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Venezuela: com a política do Socialismo y Libertad não se enfrenta o imperialismo nem a direita

No âmbito da agressão e ingerência imperialista, publicamos uma polêmica da LTS (grupo irmão do MRT) da Venezuela com a política do Partido Socialismo e Liberdade (PSL), organização irmã da CST-PSOL no Brasil e membro da UIT.

quinta-feira 14 de março| Edição do dia

A Liga dos Trabalhadores para o Socialismo (LTS) da Venezuela faz parte da Fração Trotskista - Quarta Internacional, juntamente com o MRT no Brasil e o PTS da Argentina e outras organizações a nível internacional. Neste artigo apresentamos um debate com a política do PSL da Venezuela frente a intervenção golpista do imperialismo. O PSL faz parte da Unidade Internacional dos Trabalhadores (UIT), juntamente com a CST-PSOL.

A ofensiva do intervencionismo imperialista desde meados de janeiro ditando cada passo da direita venezuelana e acompanhada por todo o direitismo continental em uma ofensiva golpista para impor através da força através um governo fantoche liderado por Juan Guaidó. Houve sanções econômicas, como o embargo de petróleo e o bloqueio dos ativos extraterritoriais da Venezuela, bem como a operação hipócrita de "ajuda humanitária" em 23 de fevereiro, entre outros movimentos políticos. Tal política tem fracassado porque eles não conseguiram quebrar as Forças Armadas, o principal pilar do regime de Maduro.

A oposição de direita e do imperialismo e todos direitismo internacional fazem demagogia com as calamidades de uma crise que começou pela queda dos preços do petróleo, o saque das rendas petroleiras, e se aprofundou pelas políticas antioperárias de Maduro, assim como fazendo uso de uma cruzada cínica pela "democracia", devido ao autoritarismo repressivo deste governo, que levou à fadiga dos trabalhadores. A estes setores o que menos interessa é o padecimento do povo venezuelano e as questões democráticas, como já foi exposto com seus chamados aos militares para dar um golpe em Maduro, e governar com essas mesmas forças armadas repressoras a quem até que ofereceu uma lei de anistia.

Apesar da denúncia do imperialismo, sua política concreta é mais funcional para o ataque imperialista

Nesta situação, o Partido Socialismo e Liberdade (PSL, grupo irmão da CST-PSOL), apesar de ser uma corrente que se reivindica anti-imperialista e independente tanto do governo e da oposição de direita na atual situação tem uma orientação que hierarquiza, como consigna motora de sua política o "Fora Maduro", ao invés de uma orientação, sem dar a menor apoio ao governo de Maduro e denunciando suas políticas antioperárias e repressivas, chame em primeiro lugar para derrotar a agressão imperialista e o renovado golpismo de direita que visa, justamente, derrubar Maduro para colocar Guaidó.

Pois se trata de uma política abertamente recolonizadora na Venezuela e no continente, onde um triunfo do golpismo pro-ianqui será um elemento de peso e fortalecimento de todos os governos neoliberais e de direita no continente, como Bolsonaro, Macri, Piñera, Duque, e instituições pró-imperialistas como a OEA e toda a ofensiva do capital liderada pelo FMI. Essa perspectiva é que devemos nos opor com toda a energia possível.

A política PSL tem sido a "todos contra Maduro" em meio à ofensiva golpista do imperialismo e da direita local, que os leva a ser acompanhantes dessa ofensiva, embora com uma consigna "radical" ou "popular". Esta lógica leva a "ação comum" com todos aqueles que estão "também" pela queda do governo, ou seja, inclui todos aqueles que o querem retirar para que ascenda a direita ou triunfe a ofensiva liderada pelos Estados Unidos.

Com esta consigna central, durante todo o tempo o eixo da política dos companheiros do PSL não foi enfrentar vigorosamente a intervenção imperialista a denúncia furiosa do avanço golpista. A crítica de ingerência imperialista aparece subordinada a consigna central da "Abaixo Maduro", acompanhada pela consigna "Com a mobilização independente dos trabalhadores", como se adicionando esta consigna, por si só, já estivessem separados da onda golpista quando o grosso das mobilizações, seus chamados e datas foram todos determinados pela direita pró-imperialista.

