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ELEIÇÕES ESTADOS UNIDOS

Violência, operações políticas e polarização na reta final de eleições cruciais para Trump

Violência política, crimes de ódio racista e operações de todo tipo esquentam a reta final da campanha para as eleições de meio mandato nos EUA, na qual o presidente Trump deposita em grande medida o futuro de sua administração.

Claudia Cinatti

Buenos Aires | @ClaudiaCinatti

domingo 28 de outubro| Edição do dia

Enquanto isso acontece no plano doméstico, a política exterior está por conta própria. O assassinato do jornalista Jamal Khashoggi no consulado saudita em Istambul, colocou em foco a aliança estratégica dos EUA com a reacionária monarquia saudita, defendida igualmente por democratas e republicanos e pela elite empresarial. Os EUA anunciaram sua retirada do tratado de redução de arsenais nucleares com a Rússia (Tratado INF, assinado por Reagan e Gorbachov), uma mensagem inequívoca da preparação estratégica para um conflito entre potências. Mas esses eventos políticos, que seguramente terão consequências de grande alcance, passaram para um segundo plano, superados pelas notícias locais.

Neste sábado, 27 de outubro, um homem armado com um fuzil AR15 e com pelo menos três pistolas disparou em uma sinagoga em Pittsburgh, enquanto gritava slogans antissemitas. O ataque deixou 11 mortos, sendo considerado um dos piores massacres contra a comunidade judaica nos Estados Unidos. As primeiras investigações indicam que o autor dos disparos, Robert Bowes, tem um histórico de posições antissemitas, contra refugiados e contra diversas minorias, expressas em sites de supremacia branca.

A semana já estava carregada. Nesta sexta-feira, 26, após 72 horas de incerteza e especulação, o FBI prendeu na Flórida o suposto remetente de dezenas de pacotes de bombas dirigidos a figuras proeminentes do Partido Democrata e a oponentes declarados do governo Trump. O casal Clinton, o ex-presidente Barack Obama, ex-diretores da CIA, CNN, atores como Robert De Niro e o magnata George Soros, entre outros, compõem a lista dos que receberam esses artefatos explosivos, todos interceptados antes de chegarem ao seu destino.

César Sayoc, assim se chama o “mail bomber”, atende a todas as exigências dos “manuais do radical de direita”: homem, de meia idade, branco, com condições de existência precárias, ativo nas redes sociais do grupo All Rigth e entusiasta de apoio Donald Trump. À medida em que as horas passam, os hábitos e opiniões políticas desse indivíduo vão se tornando conhecidas: já foi visto em atos da campanha de Trump com o típico chapéu vermelho com o slogan MAGA (“Make America Great Again”); compartilhando "fake news" inflamadas do Breitbart, o site projetado por Steven Bannon para alimentar a paranoia da extrema direita; postando conteúdo racista contra Obama ou de páginas como "Handcuffs for Hillary" (“Algemas para Hillary”). Aparentemente, Sayoc vivia em uma van adesivada com imagens típicas do núcleo duro da base trumpista: bandeiras americanas e Hillary Clinton na mira de um rifle.

É provável que Sayoc, que supostamente tem problemas psiquiátricos, tenha agido por conta própria. Mas também não se pode excluir a ideia de que tenha sido manipulado por algum setor do obscuro "estado profundo", como aconteceu em outros momentos de crise política. Sem dúvida, o homem tem todos os requisitos para qualquer uma dessas variantes.

A prisão de Sayoc, que pode receber uma pena de mais de 50 anos de prisão, de nenhuma maneira põe fim às especulações e teorias da conspiração que se tornaram regra no clima político rarefeito dos EUA. É possível que as evidências não abalem a convicção de um setor da base republicana de que as bombas eram uma “flase flag", ou seja, um fato forjado pelos democratas para melhorar suas chances eleitorais. Estes setores acreditam não só que há uma onda de "invasões bárbaras" que ameaçam o modo de vida americano, como também que Obama é "comunista".

Em uma mostra bizarra de até onde o delírio da direita pode chegar, o Council of Economic Advisers, um grupo intelectual que assessora Trump, acaba de publicar um documento de 72 páginas com selo da Casa Branca, em que afirmam que junto com os democratas (ou seja, o partido de Wall Street e as guerras imperiais) vem o “socialismo”, nomeando Lenin uma dúzia de vezes. Como se fosse preciso, o partido democrata vem se declarando como o outro braço do bipartidarismo da burguesia imperialista, em que a senadora Elizabeth Warren, referente junto com Bernie Sanders da ala progressista democrata, vem explicando que é “capitalista até a medula”. Inclusive apresentou um projeto de lei para um “capitalismo controlado” como um antídoto contra o “socialismo” e o trumpismo.

