Cultura

V DE VINGANÇA

V de Vingança [p. II]: Vocês irão escolher entre uma vida própria ou o retorno aos grilhões

Dando continuidade ao texto que foi publicado aqui nesse jornal no dia 05 de novembro "V de Vingança [part. I] Lembrem, lembrem do 5 de Novembro!", apresentamos a partir de agora o Tomo Dois – Esse Vil Cabaré.

domingo 13 de novembro| Edição do dia

Veja aqui a parte I, V de Vingança [part. I] Lembrem, lembrem do 5 de Novembro!

É momento de se perguntar como anda a relação de V e Evey, afinal ela está morando com ele a algum tempo, e inclusive contribuiu com seu plano, ajudando-o no caso do bispo. A jovem deve guardar consigo mil perguntas sobre o misterioso homem mascarado que a acolheu, e ela sempre foi bem-vinda até externar essas questões, quem seria ele? Seu pai, talvez? Não ele não era o pai dela, e optou por abandoná-la, deixar que ela seguisse seu rumo, sua vida.

Em um plano astucioso, V se infiltra na estação de TV para transmitir uma mensagem direcionada a Londres, já em fevereiro de 1998, em sua mensagem questiona os méritos da existência humana, as limitações do processo evolutivo, a incapacidade de questionar o modo de vida, a conformação, a submissão a certos lideres – o quadro é ilustrado com fotos de Hitler, Mussolini e Stalin.

Enquanto isso em outro canto da cidade Evey vive com Gordon, um amante, por assim dizer. Depois de um tempo vivendo em certa calmaria, Gordom é assassinado por homens do Dedo, no mês de junho. Em busca de vingança, portanto uma arma, pronta para matar Peter Creed do Dedo, Evey é capturada e passa a viver um pesadelo.

“Força através da pureza, pureza através da fé” se lê em alguma parede, enquanto a jovem Evey está em uma cela suja, em companhia de um rato. Ela é acusada de cumplicidade com o temível terrorista de codinome V.

Ela foi friamente torturada, de diversas formas, mas encontrou refúgio na carta/testamento de Valerie, uma provável prisioneira que deixou sua história sua única autobiografia em um papel higiênico, em um buraco de rato na cela.

Valerie tinha sido uma garota que desde cedo descobriu seu gosto por garotas, não podendo viver em casa, mudou-se para Londres, onde estudou numa escola dramática, e com o tempo começou a trabalhar como atriz, e em 1986 no filme “As Dunas de Sal”, um filme que não agradou o público, mas em compensação ganhou diversos prêmios. Valerie conheceu Ruth, como conta em sua carta os três anos seguintes foram os melhores de sua vida, no entanto depois da guerra não havia mais rosas. Com o regime instalado a partir de 1992 começaram a prender os homossexuais. Ruth sob tortura até assinar uma declaração onde dizia ter sido seduzida por Valerie, que em seguida foi presa, Ruth sob profundo sentimento de culpa não conseguiu sobreviver e tirou a própria vida. Valerie sabe que certamente morrerá logo, afinal tudo morre naquele lugar, mas um lugar dela não morrerá, “um só. É pequeno e frágil e é a única coisa no mundo que ainda vale a pena ter. Não devemos jamais perdê-lo, vendê-lo ou entregá-lo. Não podemos deixar que alguém tire de nós. Não sei quem você é, se é homem ou mulher. Talvez eu nunca o veja, nem te abrace, nem bebamos juntos… mas eu te amo. Espero que consiga fugir daqui! Espero que o mundo mude, que as coisas melhores, e que, um dia, as rosas voltem, queria poder te beijar! Conheço cada centímetro dessa cela. Ela conhece cada centímetro de mim. Exceto um.”.

A carta de Valerie dá força nova a Evey, ela perde o medo que a tomava desde os primeiros quadros da história, então não teme mais pela sua vida, ela está pronta para enfrentar os desafios, ela está pronta para descobrir que tudo que aconteceu desde que foi capturada foi planejado por V. Porque ele a amava e queria libertá-la, libertar da sua prisão, das suas falsas ilusões de felicidade, e da sua conformidade.

A seguir o Tomo Três – A Terra do Faço o Que eu Quiser – já se passara um ano desde o início da história e era mais uma vez 5 de novembro, dessa vez a Torre Jordam foi atacada, e o velho correio também, mas a novidade é que o Olho e o Ouvido deixaram de funcionar temporariamente, foi dado as pessoas de volta sua privacidade, elas teriam dois ou três dias tendo como única lei “faça o que quiser”.

