Gênero e sexualidade

POR UM FEMINISMO SOCIALISTA

Vem se organizar na Plenária Nacional do Pão e Rosas

segunda-feira 1º de março| Edição do dia

São 5h30, o ônibus não está tão cheio ainda, mas a gente vive na dúvida se cada um dos esforços pra não se contaminar funcionam. Todos os dias são novas suspeitas na escola, e o professorado tem desejo de se mexer. Às 13h terminam as aulas e chega a hora do almoço. A marmita lembra as tarefas da casa. No fim da tarde, de volta pro ônibus, ela vai suja porque no trampo já não pode mais lavar item pessoal. Na casa, ela se soma a outras coisas para serem lavadas. E não é só na pia. Tem o cesto de roupas cheio, o banheiro precisando de uma limpeza. As amigas relatam a dificuldade com os filhos, que são muitas, junto com alegrias mil.

O abraço de um corpinho pequeno, frágil, que te ama. Sinto isso com meus sobrinhos. Olho pra eles, pros pequenos das amigas, da sala de aula, e penso que eles merecem mais do que nós recebemos. E não estou falando de sucesso, dinheiro ou fama. Estou falando de vida plena. Sento no computador e ainda tem mais trabalho. Correções, tarefas para incluir no sistema da escola, entre várias outras burocracias que invadem minha casa porque não cabem na rotina remunerada do trabalho. Essas tarefas se somam às domésticas e se misturam. Paro uma no meio para terminar a outra, e lá, no meio da lista de afazeres, vejo alguns que brilham.

Um texto para denunciar uma prisão arbitrária. Um vídeo para enviar pro encontro de negras e negros. A pausa para ler a matéria que escreveu a amiga que hoje é ativista em Natal. As saudades se justificam por ver que lá agora existe também a força dela, junto de outras que se somam aos poucos ao grupo. Rolo o feed do Instagram e lá reencontro outras de quem sinto saudades: em Brasília, Porto Alegre, Rio de Janeiro, Recife, Belo Horizonte, Contagem, Vitória, Anápolis... Vejo nossas vozes espalhadas pelo país em sotaques diferentes, entoando o mesmo coro: contra Bolsonaro, Mourão, militares. Contra Damares e sua ofensiva ao aborto. Contra todo o regime do golpe. Mulheres que confiam apenas na força da classe trabalhadora para conquistar a legalização do aborto; que sabem que não é por vias institucionais que vamos derrotar Bolsonaro. Mulheres que viram Dilma no poder e aprenderam que não podemos repetir os caminhos do PT, de acordos com a direita e de rifar os direitos das mulheres em nome de governabilidade. Mulheres estudantes, jovens, idosas, de meia idade, com formas físicas e cores de pele diferentes, mulheres cis e transgênero, trabalhadoras da saúde, da educação, domésticas, da fábrica, do aeroporto. De todos esses lugares, elas também lutam por justiça por Marielle Franco. Mulheres que no meio de suas rotinas decidiram colocar essas tarefas brilhantes, e lançar sementes de sonho de uma vida melhor pelo mundo.

Acabo a pausa, retorno revigorada pelas notícias aos meus próprios afazeres militantes, esses que por sorte e alguma carga de decisão pessoal, fazem parte da minha rotina há quase 10 anos, quando conheci o Pão e Rosas. Foram 10 anos que me transformaram de jovem tímida em mulher revolucionária, anos que me roubaram da solidão para uma vida repleta de amigas e amigos que me apoiam pra voar. Que alegria poder ter esses apoios em um mundo que quer mulheres competindo entre si, que alegria preencher minha vida com a amizade feminina que é a potência de cada uma de nós. Foram 10 anos que me convenceram, desde o início, que não basta resistir contra os ataques, é preciso lutar para vencer definitivamente, e que pra isso, é preciso construir partido e derrotar a opressão colocando em ruínas o sistema capitalista, que sobrevive de racismo, misoginia, LGBTfobia, combustíveis da exploração. Para explorar mais, nos é imposto por esse sistema vários padrões de beleza inalcançáveis e mais que isso querem que a nossa vida se reduza ao namoro ou casamento. Nesses 10 anos, me alegro de poder viver outros dilemas, de encarar de frente essas pressões do patriarcado e andar lado a lado com milhares de mulheres pra que nossos objetivos de vida sejam os mesmos que dos e das bolcheviques que lutavam por um mundo novo, onde inclusive pudesse existir o amor livre das amarras capitalistas.

Por isso, se você chegou até aqui nesse texto, te faço esse convite que não é apenas para ’mais um encontro virtual’, em meio de uma pandemia de encontros virtuais. É o convite para dividir, como disse outra companheira, "o peso gostoso de ’levar sobre nossas costas uma partícula do destino da humanidade’." O convite para a Plenária do Pão e Rosas é o de guerrear contra as misérias da vida; é o convite que quando aceitei, há 10 anos atrás, transformou a minha vida pequena em uma vida plena de sentido, sentido esse que a cada nova companheira que participa, se torna cada vez maior. Precisamos ser muitas.

Vem se organizar na Plenária do Pão e Rosas.




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