Mundo Operário

CRIME EM BRUMADINHO

[VALE] Terceirização também mata: terceirizados são maioria entre desaparecidos e mortos

A maior parte dos cerca de 400 desaparecidos ou mortos no crime da Vale em Brumadinho trabalhavam na empresa. Mas quando se ouve com atenção o que as pessoas dizem uma realidade vem à tona: a maioria dos mortos e desaparecidos eram terceirizados. Realidade da Vale e todas grandes empresas no país, mantém uma maioria de trabalhadores super-explorados e com menos direitos, até mesmo na morte.

quinta-feira 31 de janeiro| Edição do dia

Eram pessoas tratadas como peças, muitas delas que a Vale sequer reconhece como trabalhadores diretos da empresa. Assim, economiza em indenizações e se isenta de responsabilidades, e mesmo se for obrigada a indenizar, o fará baseada em um salário inferior a de seus funcionários efetivos, dando um salto na humilhação com a terceirização.

Os efeitos do crime não terminam com o assassinato. A humilhação chega a seu ponto culminante quando nega-se aos mortos o reconhecimento do que faziam em vida. Um terceirizado "temporário" não entra na contabilidade, vira alguém da comunidade, alguém que não se sabe porque estava no local onde houve o rompimento. Há em todo país milhares de pessoas nesta situação "temporária" que não entra na contabilidade das empresas contratantes.

A maioria dos mortos e desaparecidos do crime, efetivos ou terceirizados, estavam na área administrativa ou no refeitório, ambos criminosamente localizados no caminho da barragem que a empresa cinicamente insiste em dizer que era seguro. De tão "seguro", a Vale resolveu, da noite para o dia, descomissionar todas barragens a montante que ela tem, e neste esconde-esconde de sua responsabilidade no assassinato, os capitalistas na Bovespa comemoram, acham que o plano da Vale é bom. O que significa para os investidores capitalistas da Bovespa que um plano é bom? Ele sairá barato, e logo logo a exploração mineral e capitalista pode voltar a todo vapor. Parte dessa operação está em esconder os trabalhadores mortos, e a terceirização na Vale, tal como na Petrobras, na Odebrecht e muitas outras empresas, ajuda nisso. Encobre a responsabilidade, aumenta a exploração.

Para a Vale, como para qualquer empresa capitalista, todos são substituíveis, tratados como uma peça descartável. Isso fica evidente no destrato também com falta de informação, como bradou à imprensa uma esposa de um trabalhador desaparecido:

Grande parte dos mortos eram trabalhadores terceirizados. Eles eram do asfalto, do transporte, do refeitório e de mil e uma outras funções. Os números divulgados pela imprensa apontam que, entre as vítimas, estão ao menos 150 terceirizados desaparecidos frente a cerca de 100 efetivos da empresa. Estes são dados preliminares e sem verificação independente, pois o que a Vale está fazendo é, como de costume, esconder informações para que sofra menos chances de punições e, para isso, oculta informações sobre o número de trabalhadores que estavam sob suas responsabilidades para ter de gastar menos com indenizações.

A contabilidade da Vale não revela quantos são os terceirizados que ela tem no país. Tal como seus registros de controle ambiental e de segurança, as informações sobre a terceirização fazem parte de um caos proposital. Um caos proposital para mais facilmente tratar ser humanos como peças substituíveis.

O relatório de sustentabilidade da empresa fala que a empresa emprega mundialmente 130,6mil pessoas entre efetivos e terceirizados, já o relatório financeiro do mesmo ano fala em 73.596 empregados quando vai falar dos custos em salários e outros benefícios, portanto resultaria, por subtração de um valor contra o outro, que a Vale teria 57.006 terceirizados.

Mas esse número não corresponde à realidade de qualquer um que pisou em alguma mina, ou, no mínimo sabe como funcionam as maiores empresas do país e suas contabilidades criativas para encobrir seus crimes diários de humilhação, exploração e escravidão que atende pelo nome de terceirização.
Todas empresas omitem de sua contabilidade os terceirizados que supostamente seriam temporários. Mas nunca se trata de terceirizados temporários mas de mera criatividade contábil e exploradora.

Todas unidades da VALE passam por obras periódicas, mas como o terceirizado não fica fixo naquele local, mas frequentemente é demitido para depois ser contratado em outra mina e até mesmo em outro estado para obra idêntica. Assim ele não mantém vínculos, ganha cada vez menos e nem sequer consta na contabilidade. João, José, Francisco, viram uma peça que um dia aparece em Carajás, no outro em Itabira e depois em Brumadinho debaixo da lama, assassinado.

Levantamento acadêmico feito em 2010, dava conta de uma proporção muito maior de terceirizados do que efetivos, naquele ano se dizia que eram 70,8 mil efetivos e 103,3mil terceirizados.

Com o avanço da lei escravista que permite a terceirização irrestrita é de se esperar que a proporção entre efetivos e terceirizados tenha aumentado e não diminuído como os relatórios enganosos fazem crer.

Com uma operação de criatividade contábil a Vale esconde o dia a dia, esconde como mantém mais de cem mil pessoas ganhando menos e tendo menos direitos que outras a seu lado, enfrentando atrasos de salários nas “gatas”, humilhação de supervisores, entre várias outras situações que passam terceirizados nos escritórios, fábricas e minas pelo país.

O rastro de sangue operário deixado pela Vale em Brumadinho e especialmente de terceirizados mostra um retrato do Brasil. Aumentam as condições de super-exploração do trabalho, aumentam os acidentes de trabalho, aumentam os desastres e crimes capitalistas como o de Brumadinho que sempre acometam mais os mais explorados: os terceirizados, que em um país herdeiro da escravidão, são de via de regra, em sua maioria negros. Morrem operários da Vale, morrem terceirizados, morrem moradores das comunidades, destrói-se o meio-ambiente, enquanto isso a Vale já entregou R$320bilhões em lucros aos seus acionistas, banqueiros e outros capitalistas.

A revolta que é sentida em Brumadinho e em todo país precisa virar mobilização para que os capitalistas paguem por este crime. Saqueiam o Brasil e suas riquezas e deixam um rastro de sangue operário. É preciso confiscar os bens da Vale para coloca-los à serviço das necessidades emergências e re-organizar a empresa, reestatizando-a sem indenizar os capitalistas assassinos e coloca-la para funcionar sob administração dos trabalhadores com controle popular, única maneira de garantir seguras e dignas condições de trabalho, efetivando todos terceirizados, e garantindo a segurança da operação das minas para que as vastas riquezas do subsolo brasileiro sirvam não aos capitalistas criminosos mas aos interesses de todo o povo brasileiro.




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