Política

VALE FORNECE TESTES DE MÁ QUALIDADE

Vale tenta recuperar sua imagem fornecendo milhares de testes ineficazes para COVID-19

Acordo entre governo Bolsonaro e a mineradora prevê doação de 5 milhões de testes pela empresa. Os primeiros 500 mil, fabricados pela China, mostraram problemas sérios de diagnóstico, acusando alto índice de falsos resultados negativos em pessoas contaminadas.

Fernando Pardal

@fepardal

quinta-feira 2 de abril| Edição do dia

Para além das polêmicas públicas entre governos sobre o Coronavírus, o que unifica a todos é que não estão garantindo nem o mais elementar para combater a pandemia: a testagem massiva que poderia indicar quem está contaminado ou não e permitir tomar medidas eficazes para evitar o contágio.

O que temos visto é muita demagogia, com promessas de testes que não se concretizam. O governo prometeu na semana passada que teria 22,9 milhões de testes para enfrentar a doença, sendo 8 milhões do tipo "rápido". Até agora, o que vimos na prática são centenas de pessoas mortas sem terem sequer sido testadas, bem como escândalos como os de São Paulo, em que 37 postos de saúde foram orientados a subnotificar os casos de COVID-19. Em meio a isso, os capitalistas veem uma boa oportunidade de lucrar e de tentar aparecer como “humanitários”. É nesse âmbito que foi anunciado a doação de 5 milhões de testes rápidos pela Vale, e outros 3 milhões serão fornecidos pela Fiocruz por meio de uma parceria com laboratório privado.

O que vimos de concreto foram 500 mil testes doados pela Vale, produzidos pela China. Contudo, o que se revelou é a baixíssima qualidade dos testes fornecidos pela empresa, que apresentam muitos casos de “falso negativo”, ou seja, pessoas que não tem o vírus detectado pelo teste, mas que de fato estão contaminadas.

Cinicamente, Mandetta, o mesmo ministro que até hoje não garantiu os testes e que recomendou canja de galinha e reza para combatê-lo, anunciou que "Nossa estratégia é dupla - essa dos testes rápidos vamos usar muito para ficar testando sequencial, principalmente trabalhador ’Ah, mas ele só dá 40%, 45%, 38% de sensibilidade no sexto dia, no sétimo dia, no oitavo dia’. Ok. Se a gente faz em rodada (de testes), vai aumentar muito a nossa percepção". Para esse ministro, como para Bolsonaro, os falsos negativos seriam até bem-vindos, porque poderiam alardear estatísticas oficiais de um número de casos muito menor do que a realidade.

Muitas notícias circulam pelas mídias afirmando que os testes rápidos chineses possuem baixa qualidade, e que portanto, não servem para que possamos testar massivamente a população. O Ministério da Saúde afirmou que os testes devem ser usados e pediu “cautela” a gestores do Sistema Único de Saúde (SUS) ao aplicá-los, uma vez que 75% dos resultados podem ser falsos negativos. Esses testes, doados pela Vale, criminosa recorrente responsável pelas tragédias de Brumadinho e Mariana, são parte de políticas demagógicas de “preocupação com vidas” que na prática não se materializam.

A importância de testar massivamente

A política de testagem massiva da população é, entre outras prioridades, um dos principais eixos para que, a partir disso, possamos entender e planejar ações em saúde capazes de serem eficazes no enfrentamento do COVID-19.

Em primeiro lugar, é preciso não “demonizar” o uso de testes rápidos no processo de diagnósticos das doenças. A Coreia do Sul, que vem sendo usada como exemplo de combate à crise do COVID 19, aplicou 10 mil testes por dia na população, sendo estes testes rápidos, e não os testes específicos, conhecidos pela técnica pela qual são feitos, o PCR em tempo real.

Antes mesmo de adentrarmos neste tema, é importantíssimo destacar que não podemos reivindicar os métodos do governo sul-coreano, que usou da força repressiva e coerção da população, impondo autoritariamente a testagem massiva das pessoas. Não podemos reivindicar nenhum método autoritário no combate à pandemia, mas sim os métodos educativos, de esclarecimento, e de disponibilização de meios para prevenção e tratamento. Mas é importante determo-nos nos testes e o seu modo de funcionamento.

São chamados de “rápidos” os testes cujos resultados podem ser obtidos rapidamente, entre 10 e 20 minutos. Este tipo de teste, apesar de rápido, nem sempre poderá ser de simples execução. Segundo matéria publicada pelo El país, os testes podem estar fornecendo muitos resultados duvidosos inclusive pelo mal treinamento dos trabalhadores da saúde para excecutá-lo. Ainda que a execução seja consideravelmente mais simples que a do teste mais específico, (feito em RT-PCR) isso não significa que o treinamento dos profissionais, incluindo sua orientação sobre o uso de Equipamentos de Segunraça individual, como luvas, máscaras, jaleco e higienização adequada, não sejam primordiais na garantia da qualidade dos resultados.

Isso coloca a necessidade urgente de contratação emergencial de profissionais da saúde em larga escala, que recebam treinamento adequado para executar os testes com segurança e precisão.

Para testar massivamente, é preciso tirar os lucros do caminho

Um dos caminhos apontados pelo governo para ampliar os testes é o de fazer parcerias com laboratórios privados para fazer uma espécie de drive-thru e têm o material coletado sem sair do carro para execução dos testes RT-PCR. O resultado vem por APP. Para os laboratórios, isso significará uma fortuna em lucros em cima de uma necessidade urgente de combater a pandemia.

Para que tenhamos uma ideia, a fabricante norte-americana Cepheid recebeu autorização para produção de testes rápidos, e cobrará US$ 19,80 por cada um nos “países em desenvolvimento”. Mas uma pesquisa da ONG Médicos Sem Fronteiras apontou para o fato de que o custo de cada teste é de US$ 3. Ou seja, um lucro de mais de 600% se valendo dos cofres públicos e da urgente necessidade da testagem.

Aqui no Brasil, testes produzidos na Fiocruz e Butantã também alimentam as gigantes empresas bilionárias da indústria farmacêutica, como a GSK, mesmo que esses órgãos sejam públicos.

Por isso, é necessário quebrar as patentes dos testes, estatizar os laboratórios sob controle dos trabalhadores, produzindo assim testes na quantidade e qualidade necessárias sem que bilhões e bilhões de reais vão para os bolsos dos empresários que querem lucrar com a pandemia.




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