Teoria

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Vamos tirar o disfarce: o capitalismo e sua máscara, segundo Engels

Gilson Dantas

Brasília

quinta-feira 21 de julho de 2016| Edição do dia

O ED vem estimulando a realização de “aulas-protesto” contra a política de proibição de se falar de Marx nas escolas e a malfadada proposta governamental de uma “escola sem partido”, isto é, uma escola alienada, a serviço da ordem patronal, uma escola onde Marx seja expurgado.

Por que tanto medo de Marx?

Ou por outra: por que Marx, Engels, Lenin, Trotski, incomodam tanto? Ou em outras palavras: por que Marx incomoda de mais e, por exemplo, o atrelamento do governo e do Estado às igrejas, aos católicos e aos evangélicos, incomoda de menos?

Por que toda ditadura [como a dos generais brasileiros, nos terríveis “anos de chumbo”], amaldiçoam e transformam o leitor de Marx em criminoso político?

Na ditadura militar se você fosse pego com um cigarro de maconha seria preso, seguramente, mas também seria preso se estivesse com um livro de Marx debaixo do braço. Fui preso em 1970 pelos militares e uma das alegações para a detenção, obviamente sem mandato de prisão, foi a de que encontraram livros de Marx e de Lenin no meu quarto de estudante. Claro que ninguém iria ser preso por estar portando um livro de Max Weber ou de Habermas ou até mesmo, quem sabe, se estivesse lendo os contos do marquês de Sade. E ao contrário, caso estivesse com meus amigos fazendo um bucólico piquenique em um dia ensolarado, mas aproveitando para ler Marx e Engels ou até para ouvir a melodia de “A Internacional”, seriamos todos levados em cana pela primeira viatura que passasse nas imediações.

Para entender essa questão, pense no argumento de época dos militares, da sua polícia política e do aparelho escolar: “o papel do estudante é estudar” o que a escola manda, as classes “produtoras” e “geradoras de emprego” e de progresso não toleram essa “bagunça” de ficar lendo livros que instigam à violência e esse negócios de classe contra classe, vamos trabalhar e estudar; lugar de “subversivo” é na cadeia. Depois vinha a cúpula da Igreja, toda ela à sombra dos militares, com seu discurso de que pobre vai pro céu e que rico vai para o inferno [seja lá o que esse mantra signifique]. E que o progresso do Brasil e a superação da miséria depende da educação, sobretudo da “educação moral e cívica”, da ética, da cidadania e da “ordem”.

O pacote se completava com toneladas de ideologia lançadas sobre a juventude todos os dias pelo aparelho ideológico da escola, da mídia e da Igreja: na base do quem estuda sempre vence, quem poupa enriquece [que patroa e empregada são, acima de tudo, duas mulheres e o trabalho liberta] e corriam a dar o exemplo de alguém – a exceção, no caso - que apesar da origem pobre, coitado, mas “venceu na vida” e por aí afora, qualquer disfarce valia para justificar todo aquele castelo de delírios interesseiros.

O que eles não diziam [mas faziam] é assumir e deflagrar a violência, sim, mas desde que sob monopólio do aparelho político-militar dos poderosos, uma máquina de repressão organizada, fundamentalmente, contra a juventude pobre e negra e naturalmente contra os estudantes “marxistas”. Quem discordasse, recebia a carapuça de comunista. Para os generais bom comunista será comunista preso e, na medida do possível, morto.

Mas será que o problema de Marx é esse e ponto? Legitimar a violência do pobre contra os de cima? Só isso? Ué, mas isso as rebeliões escravas já faziam, isso Spartacus já fez, os rebelados de Canudos e também os mexicanos de Zapata e Pancho Villa, todos lançaram mão da violência [reativa] e tudo isso sem conhecer Karl Marx. E afinal a polícia até que ia, quem sabe, ser tolerante se pegasse um estudante lendo a biografia de Spartacus [recomendo aquela escrita por Howard Fast] ou vendo um filme sobre Zapata [com Marlon Brando]; mas ler O capital de Marx ou O manifesto comunista, nunca.

