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Unicamp celebra novo recorde de 80 mil jovens que serão excluídos pelo vestibular

Em seu site, a Unicamp noticiou com muita alegria o número recorde de estudantes inscritos para o vestibular deste ano. Algo bastante torpe para se comemorar quando o número de vagas para essa universidade não chega a 5% do total de inscritos.

Ítalo Gimenes

Campinas

quarta-feira 13 de setembro| Edição do dia

A Comissão Permanente para os Vestibulares da Unicamp (Comvest), responsável pela administração da prova que filtra grande parte da juventude a ingressar na universidade, noticiou um número recorde de candidatos para o Vestibular Unicamp 2018: 83.779 inscritos. Foram dez mil inscritos a mais que no ano passado, um aumento de 14%.

No entanto, o número de vagas oferecidas na universidade não só não cresceu, como segue expressando o caráter excludente da universidade pública. São míseras 3340 vagas disponíveis entre os 70 cursos oferecidos pela Unicamp, número correspondente a ridículos 4% do total de inscritos desse ano. A relação candidato vaga saltou de 22 para 25. De algum modo, bastante torpe, a reitoria da universidade vê esses números com bons olhos. Knobel fala em "inclusão" frente a uma exclusão de mais de 80 mil jovens, uma contradição tremenda, que se potencializa quando lembrado que esse é o mesmo reitor que está promovendo punições racistas aos estudantes que lutaram por inclusão real na universidade com as cotas étnico-raciais.

Na realidade, é sintomático que seja celebrado tamanha tragédia para o ensino superior público. São 80 mil jovens que terão seu sonho de ingressarem na dita “melhor universidade” do Brasil negados por uma prova, cujo conteúdo é pensado para os estudantes dos colégios privados de elite. Não obstante, a maior parte dessa juventude excluída serão os negros e negras, pois quem observa qual a cor dos estudantes dessa universidade, logo notará que estes não correspondem a sua real parcela da população. A porta de entrada desses setores na universidade se dá principalmente pela via do trabalho mais precário, a terceirização dos serviços de limpeza e bandejões.

O vestibular, em especial o da Unicamp, se prova mais esse ano um verdadeiro filtro racial e social. A reitoria que celebra seu aumento de concorrência está celebrando uma universidade ainda mais distante da população, para que mantenha a sua “excelência”, que só se expressa no número de patentes produzidas para a iniciativa privada, nas relações espúrias com as empresas privadas, sanguessugas do potencial científico e tecnológico da universidade que poderia estar a serviço das demandas mais sensíveis da população de Campinas e de todo o país.

Tamanho aumento na concorrência não pode ser explicado, como faz a reitoria, meramente pelo bom posicionamento da Unicamp nos rankings nacionais. Isso se deve em especial ao cenário de crise na educação, onde diversas federais e estaduais pelo país (haja vista o RJ, onde sugerem uma "revisão da oferta do ensino superior"), estão sendo ameaçadas pela PEC 55 de Temer e por ataques regionais. Temer, Pezão, Alckmin, todos querem "acelerar" a crise descontando da educação e das universidades públicas, utilizando da velha tática privatista: arrasar, sucatear, para então privatizar, cobrar mensalidades (como já aventou Temer).

A Unicamp, neste cenário, parece algo como mais "estável", apesar de não ser exatamente o caso. Não atoa a reitoria agora volta a possibilitar que a prova seja aplicada em outros estados. Os trabalhadores da universidade já estão sendo alvos de cortes da gestão Knobel, que congelou a reposição de vagas de professores e funcionários técnico-administrativos, além da reposição de 80% das vagas dos funcionários do HC. Em relação aos funcionários Funcamp, Knobel fez parte do processo de re-terceirização de muitos desses funcionários, ampliando a precariedade do seu trabalho.

Como garantir que tantos jovens possam fugir dessa realidade, realizarem seus sonhos de estudarem em uma universidade pública, frente a um cenário de crise na educação que vem atacando profundamente as universidades públicas, haja vista a UERJ ou os próprios cortes na Unicamp?

Certamente a maior parte desses jovens serão relegados à se endividarem nas universidades privadas, de ensino precário, fomentadas pelos governos do PT para alimentar o lucro privado de grandes monopólios de educação, como a Kroton-Anhanguera. São mais de 1,5 milhão de vagas de ensino superior controladas apenas pela Kroton, que sobrevivem graças a muito dinheiro público injetado. Qual o sentido dessas 1,5 milhão de vagas serem mantidas com dinheiro público para servirem de lucro privado de tubarões do ensino sob um ensino altamente precarizada?

Os estudantes já mostraram com a sua histórica greve no ano passado que não vão aceitar uma Unicamp para poucos, onde a exclusão da juventude pobre e negra seja regra, por isso travaram uma batalha importante pela implementação das cotas étnico-raciais, denunciando o atraso da Unicamp em não ter adotado ainda essa política. Os dados do Vestibular da Unicamp de 2018 só mostram o quanto é urgente que se fortaleça a luta por uma acesso ainda mais radicalizado, onde toda a juventude e os trabalhadores tenham acesso ao ensino superior.

Não pode ser que só na Unicamp 80 mil jovens fiquem pra fora enquanto o dinheiro público é transferido para os monopólios de educação, por isso defendemos a necessidade de estatização das universidades privadas, a estatização da Kroton sob controle da comunidade universitária (professores, funcionários e estudantes, proporcionalmente), para que a juventude pare de ser excluída do ensino superior público, e que o orçamento seja destinado conforme os interesses daqueles que constroem a universidade todos os dias, garantindo a sua permanência na universidade e em aliança com a população. O vestibular, reiteramos, um filtro profundamente racista e elitista, deve ser abolido, levando junto os tubarões do ensino. Só assim é possível que a juventude esteja dentro da universidade pública, e que esta seja verdadeiramente democrática e esteja a serviço dos interesses da população.




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