Política

EDITORIAL

Unidade de ação para vencer os ataques da direita e a tarefa dos revolucionários

Para ser uma real unidade de ação, que coloque realmente medo nos golpistas e nos setores da extrema-direita, é preciso mover a força dos trabalhadores, algo que as burocracias sindicais nunca vão querer fazer até o momento em que suas bases as pressionem ou diretamente passem por cima delas. Por isso, o papel da esquerda é construir um polo alternativo, anti-burocrático que exija destas centrais sindicais um plano de luta concreto.

Diana Assunção

São Paulo | @dianaassuncaoED

terça-feira 3 de abril| Edição do dia

Foto: Pablo Vergara

O Brasil foi tomado no último mês por comoção e revolta frente ao bárbaro assassinato de Marielle Franco, mulher negra e vereadora do PSOL no Rio de Janeiro. No dia seguinte ao crime, vimos manifestações espontâneas por todo o país e um rechaço massivo nas redes sociais, inclusive contra as fábricas de fakenews da direita sendo desmascaradas. Este crime mostrou que a ferida do golpe institucional está mais aberta do que nunca e coloca a urgência de levar adiante uma estratégia na luta de classes.

Algumas semanas após o ocorrido vimos com indignação o atentado a tiros contra a caravana de Lula pelo Paraná, fato que repudiamos fortemente. Como já expressamos aqui para enfrentar ataques como este por parte de setores da extrema-direita mas enfrentar também um crime como o de Marielle que é responsabilidade do Estado, precisamos da mais ampla unidade de ação organizando e coordenando a luta dos trabalhadores e da juventude. Neste caminho, ao mesmo tempo em que “batemos juntos”, o programa e as posições políticas de uma esquerda que quer ser alternativa ao PT não deveriam se misturar com partidos que pregam a conciliação de classes ou que são diretamente burgueses

Frente a toda esta situação, é correta a linha que a direção do PSOL vem levando adiante, ainda mais sendo este o partido que é vítima da brutalidade de um crime como estes? Acreditamos que não e que é uma necessidade entrar nesta discussão.

Nós do MRT, e das agrupações que impulsionamos junto com independentes como o grupo de mulheres Pão e Rosas, a juventude Faísca, o Movimento Nossa Classe e o Quilombo Vermelho estivemos em todas as manifestações por Marielle lutando pelo fim imediato da intervenção federal no Rio de Janeiro e exigindo uma investigação independente para enfrentar a impunidade. Estivemos também na linha de frente de denunciar este brutal assassinato e combater a política da Globo de expropriar o símbolo de Marielle da esquerda e colocar seu assassinato a serviço de fortalecer a intervenção federal. Porém, em nossa opinião a questão decisiva naquele momento, como agora, era desenvolver a mobilização dos trabalhadores e da juventude, unificando as lutas em curso e permitindo que essa mobilização pudesse se massificar nos locais de trabalho e estudo.

Os atos espontâneos por Marielle, se tivessem uma direção decidida a impulsionar a mobilização, teriam força para ter se massificado. O PSOL simplesmente parou de chamar manifestações combativas – ainda que tenha impulsionado atos culturais e ecumênicos – e não apresentou um plano de luta concreto, nos locais onde tem mais peso, em especial no Rio de Janeiro para que fosse uma pressão de exigência real às grandes centrais sindicais que permanecem em uma enorme trégua com o governo golpista.

Para darmos um exemplo concreto: que em capitais importantes do país como São Paulo uma histórica greve de professores e servidores municipais consiga impor uma dura derrota ao prefeito João Dória é a mostra de que existia uma oportunidade grande de confluir a luta democrática por justiça a Marielle com uma luta de enorme enfrentamento com João Dória, que queria nada mais do que tentar implementar em São Paulo a reforma da previdência que Temer não conseguiu implementar a nível nacional. Nós estivemos lado a lado aos professores com o Movimento Nossa Classe Educação buscando incentivar as iniciativas que surgiam da própria greve

Os professores de São Paulo expressaram massivamente nas ruas sua revolta por Marielle e se unificaram espontaneamente no primeiro ato em São Paulo, o que mostrava um embrião da potência dessa unidade nas ruas.

A Força Sindical também chegou a mobilizar em São Paulo milhares de metalúrgicos repudiando o assassinato de Marielle, o que mostra a disposição de luta até mesmo na base de centrais totalmente mafiosas e em outro estado que não no RJ.
Separar a luta dos trabalhadores da luta democrática contra estes ataques é uma estratégia que só pode nos levar a derrota. Não vamos vencer os ataques de setores da extrema-direita, como o ocorrido no Paraná, com palavras, palanque e perdão aos golpistas.