Portanto o problema mais profundo é outro.

Marx e seu camarada Engels desvendam, desvelam e denunciam um segredo muito bem guardado pela patronal. E com isso causam um profundo mal-estar na “civilização burguesa”. E ao desvendá-lo trazem as armas da crítica, a consciência de classe, indicam o proletariado como a classe que pode, sim, levar adiante a crítica das armas e terminar com a opressão da patronal burguesa e com toda opressão.

O marxismo permite arrancar a máscara do capitalismo, desmantelar todo aquele castelo de cartas ideológico que naturaliza e eterniza o sistema no imaginário das massas quando estas não estão sublevadas, isto é, enquanto a ideia marxista ainda não viralizou.

As palavras de Engels, a seguir, nos chegam, portanto, carregadas de total atualidade. E implodem a fachada “moral e cívica” do sistema, mostram porque o capitalismo é uma fábrica incessante de corrupção, de dilaceramento social e uma negação, no concreto, de tudo que os defensores do capital proclamam como civilização, cultura e progresso.

Sim, o segredo mais explosivo do capitalismo está enraizado lá, no chão de fábrica. Muitíssimo mais que denunciar o sistema como um problema moral, diz Engels, é preciso entender em que base real e bem dissimulada funciona o capitalismo; assim poderemos arrancar seu disfarce.

Criticando os socialistas utópicos – assim como podemos hoje criticar os socialistas que defendem o socialismo sem revolução – Engels defendia a necessidade de não naturalizar o capitalismo como um sistema eterno e sim transitório e pregava “a necessidade do desmascaramento de todos os seus disfarces uma vez que os críticos anteriores se limitavam apenas a apontar os males que o capitalismo engendrava em vez de assinalar as tendências das coisas” impostas pelo capitalismo.

Engels continuava:

“A principal máscara sob a qual se disfarçava o capitalismo, caiu por terra com a descoberta da mais-valia. Esta descoberta revelou que o regime capitalista de produção e a exploração dos operários que dele se origina tinham, como base fundamental, a apropriação do trabalho não pago. Revelou ainda que o capitalista, mesmo que suponhamos que ele compra a força de trabalho de seu operário por todo o seu valor, por todo o valor que representava como mercadoria no mercado, e que este excedente do valor, esta mais-valia era, em última instância, a soma do valor de onde derivada a massa cada vez maior do capital acumulado nas mãos das classes possuidoras. Desde então, o processo da produção capitalista e o da criação do capital já não continham nenhum segredo. Estas duas descobertas: a concepção materialista da história e a revelação do segredo da produção capitalista que se resume na mais-valia são devidas a Karl Marx”.

Ou seja, o patrão vive das horas de trabalho gratuitas que ele rouba do empregado ao pagar uma soma de salários menor do que a soma de riquezas que o operário produz. Por isso ele fica mais rico, mais livre e a classe trabalhadora fica onde está, trabalhando, sendo espoliada. O motivo disso tudo: o patrão, controla a fábrica e as horas de trabalho do empregado. Nada mais. Seu poder, todo ele, vem dali e não de outra fonte. Tanto que nem “classe produtora” o patrão é; não passa de um parasita que não trabalha mas consome e acumula capital arrancado da mais-valia produzida por quem trabalha. Ora, tirar a máscara desse jeito é tudo que o ministério da Educação capitalista não deseja e, pior ainda, na sala de aula.

Por isso na escola dos governos capitalistas [tipo o golpista Temer ou mesmo Dilma] não há lugar para Marx nas escolas e, ao contrário, as bancadas religiosas ocupam lugar destacado na república.

Cabe seguirmos adiante nossa campanha de “aulas-protesto” para que a juventude mais combativa ganhe a consciência de que lugar de professor e de estudante é na luta. E que democracia de rico é democracia do capital ... do jeito que ensinava K Marx.

Citação do livro “Breve introdução ao O capital de Karl Marx”, Antologia de Engels, Lenin, Trotski, 2015, Brasília, Ícone Editora. [crédito de imagem para o site www.asantell.deviantart.com]




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