Gênero e sexualidade

RELATO DE UMA SECUNDA

Vai ter shorts e luta contra o machismo nas escolas, sim!

Na semana passada centenas de estudantes do colégio Anchieta no Rio Grande do Sul fizeram um protesto contra proibição do uso de shorts na escola. A notícia do protesto se espalhou pelo país e gerou polêmica, já que a proibição de determinadas roupas e acessórios é uma realidade na maioria das escolas.

Ana Terra

Campinas

quarta-feira 2 de março de 2016| Edição do dia

Foto: Julia Townsend/Arquivo pessoal

A polêmica sobre o uso do short nas escolas tem crescido muito e dessas polêmicas tem vindo argumentos que possuem uma construção autêntica de uma camada da sociedade conservadora e que consegue muito mais visibilidade dentro da sociedade do que aqueles que estão a margem dela, sendo esses “argumentos” parte de um senso comum que pela minha visão como secundarista é um atraso na educação.

Tenho visto pessoas argumentando que a escola não é um espaço para roupas dessa maneira, que não vamos ao velório com uma roupa colorida e que a roupa expressa aquilo que queremos dizer, sendo assim, existem roupas adequadas para isso ou para aquilo. Só que acho que justamente essa questão que deveríamos pensar melhor. Que espaço é este, a escola? Por quais pessoas são construídas? E como elas se expressam e se identificam nesse local?

Bem, o modelo de escola que temos hoje, muitas vezes verdadeiras prisões de concreto, não é pensado pelo governo para ouvir os alunos, para ensinar a pensar, para discutir e construir outra sociedade. O padrão é vomitar informações para que os estudantes passem no vestibular, ou na maior parte das vezes, para que simplesmente terminem o ensino médio e possam ser mão de obra barata pro patrão. Sem se propor a ser um espaço de questionamento, a escola acaba reproduzindo um ensino machista que ensina as meninas a terem medo dos meninos e os meninos a não respeitá-las, naturalizando essa cultura.

Muitas pessoas estão argumentando que não podemos usar shorts por causa dos meninos que estão na escola, porque ninguém estudaria e milhões de blá blá blá... Acredito que quando se referem a meninos por sentirem atração por meninas, cometem um grande equívoco, porque meninas também podem gostar de meninas, como meninos de meninos. E jogar a culpa do assédio pra cima de um short, acho pesado demais, ainda mais para uma sociedade que é construída culturalmente em base ao machismo, é só uma forma de esconder a raiz do problema.

Quanto aquilo que a roupa expressa, acho que deveríamos e vamos pensar melhor, porque a escola deveria representar o aluno, deveria ser um lugar justamente para ele se expressar e se conhecer melhor, não um lugar que o priva e que o ensina a ter medo, porque na real, todos nós sabemos que as coisas acontecem e não é porque não se fala se sexo abertamente, não se fala de siririca abertamente nas escolas, que elas não existem. As alunas grávidas existem e não é por causa de short, os alunos que são pais também existem nas escolas e não é culpa de short, estupradores existem e tenho plena certeza que não é por causa de um short. Acho que muito pelo contrario a escola deveria se preocupar com a segurança de seus alunos que saem das escolas muitas vezes do período noturno como eu e não tem ninguém para busca-los muitas vezes e são obrigados a passar por ruas escuras, becos e tolerar cantadas na rua, que são fruto de uma cultura machista, que a escola deveria se preocupar em desconstruir, para segurança de seus alunos. Em vez disso ela coloca uma polícia machista, que fica nos portões das escolas, servindo de ameaça para os alunos de periferia.

Acho que a escola deveria se preocupar muito mais com a cultura que construí, ou melhor, talvez a própria secretaria da educação e o governo devessem ficar mais espertos, porque nós mostramos que não precisamos deles para aprender, acho que muito pelo contrario, temos dado aula de luta em defesa da educação e no combate as opressões e vai continuar tendo shorts e muita luta.




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