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Racismo no Supermercado Extra

Vencer o racismo para além do judiciário

Na última semana o Supermercado Extra foi condenado a pagar uma multa de quase meio milhão de reais por humilhar e constranger uma criança de 10 anos e, a referida empresa, também teve que responder por discriminação racial e segregação da pessoa negra.

quarta-feira 13 de dezembro de 2017| Edição do dia

Colocado este fato, faz-se essencial e urgente refletir sobre o quanto esta situação simboliza o racismo estrutural e cotidiano no Brasil, começando por se atentar a este caso do Supermercado Extra na qual a expressão de uma vitória individual para a criança negra (importante ressaltar aqui a morosidade da Justiça que se arrastou por seis anos antes da condenação), não reflete a realidade da grande maioria de pretas e pretos que vivem neste país e que são invisibilizadas (os) e/ou difamadas (os) pela mídia, sofrendo inúmeras injustiças sem reparo ou retratação ao serem sistematicamente perseguidas (os), humilhadas (os) em locais públicos ou privados ou mesmo impedidas (os) de frequentá-los.

É possível perceber, através deste caso aqui descrito, o quanto o racismo estrutural afeta principalmente a juventude negra, pois existe um sistema jurídico que legitima sua criminalização ao passo que a criança humilhada pelo supermercado teve a sorte de obter um julgamento “justo” enquanto sabemos que há um encarceramento em massa da população negra, em sua maioria jovem, como aponta dados coletados em 2016 e contidos no Mapa do Encarceramento e, ainda, dos negros presos 40% estão em situação provisória, ou seja, foram julgados unicamente pelo olhar racista e higienista da polícia, que em última instância representa um Estado truculento e genocida. Importante ressaltar que se numa face desse julgamento temos o encarceramento em massa, do outro temos a execução sumária dessa mesma população nas periferias onde está concentrada a juventude negra, ou seja, quando não temos incontáveis Rafaéis Bragas, temos tantos outros Amarildos.

Ainda em se tratando da juventude negra e dos aparatos legais que deveriam protege-la fica evidente o quanto a legislação brasileira é eficaz em acusa-la e puni-la por roubo, insubordinação, vandalismo ou toda uma ordem de justificativas em nome da preservação do patrimônio ou proteção daqueles “cidadãos de bens”, ao mesmo tempo em que viola ou negligencia tantos outros direitos assegurados pela Constituição (1988) e, posteriormente, pelo Estatuto da Criança e do Adolescente – ECA (1992), quando se trata da proteção integral da criança e do adolescente propiciando seu desenvolvimento pleno. Essas violações se fazem presentes, por exemplo, no trabalho infantil que explora em sua maioria jovens da cor negra em conformidade com uma pesquisa do PNAD a qual acusa que quase dois terços (64,1%) ou 1,17 milhão dos 1,8 milhão de jovens de 5 a 17 anos que trabalham no país são negros.

Dessa forma, são crianças e adolescentes que são retirados das escolas precocemente para se digladiar junto à classe trabalhadora por postos de trabalho os mais precarizados via informalidade ou terceirização e, não por acaso, esta precariedade foi consolidada pelo governo Temer, ameaçando, em especial, o desenvolvimento físico e mental dessa juventude, contudo, essa faceta da exploração do trabalho retorna como lucro para patrões ou grandes empresas parecidas, inclusive, com o Supermercado Extra e, o Estado, ao negligenciar e/ou desmontar direitos da população, apenas demonstra o quanto está a serviço desse empresariado para o qual, por sua vez, é interessante a legitimação do racismo estrutural, da mesma maneira que não devemos nutrir nenhuma confiança no judiciário racista, que mantém Rafael Braga na cadeia e que encarcera a juventude negra.

Apesar desta ser uma importante vitória contra o racismo do supermercado Extra, temos que seguir nos mobilizando para a erradicação do racismo na sociedade, denunciando a mesma em todos os locais nos quais ocorra e construindo espaços de resistência e luta alternativos às repostas arrancadas do Estado pela população, uma vez que fica evidente o quanto este Estado tende a corresponder aos interesses do capitalismo e uma sociedade livre do racismo é impossível por dentro desse sistema capitalista.




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