Unidade de ação ou campanha eleitoral?

Para os revolucionários a unidade de ação dos trabalhadores frente aos ataques do capital é uma política fundamental. Entretanto, quando falamos de unidade de ação é preciso desmistificar uma imagem construída pelo PT historicamente no Brasil. Para o PT – e infelizmente também para grande parte da esquerda que adota essa concepção – unidade de ação é a junção de meia-dúzia de dirigentes sindicais em cima de um carro de som ou de um palanque eleitoral em atos fragmentados e por fora de uma organização real nas estruturas.

O fato é que ainda que se fale em “frente única anti-fascista”, isso na boca dos militantes petistas tem um significado bastante evidente, como aponta Emir Sader: “A união dos partidos de esquerda – que, de alguma forma, já existe – não agrega muito mais, até porque a influência de massas desses partidos não é grande. É uma união necessária, mas não suficiente. A força maior que temos na luta contra a ultra-direita, seus arrebatos fascistas, o risco de apelo a soluções de um endurecimento maior ainda do regime, colocando em risco as próprias eleições, está na liderança do Lula (...) é a única que consegue unir todas as forças democráticas para resistir às ofensivas da direita, derrotá-la em todos os seus componentes, vencer as eleições e comandar a reconstrução do Brasil”. Ou seja, trata-se de uma política inteiramente eleitoral, a reedição dos últimos 13 anos de governo do PT que, a principal consequência de sua política foi abrir espaço para esta direita golpista que o próprio Lula perdoou, assumindo seus métodos de corrupção e aplicando parte dos planos de ajustes.

Para ser uma real unidade de ação, que coloque realmente medo nos golpistas e nos setores da extrema-direita, é preciso mover a força dos trabalhadores, algo que as burocracias sindicais nunca vão querer fazer até o momento em que suas bases as pressionem ou diretamente passem por cima delas. Por isso, o papel da esquerda é construir um polo alternativo, anti-burocrático que exija destas centrais sindicais um plano de luta concreto.

E o que seria um plano de luta concreto? Que cada fábrica, cada local de trabalho e estudo, cada escola tenha reuniões de base e assembleias democráticas onde os trabalhadores possam assumir em suas mãos a luta contra a condenação arbitrária de Lula e pelo direito do povo decidir em quem votar, contra o atentado da extrema-direita, por justiça para Marielle e contra todos os ajustes do governo golpista. Que destas reuniões e assembleias se organizem atos unificados, coordenando com as greves que já estão em curso.

Entretanto, se a estratégia é meramente eleitoral, é aceitável que o suposto “plano de lutas” seja na realidade uma agenda de atividades com Lula lançando também outras pré-candidaturas do PT que tem um programa claro que é contrário a mobilização dos trabalhadores. Lutar contra a possível prisão de Lula e contra os atentados a sua caravana não pode significar repetir a trágica experiência petista.

Desse ponto de vista, a ação na luta de classes não é uma "política a mais" no "calendário" que combina ações fragmentadas nas ruas, textos no Facebook e iniciativas parlamentares. A ação na luta de classes é o "centro" desde onde todas as outras táticas devem estar subordinadas, ou seja, toda a ação parlamentar, a presença nos sindicatos, nas entidades estudantis, precisam estar a serviço de desenvolver a mobilização de setores de massas, exigindo também das grandes centrais sindicais que parem de trégua com esse governo golpista e organizem um plano de luta concreto como expressamos acima. Por tudo isso, consideramos que a direção do PSOL, que está no centro de todo este ataque, vem perdendo a oportunidade de ter uma política decidida para colocar de pé uma real unidade de ação em exigência as centrais sindicais.

Hoje vemos que grande parte dos setores da esquerda golpista – aqueles que apoiaram o golpe institucional ou a Lava Jato em nome de suposta “independência” frente ao PT – criticam a direção do PSOL simplesmente por participarem de manifestações com a presença de Lula. Tampouco este é o problema em si, já que uma unidade de ação real envolveria as direções dos movimentos de massas para ações concretas com objetivos específicos na luta de classes. O problema é que estas manifestações em formato de palanque não são uma unidade de ação real, por mais que a direção do PSOL e a candidatura de Guilherme Boulos insistam que se trata apenas de uma frente-única contra os ataques.

