Política

DEBATE

Unidade contra a direita, “trincheiras socialistas” e eleições - debate com o MAIS

Leandro Lanfredi

Rio de Janeiro | @leandrolanfrdi

segunda-feira 24 de outubro| Edição do dia

O primeiro turno mostrou a decadência do PT e o fortalecimento da direita. De norte a sul do país encolheu seu espaço nas prefeituras e nas câmaras de vereadores. Esse encolhimento do PT não aconteceu na mesma medida que um fortalecimento do PSOL, pelo contrário o espaço do PT foi ocupado pelo PSDB, outras forças de direita e por um aumento dos votos nulos, brancos e abstenções.

Primeiro os ajustes e depois os intermináveis escândalos de corrupção explorados pela mídia e por uma justiça golpista, em notória seletividade no alcance e arbitrariedade em sua interpretação constitucional. Essa crise do PT onde se cogita até mesmo que mude de nome ou busque criar uma “frente ampla”, colocam imensos desafios e oportunidades para a esquerda socialista.

Em poucas cidades o PSOL passou ao segundo turno: no Rio, Belém, e Sorocaba no interior paulista. Em Belém, tal como havia feito em Porto Alegre, fez isso em coligação com partidos burgueses. Na capital amazônica não só com o marginal PPL, mas também com nomes mais “vistosos” como o PV e o PDT de Ciro Gomes.
É preciso derrotar a direita e seus ataques. Esta máxima percorre os atos contra a PEC e as mentes de milhões que se identificam como de esquerda no país. Mas como fazemos isso?

Como essa luta que passa por impor que a CUT, CTB e sindicatos rompam sua trégua e sigam o exemplo dos estudantes do Paraná e do resto do país que saem em luta contra os ataques de Temer pode ser continuada no plano político?
Como deve atuar uma esquerda revolucionária frente a essa situação?

Debatemos aqui com posições do MAIS para exemplificar um problema de falta de estratégia revolucionária que percorre toda a esquerda nacional.Não tomaremos como interlocutores aquelas organizações políticas que preferem deixar os fenômenos ocorrerem e opinarem de fora como sabichões que se recusam a fazer política ea ter influência na realidade, temerosos de se venderem preferem seus gabinetes de leitura. Debatemos com aquelas organizações políticas que se reivindicam socialistas que se adaptam a esses fenômenos políticos tais como são, e até mesmo os embelezam. Coligados com partidos patronais, com programas de conciliação com os empresários, os principais candidatos do PSOL aos municípios foram considerados pelo MAIS como “trincheiras” da esquerda contra a direita; ou ainda, em grau maior do que um próprio Freixo se reivindica, como “trincheiras da esquerda socialista”, como diz o MAIS sobre Bélem, Rio e Sorocoba

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É preciso unidade e derrotar a direita, mas com qual programa e perspectiva? Sem isso é possível ter “trincheiras socialistas”?

Trincheiras e defesa,mas de quais posições e estratégia?

Percorre o pensamento da maioria que se identifica como de esquerda uma visão de que estaríamos diante de um enorme retrocesso e que a orientação atual se resumiria em manter posições de “resistência”.

Isso é parcialmente verdade. Há inegável fortalecimento superestrutural da direita, e a inédita vitória no primeiro turno de um tucano milionário como Doria na capital paulista está aí para provar. Esta aí o golpe e todos ataques dos golpistas que continuam e aumentam em muito os iniciados pelo PT.

Porém, esse fortalecimento ocorre ao mesmo tempo que segue uma importante disposição de luta. Nenhum lugar estampa em cores mais vivas esse “destempo” que Curitiba com um segundo turno com duas alternativas muito de direita, capital de Sérgio Moro, e das mais de mil escolas ocupadas por outro lado.

A localização que nos está imposta é defensiva. Mas defensiva não significa a “não luta” de Lula, da CUT, etc, mas como a partir de lutas defensivas contra os ataques pode-se partir para a contra-ofensiva contra os golpistas, a direita e os empresários. E como fazer isso no plano político que é diferente do plano da frente única nas lutas.

