MULHERES

[VÍDEO] Andrea D’Atri: “O patriarcado não vai cair sozinho, tem que ser derrubado”

A massiva assembleia de mulheres de MadyGraf terminou com o encerramento de Andrea D’Atri, fundadora da agrupação de mulheres Pan y Rosas e dirigente do Partido dos Trabalhadores Socialistas (PTS). Assista ou leia a sua fala.

terça-feira 24 de julho| Edição do dia

Publicamos os principais trechos de sua intervenção.

Muitas companheiras fizeram menção a luta por direitos, em particular, a luta pelo direito ao aborto, que é a luta que está em curso. Eu creio que para todas e todos os que estamos aqui está muito claro que os direitos se arrancam com luta, se conquista com a luta, porque não podemos esperar nada dos governos de nenhuma cor, de nenhum partido tradicional que defendam os interesses dos capitalistas.

Entretanto, ainda que conquistemos direitos como o direito ao aborto, se é que se legaliza em 8 de agosto como produto de nossa luta, o patriarcado não vai cair. Não vai cair somente por termos conquistado o direito a decidir sobre nosso próprio corpo e por termos o direito a não morrer em abortos clandestinos pois a opressão à mulher é muito maior que o direito ao aborto.

Exitem duas coisas que o capitalismo não pode eliminar, por mais que arranquemos alguns direitos. Não pode eliminar a exploração, por há milhões de seres humanos explorados em fábricas e empresas para sustentar uma classe dominante, minoritária e parasita com o nosso esforço e nosso trabalho. E a outra coisa que não pode eliminar é todo o trabalho que é feito fora das fábricas, que é feito em nossas casas e que é um trabalho que é necessário para que nós, as exploradas e os explorados que vivemos do trabalho assalariado, possamos ir no dia seguinte trabalhar e seguir sendo explorados novamente. Porque para ser explorados no dia seguinte precisamos comer, precisamos dormir, precisamos nos vestir, precisamos tomar banho, precisamos descansar e ter um pouco de distração. Para todas essas tarefas que implicam um trabalho, os capitalistas se fazem desentendidos e essas tarefas são feitas por alguém de maneira gratuita, sem cobrar nem um centavo por isso. A maioria das pessoas que fazem esse trabalho somos nós, mulheres.

Na Argentina, de cada oito horas que demandam as tarefas de cozinhar, de lavar e de limpar a casa, seis horas são feitas pelas mulheres e somente duas horas recaem sobre os homens. Temos que exigir que se reconheça esse trabalho que hoje é invisível. Que se reconheça esse trabalho que faz com que as mulheres que também trabalham fora de suas casas tenham uma dupla jornada de trabalho. E ainda que esse trabalho invisível não possa ser eliminado por completo, o que podemos fazer é exigir que grande parte desse trabalho esteja a cargo do Estado e dos empresários.

Temos que lançar uma campanha com essa exigência, colocando creches em todos os locais de trabalho, colocando lavanderias em todos os locais de trabalho ou em todos os bairros, que sejam acessíveis para todas as famílias de trabalhadores do bairro. Temos que exigir serviços bons e baratos, com restaurantes de baixo custo e casas de comidas rápidas. Temos que exigir que grande parte desse trabalho que hoje fazemos de maneira invisível e não remunerada em nosso lares sejam responsabilidade daqueles que necessitam que nós nos alimentemos, que tomemos banho, que nos vistamos para explorar-nos no dia seguinte em suas fábricas e em suas empresas.