Nós não concordarmos com as avaliações que acham que estamos sob uma ofensiva fascista em curso no país, por mais que comecem a haver exemplos pontuais de ataques da extrema direita e que devemos nos organizar para combatê-los urgentemente. A ideia de uma “ofensiva fascista” é uma operação que serve aos interesses eleitorais do PT, como mostra Emir Sader. Mas o erro desse tipo de articulação política se torna mais grave se a avaliação, como colocam setores da esquerda, é que “o fascismo está em tamanha ofensiva”: pretendem combater os fascistas com palanques eleitorais sem mobilizar a base dos sindicatos? Acham que isso é possível de mãos dadas com o PT e PCdoB em palanques enquanto eles controlam a classe trabalhadora via burocracia sindical na CUT e CTB? Isso está diretamente ligado às articulações do manifesto programático que nós do MRT viemos criticando, pois se trata de algo escandaloso que alinha à esquerda com partidos diretamente burgueses como PDT e PSB.

Se a luta é independente, por que um Manifesto “Unidade para Reconstruir o Brasil” junto com PDT e PSB?

A discussão programática é fundamental, e abrimos este debate com a plataforma VAMOS que é base da pré-candidatura de Guilherme Boulos e Sonia Guajajara pelo PSOL, já que consideramos que é um programa que não enfrenta o sistema capitalista. Entretanto o PSOL, pela via de sua Fundação Lauro Campos assinou um Manifesto Programático que é um verdadeiro escândalo. Se trata do Manifesto "Unidade Para Reconstruir o Brasil" junto com PT, PCdoB, PSB e agora com o PDT da Delegada Martha Rocha, fanática da intervenção federal no Rio, e de Kátia Abreu conhecida como a “motosserra de ouro” amiga dos grandes latifundiários do Brasil.

Desde quando enfrentar os ataques do capital ou dos governos de direita e golpistas, como é o governo Temer, obriga alguém a assinar um manifesto programático em comum com partidos burgueses? Desde nunca. Esse manifesto mostra como o discurso por vezes propagado de “contra a conciliação de classes do PT”, para alguns setores do PSOL, não passa de um discurso.

Quando em nome da unidade as fronteiras de classes começam a desaparecer, misturando os objetivos de uns e de outros, permitindo que um projeto que mostrou sua cara nos últimos 13 anos de governo como uma “salvação do capitalismo” tente hegemonizar o conjunto da esquerda, então não se trata mais de unidade de ação, se trata de uma frente política e programática.

Para ter uma luta independente é preciso em primeiro lugar que o PSOL rompa imediatamente com este Manifesto. Que a busca por unidade de ação seja real, e não eleitoral, e que, portanto, o PSOL construa em primeiro lugar a partir dos lugares onde dirige e junto com todos os setores da esquerda nos sindicatos como a CSP-Conlutas e as Intersindicais um pólo anti-burocrático e combativo que exija das grandes centrais sindicais como a CUT e a CTB um plano de luta concreto para colocar o movimento de massas em cena.

O centro da atuação do PSOL neste momento deveria ser a partir dos lugares que tem peso, seja no movimento operário ou na juventude, dar exemplos para desenvolver a luta independente dos trabalhadores buscando na luta de classes a única saída possível para isso. Suas candidaturas e parlamentares deveriam estar a serviço desta estratégia e não o contrário.

É preciso construir uma alternativa que supere o PT pela esquerda

Na batalha por colocar de pé a mais ampla unidade de ação contra todos os ataques, unificando as fileiras da classe operária e também a juventude nesta luta, é preciso construir uma alternativa que supere o PT pela esquerda.

Consideramos que para esta batalha, temos importantes lições a tirar dos fenômenos internacionais. Pela negativa, temos a experiência do Syriza na Grécia, que surgiu com discurso de esquerda e se transformou em aplicador dos planos neoliberais. Pela positiva, consideramos fundamental a esquerda se apropriar da experiência mais avançada do trotskismo internacional, com o PTS na Frente de Esquerda e dos Trabalhadores na Argentina, que é uma expressão de que para conquistar projeção eleitoral e influência em setores de massas não é necessário abrir mão de um programa revolucionário e anticapitalista ao mesmo tempo que esta projeção só pode ser expressão de um trabalho orgânico em cada fábrica, escola e local de trabalho, movendo uma força real da nossa classe contra os ataques do capital.

Chamamos todos e todas que concordem com estas ideias a construir esta batalha conosco sendo parte das nossas agrupações como Pão e Rosas, Faísca, Movimento Nossa Classe e Quilombo Vermelho, batalhando por estas ideias nos locais de trabalho e estudo onde estamos e impulsionando o Esquerda Diário como uma voz anticapitalista e dos trabalhadores.




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