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VIDEOARTE

Videoarte (parte 1): experimentalismos, crítica social e o surgimento de um novo suporte

A videoarte se insere nos experimentalismos e contestações artísticas dos anos 1960 e 1970. A utilização do vídeo nas artes também se localiza no que ficou conhecido como “arte contemporânea” cuja abrangência de suportes, linguagens e técnicas é bastante ampla. Questionar os suportes tradicionais da arte era uma das premissas principais desse período, bem como contestar o sistema da arte.

segunda-feira 2 de novembro de 2015| Edição do dia

A videoarte se insere nos experimentalismos e contestações artísticas dos anos 1960 e 1970 em um Brasil carregado por torturas, mortes e falta de liberdade devido a ditadura civil-militar (1964-1985).

A utilização do vídeo nas artes também se localiza no que ficou conhecido como “arte contemporânea” cuja abrangência de suportes, linguagens e técnicas é bastante ampla. Dentre alguns desses meios utilizados podemos citar a xerox, o carimbo, o silkscreen, o livro, o off set, o cinema, o vídeo, as instalações, o lixo, a poesia, os excrementos humanos, a performance, o heppening, as intervenções urbanas, a carne.

Questionar os suportes tradicionais da arte (pintura, desenho, gravura, escultura) era uma das premissas principais desse período, bem como contestar o sistema da arte (instituições, financiamento, divulgação, crítica de arte).

Eram artistas marginais, conceituais, tropicalistas, undergrounds, acadêmicos, outsiders, militantes, críticos às críticas, filósofos, autodidatas e por aí vai. Os mais conhecidos no mundo da arte são: Hélio Oiticica, Ferreira Gullar, Cildo Meireles, Lygia Pape, Lygia Clark, Artur Barrio, Anna Bella Geiger, Regina Silveira, Mira Schendel, Paulo Bruscky, Antonio Dias, Carlos Zílio, Letícia Parente, Antonio Manuel, entre outros.

As obras iam desde as “inserções em circuitos ideológicos” de Cildo que inseria nas garrafas de coca cola um passo a passo para confeccionar um molotov e as cédulas de dinheiro carimbadas com a pergunta “quem matou Herzog?” até as “trouxas ensanguentadas” de Artur Barrio em que ele aglomerava carne e tecido formando uma espécie de corpo mutilado depositando-as em beiras de rio e espaços públicos.

Pintar ou desenhar já não definia mais o artista mas sim sua poética, seu discurso, sua linguagem. Arte e vida se misturavam chegando ao ponto de artistas como Paulo Bruscky terem sua casa entendida como parte do seu trabalho artístico. O coletivo dava lugar ao individual e os grupos e parcerias se expandiam por meio de revistas, mostras, eventos, protestos e diversas outras formulações fora do campo tradicional da arte. A crítica ao mercado de arte também foi explorada, apesar da lógica capitalista de transformar tudo em mercadoria.

Se quisermos, podemos analisar como se deu a incorporação desses experimentos dos anos 1960 e 1970 no sistema da arte. O capital sempre deu um jeito de incorporar as novas linguagens que surgiam. Não se podia comprar a intervenção de Artur Barrio, mas a fotografia sim. Não se podia comprar performance, mas os registros em vídeo ou filme sim. As cartas e documentos de artistas também passaram a ter valor mercadológico.

Mas e a vídeoarte: “o que é? E para que serve?” (parafraseando Bruscky).
Segundo Walter Benjamin, em “A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica” (1936), o progresso industrial possibilitou a circulação cada vez maior da arte, sobretudo do cinema e da arte impressa, pois as técnicas de produção e reprodução se massificaram tornando-as mais acessível ao público. Tal processo retira a arte de seu lugar sagrado concedendo-a valores de consumo muito semelhantes às mercadorias do cotidiano.

Pois bem, nos anos 1960 temos alguns acontecimentos no meio industrial tecnológico que são de extrema relevância e expressam essa massificação que Benjamin está falando. Técnicas como a xerox, o silkscreen, o off set antes utilizadas apenas para fins estritamente comerciais passam a ser incorporadas ao mundo sagrado da arte possibilitando maior circulação das obras produzidas e contestando, inclusive, os suportes tradicionais.

O vídeo e o filme, por sua vez, sofrem também uma importante mudança nesse período: o lançamento da câmera portátil de vídeo da Sony (portapack ½ pol.) e da câmera Super 8, o que deu início a um processo gradual de acesso à produção de imagens em movimento.

Para quem quiser conhecer um pouco a videoarte é possível encontrar algumas obras na internet ou então visitar exposições.Acesse aqui e veja onde encontrar exibições na cidade de São Paulo.

*No próximo artigo veremos um pouco sobre as primeiras experiências dessas novas linguagens e o conteúdo das discussões que aparecem nesses trabalhos.




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