Eu, como muitas das companheiras que estão aqui, somos militantes socialistas, do Partido dos Trabalhadores Socialistas na Frente de Esquerda. As mulheres socialistas são parte do movimento operário. Existem companheiras que são socialistas, existem companheiras que são estudantes. Somos parte do movimento de mulheres e militamos em todos esses âmbitos por nossas idéias. E não militamos somente para ampliar e conquistar direitos, ainda que nós lutemos por isso também e estamos na primeira fileira da batalha pelo direito ao aborto como estivemos na primeira fileira de muitas outas lutas, por todos os direitos que nos correspondem. Mas nós, socialistas, lutamos por algo mais. Lutamos em todos os lugares onde estamos para semear a ideia de que uma sociedade sem a exploração capitalista, sem a exploração da nossa força de trabalho e sem a opressão das mulheres em seus lares carregando o trabalho doméstico, sem a discriminação e a opressão de muitos outros setores da sociedade, que uma sociedade assim é possível. Para que isso seja possível dizemos, nós as socialistas, que seguramente quem encabeçará essa luta por essa perspectiva são aquelas e aqueles que hoje não tem nada a perder se abraçam essa causa. A única coisa que elas tem a perder se abraçam essa causa são as correntes de exploração e de opressão que nos impõem os capitalistas e esse sistema patriarcal.

Antes de entrar aqui vocês passaram por aquele portão, onde estão as formosas laminas que foram imprimidas aqui em MadyGraf. São os rostos, os retratos de mulheres que nós chamamos de lutadoras, mulheres que fizeram história. Cada uma delas tem ali alguma frase que disseram em suas lutas. São mulheres que protagonizaram greves enormes, enormes processos revolucionários, que protagonizaram lutas das mulheres por seus direitos, dos escravos por libertação, que protagonizaram revoluções impressionantes, como a Revolução Russa que a um século atrás se propôs também a libertar as mulheres do trabalho doméstico e foi o primeiro país da história a conceder o direito ao aborto às mulheres.

Nós queremos que essas lutadoras sejam nossa inspiração. Essas mulheres e suas histórias demonstram que o patriarcado não vai cair sozinho. Tem que ser derrubado, ser sepultado e nosso objetivo é conquistar a disposição de milhões de mulheres e homens de realizar essa tarefa de tirar-los do capitalismo e do patriarcado. Essas lutadoras, de distintas épocas e distintos países, tem em comum que nenhuma delas viveu uma época coma nossa, onde pela primeira vez na história a metade da classe trabalhadora são mulheres. Imaginem que se elas puderam protagonizar enormes revoluções, processos, greves e lutas impressionantes sem contar com uma classe operária onde a metade são mulheres pois estas estavam fechadas em seus lares e não tinham sequer o direito a ser exploradas e trabalhar fora de casa, imaginem o que poderemos fazer com essa nova classe operária que é a classe operária que pela primeira vez mostra ao mundo que tem um rosto feminino. Acreditamos que com essa força impressionante poderíamos acabar com divisão que nos impõe a classe capitalista entre homens e mulheres através dos preconceitos do machismo, dos preconceitos que o patriarcado instiga. Poderíamos acabar com a divisão que nos impõe a classe dominante entre operárias efetivas e terceirizadas, poderíamos derrubar essa barreira artificial que nos impõe entre quem é nativo e quem é imigrante, poderíamos acabar com a burocracia que a única coisa que faz no movimento operário é trair-nos às ordens da classe capitalista e que limitam nossas forças para não gerar discórdia com a patronal. Poderíamos com essa força unir tudo o que eles dividem. Com essa força imparável, que é a que temos que nos propor a conquistar, creio que é possível a tarefa mais motivadora e mais admirável que podemos ter em nossas vidas, que é lutar por tomar o céu em assalto.

Para terminar então, gostaria de ler uma frase de uma lutadora que está ali na entrada, Louis Michelle, uma operária que lutou na Comuna de Paris em 1871, rodeada por um exército imperialista, rodeada também por um exército de seu próprio país e lutou nas barricadas até o último minuto pelo poder dos trabalhadores e das trabalhadoras. Ela disse: "Cuidado com as mulheres quando se sentem enojadas de tudo aquilo que as rodeia e se levantam contra o velho mundo, porque esse dia nascerá um mundo novo".

Tradução: Pedro Rebucci de Melo




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