Enquanto que para alguns há um profundo estranhamento na ausência de monitoramento, para outros se abre a possibilidade para a liberdade, mesmo que seja simplesmente para grafitar “merda” em algum lugar, ou mesmo o símbolo do “V” em alguma parede, como também de saquear estabelecimentos, e gerar confusão para o regime.

O Sr. Finch para tentar visualizar o acontecido, tentar entrar na cabeça do procurado terroristas de codinome V, vai a Larkhill em posse de alucinógenos (Dietilamida de Ácido Lisérgico – LSD) que lhe mostraria a verdade, ele, então, penetra na realidade do que aconteceu naquele lugar, e ao seu jeito também passa por um processo de libertação.

Enquanto isso, Dominic do Nariz descobre como V tem atuado de maneira tão precisa por todo esse tempo, ele tinha acesso a Destino todo o tempo. Isso é também o que V mostra a Evey, mostra que tinha tanto acesso quanto o Regime às câmeras, e gravações telefônicas, e ao computador Destino, e ele, ao seu modo enigmático, deixa tudo para Evey.

O Líder se prepara para fazer uma aparição visando acalmar os ânimos, enquanto Sr. Finch em seu surto de clareza descobre o esconderijo de V. O Líder é assassinada por Rosemary [1], enquanto V é baleado pelo Sr. Finch, mas como ele poderia morrer? Ele é uma ideia, e ideias são a prova de balas. V é uma ideia de contravenção, uma ideia de desrespeito aquela ordem podre, a ideia de que aquela justiça, uma antiga amente, representava valores corrompidos, a ideia de que é preciso se libertar das prisões, se libertar da uniformidade, da conformidade. V é essa ideia de inconformidade, de que se pode fazer algo, de que se deve fazer algo.

Enquanto todos na superfície celebram a morte de V, tramam planos para ocupar o vácuo no poder que se criou com a morte do Líder. Evey encontra V em péssimo estado, a beira da morte, e se vê diante de dois dilemas de difícil soluções: quem é V? E o que fazer a seguir? A duras penas supera o primeiro e decide que não importa quem ele é, e não retira sua máscara, mantendo imaculada a ideia do que ele representa. Quanto ao segundo, segue o caminho pelo qual V a vinha preparando desde que encontrou aquela menina cheia de medo em um beco escuro, ela decide seguir seus passos e dar continuidade aos planos do seu querido amado e odiado V, ela assume seu manto.

O povo não acreditava no governo, esperavam que V aparecesse. Foi exatamente o que aconteceu, no 9 de novembro. Evey, agora sob alcunha de V, anuncia seu plano, e toda a credibilidade dos esforços de V desde o início dependem disso. Destruir a Cabeça, superar esse momento da história, e abrir a possibilidade para que as pessoas sigam suas vidas, ou recomponham o sistema já podre. E assim que num enterro Viking, V nos trilhos de metrô repleto de explosivos conclui seu plano e destrói a Rua Downing, e consequentemente a Cabeça.
Evey, agora V, na Galeria das Sombras reclama sua herança, e toma aos seus cuidados Dominic que foi muito perspicaz em seu tempo no nariz.

Considerando toda a história da HQ, que aponta de modo sombrio o profundo avanço do conservadorismo, é importante tirar lições, é importante para nós, como V representarmos uma ideia (não necessariamente o anarquismo), mas uma ideia de luta, de inconformidade, de que se pode fazer algo, de que se deve fazer algo. É preciso lutar contra o capitalismo das diversas formas que pudermos, seja ocupando escolas, ocupando universidades, indo as ruas, organizando-se e lutando politicamente. É preciso banhar-se de inconformidade, imbuir-se dessa ideia anticapitalista.

Notas:

[1] Há uma trama específica envolvendo Rosemary, que não foi abordada nessa resenha, mas que serve de plano de fundo para mostrar os interesses internos de articulação para tomada de poder do Líder.

Referências:

V de Vingança – Roteiro de Allan Moore e Arte de David Lloyd

V de Vingança, Guia de Referências – Anotações sobre a HQ feitas por uma classe de graduação em Pesquisa Literária, sob a direção do Dr. James Means, da Universidade Estadual do Noroeste da Louisiana, em 1994. Disponível em: <<http://www.mortesubitainc.org/misce...> > Acesso em: 20 de Out. 2016




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