Ainda não está claro o efeito que terá (se é que terá algum) essa mescla de violência política e racismo no resultado das eleições do próximo 6 de novembro. Por via das dúvidas, Trump já advertiu sobre o dano que o incidente das bombas causou à campanha republicana, acusando-os aos meios corporativos liberais, como a CNN, de “desonestos” por terem atribuído o incidente das bombas ao clima de polarização e “guerras culturais” que a própria Casa Branca alimenta.

Todas as eleições de meio término, a sua maneira, plebiscitam os governos de turno. Mas essas próximas serão ainda mais. O próprio Trump transformou as eleições em um referendo sobre sua gestão. “Façam de conta que estou na cédula”, disse a uma multidão de fanáticos em Mississipi. O presidente participa ativamente nos atos de campanha, agitando o patriotismo, o sentimento anti-imigrante – amplificando o ódio aos desesperados que tentam chegar aos Estados Unidos – e a demagogia contra a “elite”. Praticamente todos os candidatos republicanos se alinharam com o presidente, ao ponto de que os conservadores tradicionais consideram que o Grand Old Party agora é o “partido de Trump”. Este não é um detalhe menor se for levado em consideração que o establishment republicano, partidário do consenso globalizador neoliberal, resistiu sem êxito à ascensão de Trump à presidência. Hoje os republicanos em sua versão “populista” controlam o executivo, o Congresso e acabam de conseguir uma maioria conservadora na Corte Suprema com a nomeação do juiz Brett Kavanaugh, conhecida por sua militância anti-abortista.

Por hora a economia segue favorecendo a Trump. A queda registrada no terceiro trimestre – 3,5% com respeito ao 4,2% do trimestre anterior – assim como as perdas de Wall Street mostram as debilidades que subjazem, mas dificilmente incidam negativamente nas eleições de novembro. Junto com a baixa taxa de desemprego formam os pontos fortes da campanha republicana. A arte de Trump é ligar estes índices com suas políticas que mesclam protecionismo – guerras comerciais contra a China e a União Europeia, retiro e renegociação de tratados comerciais, tarifas, etc. – com desregulação e baixa de impostos às grandes corporações.

O resultado das eleições ainda tem final aberto. É esperada uma participação eleitoral recorde de um eleitorado que aparece cada vez fragmentado. Um estudo recente da RealClear Politics identificou cinco “tribos” igualmente minoritárias, que nos extremos têm o núcleo duro de Trump e o da “resistência”, e nas gradações estão os conservadores e democratas moderados, desencantados e os “democratas oscilantes” (que antes foram chamados de “democratas de Reagan”). Ainda que tudo indique que será uma disputa muito acirrada, sites de pesquisas e estatística coincidem que o mais provável é que os democratas recuperem a maioria na Câmara de Representantes e os republicanos retenham a maioria no Senado. Este último é importante porque distanciaria a possibilidade, claramente remota, de que algum setor da burocracia político-estatal pense em recorrer ao impeachment para substituir Trump.

O ataque à sinagoga no marco da xenofobia que a Casa Branca destila, e antes o “affaire bomba”, são outros tantos sintomas da profunda crise que está chegando ao coração do sistema democrático burguês. Como não interpretar tudo como luta de camarilhas no interior da Casa Branca, com funcionários que admitem que roubam documentos do escritório para Trump? Ou como enfrentamento entre o executivo com o FBI e a CIA? Há que remontar o fim precipitado da presidência de Nixon para encontrar algo similar. Essa crise é produto de uma forte polarização e de divisões venenosas no interior da classe dominante e do aparato estatal que deixou de herança a Grande Recessão de 2008 e o fim do consenso neoliberal. Ou seja, uma “crise orgânica” para usar a categoria de Gramsci.

A presidência de Trump, e mais no geral o ascenso eleitoral de variantes de extrema direita como o próprio Bolsonaro no Brasil, são um produto e uma primeira resposta burguesa com traços cesaristas a essa crise, que está voltando a colocar o mundo sobre os trilhos das guerras comerciais e os conflitos entre potências em perspectiva.

Tradução: Lara Zaramella




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