmava: temos respostas, mas não temos resposta.

O caráter fragmentário das respostas apareceu em outras apresentações também, ainda que não de forma tão explícita. O fato de que tenham predominando apresentações alegóricas, performáticas, onde o texto não existia ou ocupava um lugar muito secundário na construção da cena, é também um indicativo de que as respostas dos grupos à questão apresentada tinham muito mais o caráter de impressões, de novas perguntas, do que de uma visão mais totalizante que fosse sintetizada em uma breve cena.

O diagnóstico de uma derrota, de um tempo radicalmente "sem sol", apareceu com muita nitidez, por exemplo, na apresentação da Cia. Teatro da Neura. Apresentando os protagonistas como ovelhas, o grupo mostrava quatro formas de submissão ao cenário de uma vitória do status quo: a justiça, os artistas, a mídia e o povo.

A justiça, com sua habitual defesa dos ricos, dos políticos, dos que detém o poder, e sua também habitual perseguição aos negros e pobres; os artistas em sua busca por editais e patrocínios, pela sua expressão e sua própria arte sem se importar com o resto do mundo em chamas; a mídia com suas fake news e sua procura por auditórios através da representação distorcida e manipulada da realidade; e o povo buscando anestesias a miséria cotidiana se entorpecendo com remédios e entretenimento barato. Um personagem resiste e denuncia esses quatro grupos de "ovelhas", dizendo inclusive que o povo apoiou o impeachment e a reforma trabalhista, em um diagnóstico pra lá de pessimista, e que se conclui em um verdadeiro beco sem saída ao mostrar o único resistente se tornando, ao final da cena, mais uma ovelha junto aos demais.

Em outra apresentação com uma leitura bastante desesperançada da momento atual do Brasil, a Próxima Companhia trouxe uma representação de uma manifestação de rua representando a situação da esquerda hoje. Com três palhaços que representavam lideranças ou organizações políticas, apresentaram uma disputa sobre como organizar o movimento (por meio da defesa do círculo, triângulo ou linha), elencaram uma pauta onde entrava toda e qualquer demanda, igualando as pautas mais fundamentais com qualquer tipo de questão aleatória, e botaram o público para marchar, em meio a um ato em que essas lideranças eram presas ou mortas a tiros.

A Cia. dos Inventivos também apresentou uma cena de luta e desespero, com personagens vendadas e amordaçadas que iam aos poucos se libertando umas às outras e se punham a cantar "O meu país é o meu lugar de fala", música de Elza Soares que integra seu novo álbum "Deus é Mulher". Saindo de cena enquanto caíam e iam se amparando e levantando uns aos outros, o que mais chama a atenção é a quem a cena dos inventivos dava voz para falar. Trechos criticando Temer eram reproduzidos para o público, e as vozes que falavam eram de Ciro Gomes e Marina Silva. Talvez a cena dos inventivos seja um pouco na Feira Antropofágica a representação de tantos que, desesperançados da luta, procuram nas alternativas eleitorais demagógicas de representantes desse sistema algum tipo de saída. Ou seria uma forma de dizer que se nossas vozes se calarem, quem tomará cinicamente o posto de crítico a Temer são os políticos que não passam de "mais do mesmo"?

Outras cenas, mais alegóricas e performáticas, também trouxeram a representação da direita, como a Refinaria Teatral, que apresentou três personagens com coreografias corporais e foi o único grupo a colocar em cena a questão dos combustíveis, com uma personagem trajando um vestido senhorial portando um galão da Chevron/Shell (e despejando seu conteúdo como quem esbanja algo) e um personagem trajando roupas militares segurava um galão da Petrobrás sobre o outro, que, deitado e vestindo correntes e trapos, agonizava no chão. Além disso, o personagem de farda, em primeiro plano e na única fala da apresentação, aludia às falsificações da direita que ganham corpo circulando por meio de grupos de Whatsapp.