Levantam esta política sob a premissa de que "podemos estar todos juntos" porque temos "algo em comum", que é ser contra este governo, sem diferenciar o caráter de classe e interesses conflitantes que existem no campo de "todos contra o governo": como se fossem os mesmos interesses dos trabalhadores que estão fartos de Maduro, e os do capital internacional e do imperialismo dos EUA que também querem tirá-lo.

Ambas as mobilizações, tanto no 23J quando Guaidó se autoproclamou "presidente responsável" quanto a do 12F em que anunciou entrada da "ajuda humanitária", organizada pelos Estados Unidos, mostravam claramente a natureza reacionária delas, mesmo que nelas tenham participado importantes setores do povo pelo desgaste com Maduro. Esse é o seu conteúdo político, uma vez que estão colocados por esse objetivo imperialista e para impor um plano econômico profundamente antinacional e antipopular.

Se, durante os protestos em meados de 2017, não enfrentar no mesmo plano o governo de Maduro e a MUD levou ao PSL a reboque da política da oposição de direita, chamando a apoiar as marchas de apoio MUD, participando do plebiscito desta em 16J e até mesmo em sua "paralisação cívica" patronal, hoje com grande ofensiva e golpe intervencionista, a orientação do PSL os leva de novo a esta política.

Embora afirmem ser contra o imperialismo e contra Guaidó, colocando como eixo central de sua política o "fora Maduro" e "todos contra o governo", se adaptam objetivamente à política da oposição de direita, o inimiga mortal das massas trabalhadoras.

Um dos argumentos apresentados é o de que todo o povo é contra Maduro e o "fora Maduro" constitui a demanda fundamental, levando a segundo plano intervencionismo imperialista e o golpismo em curso. Mas em uma situação onde Trump, Guaidó e direita continental também estão pelo “Abaixo Maduro" e com possibilidades concretas de realizá-lo, a posição do PSL não significa outra coisa que não se juntar a esta linha, embora adicionem "com a mobilização do povo trabalhador".

Os camaradas sustentam que "O Partido do Socialismo e Liberdade (PSL) está ciente de que a maioria do povo trabalhador venezuelano apoia a saída de Nicolás Maduro e seu governo de fome e repressivo. O povo trabalhador não aguenta mais o desastre que causou o falso socialismo chavista.” Mas o PSL não parece estar "consciente" até o final de que esta situação é demagogicamente usada pelo imperialismo e pela direita nativa para impor um golpe, como foi visto em 23 de fevereiro.

É verdade que há uma saturação com o governo de Maduro e que a situação é insuportável, mas na situação atual há uma intervenção política descarada com uma investida golpista que, se não conseguiu se impor, como já dissemos, é porque a oposição e o imperialismo não conseguiram romper as Forças Armadas. No cenário atual, a reação dirige todo o movimento opositor nas ruas, para atrás de Guaidó e de todos os partidos da direita, com a imposição direta do imperialismo e da direita latino-americana.

Frente a um golpismo tão evidente, Maduro não sairia pela ação de uma rebelião operária e popular, ou por um ascenso da luta dos explorados e oprimidos, mas pela investida imperialista e da política de direita que cavalga no descontentamento popular, para impor um presidente nomeado diretamente pelos EUA. Mas o retorno da direita neoliberal e pró-imperialista ao poder, nesse contexto, não parece ser um grande problema para o PSL.

A Intersetorial dos Trabalhadores, um espaço concreto onde se expressa grosseiramente essa orientação

A Intersetorial Trabalhadores da Venezuela (ITV) é um espaço de intervenção concreta onde se põe a prova de que maneira se batalha ou não por uma política de independência de classe. Ela nasceu na segunda metade do ano passado como uma tentativa de frente única operária para se defender contra os ataques antioperários do governo e, como toda frente única, tem uma variedade de correntes ideológicas e políticas, neste caso, boa parte daqueles a frente dos sindicatos que a compõem pertencem a partidos de direita ou têm simpatia por essas ideias. É óbvio que as correntes políticas envolvidas no movimento operário procuraram levar a luta econômica dos trabalhadores aos objetivos políticos que sustentam, o dever daqueles que nos reivindicamos da esquerda operária e socialista esquerda é lutar contra as correntes que querem subordinar os trabalhadores a políticas estranhas aos seus interesses de classe.