Muitos ativistas olharam para o primeiro turno às buscas do mal menor, do que seria, supostamente, um freio à direita. Com isso correram aos braços de Haddad em São Paulo e outros supostos “males menores” como faz agora o PCdoB em Porto Alegre indo aos braços de Melo do PMDB contra o mal maior Marchezan (PSDB), em Belo Horizonte estupefatos se perguntam entre Kalil (PHS) e João Leite (PSDB) o que seria o mal menor em difícil escolha.

Uma esquerda revolucionária deve educar contra essa lógica que leva sempre a se adaptar e nunca a erguer a luta independente dos patrões e seus partidos.O PT não pode ser nunca uma “trincheira” contra a direita, ele abriu e abre sistematicamente caminho a mesma.
Nós que não tivemos nenhum sectarismo em participar em qualquer ato junto ao PT, PCdoB contra o golpe pois se tratava de um sequestro do voto de milhões e um combate concreto, sempre o fizemos desde uma perspectiva independente exigindo ações da burocracia sindical para mover a força da classe trabalhadora contra os golpes e ajustes,entendemos que as “batalhas eleitorais” podem e devem ser um ponto de apoio para avançar desde essa localização defensiva para um impulso nacional contra os golpistas e seus ataques.

É com essa perspectiva que chamamos os eleitores de Freixo a construir uma força anticapitalista para não repetir a conciliação de classes do PT, sem isso não há “trincheira”. Ergue-se trincheiras de outra coisa que dessa “resistência” dos trabalhadores.

Construir um programa e uma força real contra a direita, os golpistas e os empresários exige denunciar implacavelmente a direita em todas suas variantes, como fizeram as candidaturas do MRT pelo PSOL, atacando sistematicamente Doria, Crivella, Russomanno, Marta; exige criticar e se contrapor à conciliação de classes do PT, PCdoB e companhia, mas também exige, uma separação antes de mais nada formal dos partidos dos empresários, mas também programática e organizativa.

Neste sentido, nada mais distante da batalha necessária para superação do PT do que repetir sua “flexibilidade” com os burgueses. Por isso (e outros motivos de seu programa) criticamos tanto a candidatura de Luciana Genro em Porto Alegre e aqueles que como o MAIS embarcaram nela como “trincheira dos socialistas”. Mesmo termo utilizado agora pela mesma corrente para descrever as campanhas em Belém, Sorocaba e Rio de Janeiro em postagens nas suas redes sociais como mostramos no início desse texto.

Como pode Edmilson coligado com o PPL, PV e PDT em Belém ajudar em algo a construir uma superação do PT e sua conciliação de classes? Mesmo assim o MAIS chama em nota a “corrigir os erros e avançar: a única saída é ir à esquerda. Unidade para defender um programa em favor dos trabalhadores, a juventude e dos lutadores.” Como corrigir os erros, romper as alianças? Claro que não, um conselho e diluição em uma candidatura que não pode apresentar um programa a favor dos trabalhadores, a não ser que consideremos sob a mesma lógica com que ativistas pensavam Haddad contra Doria. É isso? Mal menor?

Da mesma maneira, o MAIS foi entusiasta acrítico da campanha de Luiza Erundina em SP, a despeito de toda a sua trajetória em partidos burgueses, saindo do PT e passando ao PSB, tendo experiência de governo capitalista em seu prontuário. Logo se vê para onde vai: aceitou convite de ninguém menos que o tucano milionário João Dória para ser parte de um “conselho de ex-prefeitos” no governo ajustador do pupilo de Alckmin.

Em graus menos extremos que Edmilson, visto que não há coligação formal, vemos os mesmos elogios a Raul Marcelo em Sorocaba e Freixo no Rio. Nos dois lugares há um claro curso de procurar os empresários para governar juntos, “para todos”. Criticamos aqui essas posições em Sorocoba; no Rio de Janeiro sem sectarismo com um movimento que pode ser uma alavanca nacional para a luta contra os empresários participamos do movimento chamando a construir um programa e uma força anticapitalista o que é muito diferente do que se propõe Freixo, que acelera em tomar os rumos da conciliação com os empresários e suas leis de responsabilidade fiscal, como vemos no seu equivalente da carta ao povo brasileiro, chamada de “compromisso com o Rio”.

