Política

Uma rachadura a olhos vistos no PSDB

André Augusto

São Paulo| @AcierAndy

terça-feira 20 de setembro| Edição do dia

O empresário João Dória, candidato a prefeito de SP pelo PSDB – que apesar de estar envolvido no escândalo de sonegação de impostos dos Panama Papers e ter recebido dinheiro de empreiteiras investigadas na Lava Jato, tem boas chances de chegar em primeiro lugar no primeiro turno – recebeu a notícia de que foi abandonado por um grupo de dirigentes tucanos que se alinharam atrás de Marta Suplicy.

Estes dirigentes de diretórios zonais do PSDB de São Paulo são apoiadores de Andrea Matarazzo, que deixou o PSDB e se filiou ao PSD após perder as prévias para Doria, de desestabilizar o partido. Hoje, Matarazzo é vice na chapa de Marta.
O grupo, que se autointitulou "peessedebistas autênticos” e pretende expandir sua abrangência.

A dissidência tucana começou com mais força em diretórios da Zona Sul, mas buscam “fomentar a mobilização de descontentes com a candidatura de Doria nas demais regiões, com foco nas zonas Norte e Leste”.

O presidente do PSDB paulistano, vereador Mário Covas Neto, tentou minimizar os danos já feitos. "Primeiro é preciso saber se esse movimento existe e se ele tem abrangência. Há uma tentativa sistemática de grupos insatisfeitos [com o resultado das prévias] que tentam se fazer maiores do que realmente são", afirmou Covas.

Os tucanos “autênticos” – que possuem atrás de si caciques do PSDB como ex-governador de SP Alberto Goldman, José Serra e o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso – dizem que Doria não tem tradição partidária e afirmam estar "descontentes" com a candidatura escolhida para representar o partido.

"Convidamos os militantes do PSDB descontentes com a candidatura que foi posta. Venha com a Marta, venha com o Andrea", prosseguem os “Canjicas de Itaguaí” de nosso tempo.

O racha nos diretórios zonais é um sintoma da divisão que a candidatura de Doria instalou no PSDB. O tucano foi escolhido com o apoio exclusivo do governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, contra o candidato Matarazzo.

Para responder aos “autênticos”, o diretório estadual tucano nada mais pôde fazer do que ameaçar suspender ou punir filiados que não defenderem a candidatura de Dória.

Para além da disputa destes medalhões, cuja “autenticidade” é não vincular qualquer idéia particular a nenhum dos lados em conflito, existe uma divisão evidente entre os agentes de poder dentro do PSDB.

Se o PT está em frangalhos depois de aplicar duros ajustes contra os trabalhadores e assumir toda a corrupção própria dos governos capitalistas mais reacionários, o PSDB não anda muito melhor. Está rachado, sem um líder claro. O mesmo FHC não desmente o fato de que a crise política e a polarização social acertam o tucanato em cheio, como parte orgânica da realpolitik tradicional que afasta amplos setores.

Ademais, o PSDB tem cargos no governo, mas não tem narrativa. Envolvidos nos esquemas de corrupção da Petrobrás, é notável como não encantam ninguém mesmo durante a crise histórica do petismo.

No plano nacional, a divisão tucana no Senado durante o impeachment, de um lado entre o paulista Aloysio Nunes junto ao paraibano Cássio Cunha Lima, e o mineiro Aécio Neves, mostra que há disputas internas fortes e ausência de plano claro. Ecos das divergências que ainda se mantém sobre o apoio ao governo Temer, defendido por Serra e Aécio e que contrariou os interesses de Alckmin (que agora paga no plano estadual a campanha subterrânea do PMDB de Temer em favor de Marta contra seu patrocinado Dória).

Mas mesmo entre Aécio e Serra as linhas de fissura são claras. Os dois buscam posicionar-se melhor para a candidatura do PSDB em 2018. Serra como Ministro das Relações Exteriores do governo golpista; e Aécio como presidente do PSDB e principal articulador do tucanato no Senado junto a Cunha Lima. Serra e Aécio estão citados nas investigações da Lava Jato, ainda que o tucano mineiro esteja muito mais desgastado pelas seqüenciais menções nas distintas delações.

Um triunfo de Marta sobre Dória colocaria Serra na posição de isolar o seu desafeto alckmista, ou debilitá-lo. Uma necessidade para este tucano – envolvido nas fraudes de licitação do metrô de SP, e no desvio de verba das obras do Rodoanel – uma vez que seus adversários tem apoios consideráveis: Aécio tem sustento hegemônico dos tucanos no Senado e na Cãmara. Alckmin pesa no xadrez político por governar o maior estado do país.

No plano paulista, onde os tucanos concentram maior força, como no plano nacional, essa contenda aberta não tem visos de terminar. Isso não significa a impossibilidade de que se construa um acordo amplo em SP caso a candidatura do empresário direitista desponte e silencie o “principado dos autênticos” (um jogo de palavras involuntário, uma vez que ratazanas não possuem princípios); esta seria a base para um acordo em vista de 2018, que beneficiaria Alckmin.


Alckmin e Serra

A fissura, entretanto, permanecerá atuando com seus efeitos sobre aquele que foi por anos o partido mais estável da direita liberal (e que agora vê com amargura que Rodrigo Maia do DEM puxa a atenção da velha direita para esta sigla).

Dentro disso, vale a pergunta: haveria alas no tucanato ruminando nos bastidores a construção de uma nova mediação liberal de direita? Não seria impossível. A história da Operação Mãos Limpas na Itália - inspiradora da Lava Jato, que caminha "sem provas, mas com convicção" - mostra como investigações dessa envergadura já deram origem a novos partidos populistas de direita, como o de Berlusconi depois de 1992.

A disputa de SP será chave para determinar as distintas tendências deste problema para o regime político. Pode ser que o resultado não seja “somente flores berlusconianas” para o imperialismo, como foi na Itália na década de 90 com as Mãos Limpas, mas o surgimento de potentes fenômenos políticos da classe trabalhadora à esquerda do petismo.




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