É precisamente isso que, infelizmente, os companheiros do PSL não têm feito. Ainda que tenhamos coincidido, juntamente com outras correntes, em denunciar o imperialismo e lutar para que a ITV não apareça como um espaço de respaldo à ofensiva de direita, a política de "Abaixo Maduro" em meio à ofensiva imperialista, os levou nos fatos a coincidir dramaticamente com a maioria dos líderes sindicais de direita que também dizem "Abaixo Maduro"... para por Guaidó.

Ao calor da nova ofensiva da oposição, as correntes sindicais ligadas a direita têm se esforçado para que a ITV se junte as mobilizações e a política de Trump/Guaidó. Queriam que o ITV se juntasse à marcha do dia 23 de janeiro, em que se concretizou a decisão dos EUA e um setor da direita de proclamar Guaidó como "presidente". Alguns setores nos opusemos, levantando que se fizesse uma mobilização própria da Intersetorial, independente do governo e da oposição. No entanto, os companheiros do PSL, em vez de lutar fortemente por essa ideia e denunciar a mobilização de 23J como parte da agenda de direita agitada desde Washington, foram coincidir com a solução que "todo mundo é livre para ir a marcha" e, pior, falaram que alguns de seus dirigentes (como Orlando Chirino) marcharia de forma individual.

Mas foi no recente Plenário da ITV de 26 de fevereiro, onde ficou muito mais evidente a tragédia da política a que conduzem os companheiros. Este se transformou em um plenário totalmente pró Guaidó, com uma alta quantidade de intervenções em favor da política de direita e de colocar as lutas dos trabalhadores em função da mesma (com vozes reivindicando abertamente os objetivos golpistas do operativo da “ajuda humanitária”). Ou seja, se transformava a ITV em um veículo para levar os trabalhadores a fazer parte da ofensiva imperialista.

Mas nesse 26F, em vez de lutar com força contra isso, de dar centralidade para denunciar tais fins, de hierarquizar a luta contra a ingerência imperialista através da qual se estava levando trabalhadores, o PSL acabou concordando com a ideia de "greve geral" que supostamente contempla a todos, porque "todos estamos pela derrubada de Maduro".

Embora um companheiro da C-CURA (a corrente sindical que impulsiona o PSL) questionou a intenção de levar a ITV atrás da política Guaidó e que Orlando Chirino disse que eles são "dos que não estamos com Guaidó" o eixo de intervenções do PSL não foi a de colocar um obstáculo à pretensão de levar a ITV atrás da política de direita, mas contemporizou com a maioria pró-Guaidó ajudando a construir o "consenso" sobre o qual se impôs a política deste setor.

O argumento da maioria dos dirigentes sindicais foi que, ao não haver consenso de se opor à política de Trump e Guaidó, isso não se assume como orientação para a ITV, mas que há consenso em que "somos todos contra Maduro." Os companheiros do PSL, ao não dar centralidade para a batalha contra a orientação Trump/Guaidó, ao mesmo tempo que fazem o eixo na generalidade do "somos todo contra Maduro", acaba sendo parte da manobra que conseguem passar como orientação "consensuada", de colocar marchas, greves e uma possível "greve geral" de acordo com a ofensiva dos EUA e da direita.

O PSL contribui, assim, com uma consigna aparentemente "radical" e "classista", a colocar a ITV sob as diretrizes da oposição de direita, ao permitir que a ITV aporte um "componente operário" ao movimento de Guaidó e cia.

Na verdade, poucos dias antes da plenária, foi demonstrado claramente a consequência de semelhante "consenso" de "paralisação e greve" da ITV, com a participação de muitos de seus referentes na reunião com Guaidó que resultou, precisamente, em seu chamado para uma "paralisação" da administração. Uma óbvia greve política com objetivos reacionários, apoiada justamente na orientação da ITV que os companheiros do PSL, infelizmente, ajudaram a definir.

Os companheiros do PSL colocaram um balanço do plenário, onde observam corretamente que o mesmo não teve independência de classe, com uma ênfase que, no entanto, não corresponde a atuação concreta que tiveram durante o mesmo onde não batalharam ou tentaram impedir a orientação pró-ofensiva de direita que prevaleceu nele. Se esse balanço posterior envolver qualquer retificação dessa atuação, bem vindo seja, ainda que no momento não pareça ser, porque, apesar de reconhecer que o plenário não tenha independência de classe, não questionam a orientação que foi decidida, e com a qual eles contribuíram, que é precisamente a expressão dessa falta de independência de classe.