Para uma parte dos ativistas trata-se de uma “malandragem” para ganhar. Mesmo argumento que ouvíamos em 2002 frente a carta ao povo brasileiro de Lula. Vimos no que deu. Meirelles que era, supostamente, uma manobra perante os empresários está aí como ministro dos golpistas não para dar credibilidade a Temer mas, sobretudo, para seguir a obra iniciada em 2002.

Os socialistas e revolucionários devem ter outra perspectiva que esta do mal menor e da suposta “maleabilidade e malandragem” por fora dos princípios da independência de classe, e mostrar que todo programa de conciliação de classes, de respeito às “regras do jogo” ditadas pelo capital dá na trajetória do PT.

Frente ao Rio de Janeiro, onde Freixo sem declarar “cumprirei a neoliberal LRF” está dando grandes mostras de conciliação com os empresários, o MAIS se pronuncia que o caminho é“construir uma trincheira de resistência dos trabalhadores e dos oprimidos ao ajuste fiscal e aos ataques aos direitos em pauta”. Como, se Freixo está se propondo justamente respeitar essas leis dos capitalistas e dialogar com o governo federal e estadual, agora até mesmo renegando “nacionalizar o debate” ao renunciar a falar em golpe para pleitear a base eleitoral de Paes do PMDB?

Batalhariam por uma perspectiva independente, tal como nós?

Não é o que vimos até agora. Entendemos que após anos dentro do PSTU e vendo a política golpista e sectária deste partido, após sua enorme derrota eleitoral, os militantes do MAIS queiram se lançar a fazer política ofensivamente com os fenômenos da realidade e com candidaturas que possam dialogar mais. Entretanto buscar isso sem partir dos princípios de independência de classe somente pode levar ao oportunismo, que nada mais é do que a contra cara do sectarismo. Diluíram-se detrás de Luciana Genro, Edmilson que cruzava as fronteiras de classe nas alianças, de Erundina que trás como marca sua ter sido ministra de Itamar Franco e agora de Freixo e Marcelo que cruzam as fronteiras não nas coligações formais, mas em suas perspectivas de governo. Ou seja, esta diluição no que “temos para hoje” repete a lógica do mal menor ou de um velho campismo. O campismo afirmaria “aqui estão os socialistas” (não importam juntos de quem e com qual programa), “lá está a direita, estamos aqui”, o que nos cabe é pressionar aqui (como se Freixo pudesse adotar um programa que não o seu ou do “mercado”). Primeiro vencer a direita depois avançar. Só que o depois nunca chega ao não batalhar pela independência de classe nos momentos defensivos e preparatórios.

A batalha pela independência de classe no programa e na organização política e social fica para depois quando as condições já não são as mesmas. E assim desperdiçamos a oportunidade aproveitar a crise do PT para construir verdadeiras “trincheiras” para os socialistas e revolucionários. As “trincheiras” não existem por fora do programa e das perspectivas de classe, senão voltamos ao PT e suas imaginárias defesas contra a direita.

A luta defensiva se combina com a perspectiva de em meio à defesa preparar um “contragolpe”. As eleições se dão ao mesmo tempo que a preparação da grande batalha contra a PEC 241 e todos ataques de Temer. Esta “combinação” nos está imposta pela situação. Muito diferente seria o método para pensar uma frente única para ação, não somente com todas candidaturas do PSOL, mas com amplos setores para lutar os ataques. As eleições podem ajudar nisso, desde que os revolucionários atuem com outra lógica, sem se diluir acriticamente nas candidaturas de setores que tem outra perspectiva, que sequer colocam no eixo de seu programa se enfrentar com os ataques de Temer. Essa “nacionalização” do debate é muito diferente do programa e perspectiva do que se propõe Freixo, nem falar Edmilson.

A atuação dos revolucionários nestes complexos cenários passa pela batalha cotidiana por um programa e uma força anticapitalista e revolucionária. Ou senão repetiremos, queiramos ou não, um seguidismo à velha lógica da esquerda do PT, criticar algo e seguir juntos em nome da “unidade contra a direita”. Vamos à repetição, como farsa, ou ergueremos uma esquerda independente do PT e sua conciliação de classes? Fica o questionamento ao MAIS e a tantos ativistas independentes e em outras organizações que repetem esse erro.




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