O Coletivo de Galochas apresentou um trecho de sua peça "Mau Lugar", a representação de uma sociedade distópica em que vigora (ainda mais) a regulamentação dos sentimentos, e em que a protagonista, uma chefe de sessão em uma fábrica, é criminalizada pelo suicídio de sua filha. Uma belíssima apresentação do grupo que também não fugiu ao clima hegemônico de uma certa desesperança.

Mas nem todas as apresentações trouxeram um tom pessimista, de desesperança ou derrota. Sempre um dos pontos altos da Feira, o incrível grupo Rosa dos Ventos, de Presidente Prudente, colocou seus palhaços para apresentar ao público uma visão de um "debate de ideias" com um "coxinha". Enfiando facas que representavam ideias em um repolho que representava o cérebro do coxinha o grupo mostrou alguns dos principais preconceitos que estão presentes no senso comum da direita hoje em dia, e ao final convidou o público para um "ritual antropofágico" de comer o cérebro com vinagre.

Já o Grupo Clariô, que no fim de sua cena se dirigiu ao público falando abertamente como não considerava ter respondido a questão de tamanha complexidade, foi um dos pouquíssimo que, nessa edição da Feira, apresentou uma cena em que a resistência e a luta eram as protagonistas, retomando a luta dos negros que foram escravizados e colocando ela diante do público, apresentando assim a questão estrutural do racismo e da luta negra no Brasil como o centro de sua leitura sobre o Brasil de hoje. A sua perspectiva, contudo, não deixava de apontar como o racismo não está em nenhum momento dissociado da divisão da sociedade em classes, com a exploração que está sempre utilizando a opressão aos negros para aumentar os lucros.

Além do show do Cabaré Feminista, o grupo Núcleozonautônoma também centrou sua intervenção na Feira em uma denúncia do machismo, colocando no palco os feminicídios e também os dogmas religiosos que as mulheres decidam sobre seu próprio corpo e o aborto seja legalizado.

O tema do aborto também foi levantado pelo Folias D’Arte, em uma cena satírica com os personagens como ratos que condenavam uma mulher pelo "assassinato de uma criança" por ter abortado. Distribuindo ao público pedras, convidavam a linchar a "culpada".

O tema da ditadura, que recobra sua atualidade com a demanda pela intervenção militar tendo sido colocada pela primeira vez a frente de um movimento expressivo como foi o dos caminhoneiros, esteve presente na apresentação do Grupo Pandora, que, sendo de Perus, partiu do tema da vala clandestina com centenas de corpos que está localizada no cemitério dessa sua região, e a partir disso mostrou o tema da impunidade, da tortura, da liberdade de expressão.

Mais uma vez, a III Feira Antropofágica de Opinião cumpriu brilhantemente o papel de abrir um panorama, um fórum em que se apresentam os processos, produções, opiniões dos diversos grupos. Um momento necessário, que abre diálogos, reflexões e nos coloca desafios. Nos mostra, nessa edição, que os ataques brutais que a classe trabalhadora e os setores mais explorados e oprimidos de nosso país vêm sofrendo não passam ao largo dos grupos teatrais que estão desse lado da barricada. A desorganização, a precariedade material, a dificuldade de respostas atinge também os artistas de nossa classe, e isso fica claro no breve mas representativo panorama colocado pela Feira. A Cia. Antropofágica, como linha de frente do front teatral, cumpre um papel decisivo e imprescindível ao colocar de pé, em meio ao turbilhão nacional, mais uma edição da Feira. Como em 1968, em meio aos momentos mais duros da ditadura, Boal viu a necessidade de colocar de pé um espaço para reflexão e debate, de balanço e perspectivas, também hoje a Antropofágica se deu esse papel importantíssimo. Cabe a todos nós, agora, devorar os frutos dessa feira para sermos "fortes e vingativos" como o Jaboti, e nos colocarmos de pé para as lutas que aí estão.




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