Mais uma vez: a importância de uma luta consistente por uma política trabalhista independente

Como vínhamos polemizando anteriormente com as posições do PSL, há um problema quando se proclama a independência frente a oposição patronal pró-imperialista, mas nos fatos propõe uma linha que leva os trabalhadores não a ser mais do que os apêndices ou complementos das políticas desta mesma direita. Ao invés de se juntar às manifestações, reuniões e manobras políticas da oposição burguesa, devemos rechaça-las e lutar para que os trabalhadores se dotem com a sua própria política, de independência de classe, opondo-se tanto ao governo como à oposição liderada pelos Estados Unidos.

A declaração da Frente de Esquerda (FIT) da Argentina para convocar a marcha para a Embaixada dos EUA em Buenos Aires em 27 de fevereiro, corretamente articulou a política antiimperialista com a independência do governo Maduro. A corrente irmã do PSL na Argentina, Izquierda Socialista, portanto, assinou uma declaração de que tem uma lógica diferente da que impulsiona na Venezuela, o que expressa uma contradição entre o que assinou na Argentina com a política prática na Venezuela.

Os socialistas revolucionários da LTS na Venezuela e da Fração Trotskista - Quarta Internacional, atual internacional de que somos parte, partimos da concepção histórica que levantou trotskismo quando há confrontos entre países imperialistas e semi-colônias ou países dependentes, que se baseia, em primeiro lugar, do respectivo caráter dos estados, além dos regimes políticos que existem em cada país ("junto com o Brasil ’fascista’ contra a Grã-Bretanha ’democrática’", Leon Trotsky).

Trotsky escreveu: "Vamos dar o exemplo mais simples e mais óbvio. No Brasil existe atualmente um regime semifascista que qualquer revolucionário só pode considerar com ódio. Suponha, no entanto, que amanhã a Inglaterra entre em um conflito militar com o Brasil. De que lado a classe trabalhadora estará localizada neste conflito? Neste caso, eu pessoalmente estaria ao lado do Brasil "fascista" contra a Grã-Bretanha "democrática". Por quê? Porque não seria um conflito entre democracia e fascismo. Se a Inglaterra ganhasse, colocaria outro fascista no Rio de Janeiro e ataria o Brasil com duplas cadeias. Se ao invés disso o Brasil sair triunfante, a consciência nacional e democrática deste país conquistaria um poderoso impulso que levaria à derrubada da ditadura de Vargas "(A luta anti-imperialista é a chave para a libertação).

Esta é uma concepção que parte da consideração de que qualquer triunfo do imperialismo se tornará uma cadeia dupla para as massas exploradas e oprimidas não apenas do país atacado diretamente, mas também seria uma derrota para todos os povos oprimidos do mundo, e mesmo para o proletariado dos países agressores imperialistas. Mas se derrotar o imperialismo seria um poderoso impulso das massas e do povo trabalhador, para derrotar esses governos repressivos com a rebelião operária e popular, facilitando a auto-organização e abrindo o caminho para o governo seus próprios trabalhadores.

A política operária independente na situação atual é confrontar firmemente o intervencionismo imperialista enquanto desenvolve a luta dos trabalhadores contra a situação de miséria e autoritarismo. O programa operário de emergência que várias correntes como as nossas levantam não pode ser separada da luta contra o imperialismo, um programa operário que visa atender as necessidades operárias e populares golpear o capital imperialista e local, enfrentando não só a política de Maduro mas também com demands específicas para derrotar a agressão imperialista.

Em seu antigovernismo as secas, os camaradas do PSL não partem dessa premissa básica. É que há uma questão de substância nesta posição política do PSL, sua teoria da "revolução democrática", onde o importante é a queda do atual governo, não importa como ele caia e quem o derruba. É o que os leva a ter políticas cujo eixo é apenas antigovernamental, mesmo quando existe uma ofensiva reacionária com grandes mobilizações de direita incentivas pelo imperialismo contra os governos, dando pouca ou nenhuma importância para combater de forma consistente estas ofensivas. Uma espécie de política de "todos contra o governo da vez", independentemente da natureza das mobilizações e daqueles que as impulsionam, onde a independência de classe é liquidada.

Apelamos aos companheiros do PSL para corrigir esta política e batalhar juntos contra todo esse golpismo da avançada imperialista avançada e da direita local, tal qual a declaração principista assinada na Argentina, onde se articula a política anti-imperialistas com total independência do governo de Maduro.




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